O apartheid social em Angola - Bernardo Castro

Luanda - O mundo está a assistir ao último percurso histórico de um ilustre filho de África que revolucionou entre torturas e sangue a consciência ética e política da humanidade do último século. Venceu e os seus ideais uniram homens, mulheres, velhos e crianças que estavam proibidos de sentar à mesma mesa ou carteira na escola, igreja ou hospital.

Fonte: Club-k.net

Afinal, a cor da pele não é a fronteira nem define a hierarquia ou a condição social entre os homens. Madiba como, carinhosamente, lhe chamam provou que a voz da justiça e da verdade não se cala com as prisões, abuso de poder e o fogo das armas.

Angola apesar de ter testemunhado esse percurso de uma longa luta contra o apartheid que enlutou os irmãos da África do Sul pouco aprendeu. Véras (2003) fala em apartheid social em que a estrutura do poder vigente é centrada em um modelo económico que gera crescente riqueza para poucos e pobreza para muitos e, que garante e privilegia o crescimento da economia sem uma política de renda justa e de atendimento às necessidades básicas da maioria da população.

 

O Slogan do MPLA nas últimas eleições justifica, exactamente, essa realidade. Injustamente, a segregação entre os homens, ainda, é uma realidade. Os sinais mais visíveis dessa segregação não são de natureza racial, mas social e espacial. Olhando um pouco para a história política de Angola o apartheid social começa com a política de exclusão durante o partido único de outras forças políticas e pessoas singulares do convívio e concurso do poder político de todos quantos não se revissem no ideário político do MPLA.

 

A questão que se coloca, hoje, é: manifestações dessa prática não são, hoje, visíveis? A partidarização das instituições públicas não afastou a indicação de cidadãos para cargos importantes por competência para dar lugar ao critério partidário a partir de Comités de especialidades? Como são tratados os cidadãos de outros partidos?

Até os cristãos foram perseguidos! Os activistas para os Direitos Humanos sofrem perseguições! Com que valores soa a palavra sulanos? Que espaço têm os bakongos?

Quem matou a hegemonia do reino do Kongo? Quem e de que filiação partidária são os empresários bem sucedidos no país?

A segregação espacial não afasta de centros urbanos os pobres? Que tratamento é dado aos San? Não são porventura discriminados?

Algum San ocupa em Angola um lugar importante? A sua língua não está em extinção por discriminação e não perderam as suas terras? Quem são os heróis deste país e de que filiação partidária são? E a discriminação regional não evidencia a extrema pobreza, a falta de serviços sociais no resto do país obrigando que todos se afunilem em Luanda com o fenómeno da zunga?

É verdade que nem todos podem ser milionários, mas também, é verdade que para se ser milionário não é privativo de um pequeno grupo com os mesmos laços de pertença à mesma linhagem política ou tribal. Isso é apartheid social. Angola precisa de aprender com Mandela. Mesmo na forma de estar em política. Veja-se quanta hegemonia, arrogância e impunidades dos dirigentes políticos em Angola? Até nas estradas é visível como abusam da sua condição.

Aqui, a política virou mercadoria; aqui, a democracia virou sobado; aqui, a informação virou um nevoeiro informacional; aqui, a história virou estória. Sob novos disfarces o apartheid continua na África do Sul, mas não o racial __ é o apartheid social que continuamos a combater, aqui, debaixo da mulemba. Aliás, é um compromisso com a justiça social.






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