Luanda - Abel Abraão destacou-se na cobertura da guerra que o país enfrentou. Debaixo de flagelamentos diários levados a cabo pelo exército da Unita contra a cidade do Cuito, que provocaram dezenas de milhares de mortos, narrava o desenvolvimento do quadro de guerra na província do Bié, num horário nobre, no noticiário das 13h00. Abel Abraão teve a cabeça a prémio, orçado em 300 mil dólares.

Fonte: JA

Abel Abraão ingressou na Emissora da Rádio Nacional de Angola (RNA) do Bié, ainda jovem, em 1980, cinco anos depois da proclamação da Independência do país, incentivado pelo amigo e depois colega Carlos Alberto Fragoso Pacheco.


“Desde que comecei na Rádio Bié, não exerci outra tarefa senão a de repórter e nesse ofício vou continuar”, começou por afirmar Abel Abraão na entrevista exclusiva concedida ao Jornal de Angola.


Nascido na cidade do Cuito, em 30 de Janeiro de 1962, Abel Abraão conta que sempre sonhou ser radialista. Primeiro filho do casal António Abraão e Rufina Sacato, Abel Abraão viu o seu único irmão morrer na guerra do Cuito.


“Era capitão das Forças Armadas. Liderou a libertação do bairro Castanheira, onde vivíamos e morreu mesmo no nosso bairro”, lembra-se com tristeza Abel Abraão.


“Quando entrei nos quadros da Rádio Nacional, comecei a funcionar na redacção desportiva e depois passei para a direcção de informação. A funcionar nesta última área, lembro-me que no dia 30 de Dezembro de 1992 começa a guerra na província do Bié. Estava em casa e enviei a primeira reportagem sobre o início da guerra a partir do telefone fixo da minha casa”, conta.

Abel Abraão lembra também que “o mais difícil nesse período de guerra era ir ao local contar as vítimas e depois reportar”. “Vi pessoas a morrer por falta de cuidados médicos e de comida e por balas dispersas”, acrescentou o nosso entrevistado.


O repórter de guerra frisou que perdeu, durante os ataques à cidade do Cuito, alguns colegas da Rádio, amigos e familiares. ”Não obstante isso, o dever de informar o país e o mundo sobre o quadro de guerra levou-me a cumprir a minha obrigação, acabando assim por me destacar na cobertura de todas as incidências”, refere com orgulho.


Hoje, aos 56 anos, pai de três filhos e já com uma neta de 19, Abel Abraão recorda os tempos tenebrosos vividos debaixo do fogo inimigo, em que chegou a ficar ferido em 1994.
“Recebi muitas homenagens e várias pessoas quiseram conhecer-me. Fui recebido pelo Presidente da República, que me ofereceu uma viatura Hyundai. Aquando da sua vinda ao Bié, o Presidente José Eduardo dos Santos mandou-me chamar para conversarmos”, lembra o “repórter da guerra”.


Abel Abraão contou à nossa reportagem que quando a sua casa foi vandalizada por militares da Unita teve de usar fardamento da Polícia Nacional, porque não possuía outras peças de vestuário disponíveis.


“Ao sair do Bié ferido, evacuado para Luanda, tive de vestir a farda da Polícia Nacional, porque não tinha disponível outra indumentária”, lembrou, acrescentando que com a graça de Deus, todos os estilhaços que estavam no seu corpo “foram retirados durante duas intervenções cirúrgicas feitas em Londres”.


Abel Abraão diz ter-se apercebido, quando conheceu os estúdios da Voz da América, que a sua cabeça esteve a prémio com o valor de 300 mil dólares. Isso mesmo, recorda, “foi possível comprovar nos estúdios da BBC de Londres”.


“Nos estúdios dessa cadeia, informaram-me que Jonas Savimbi, o líder da UNITA, tinha pago um bom dinheiro para passar a publicidade nessa Rádio. Vi os panfletos com o meu nome a dizer que pagavam 300 mil dólares a quem me apanhasse vivo e me entregasse à UNITA. Este anúncio passou na BBC de Londres e na Voz da América”, afirma Abel Abraão.

Aconteceu comigo

Abel Abraão falou ainda da sua profissão e da experiência que teve a partir da cobertura da guerra, na província do Bié. Nesse particular, disse ser “bastante complicado” cobrir um evento de guerra. Lembra o risco de vida que passou no Bié durante a guerra, sobretudo pelas dificuldades de comunicação.


“Durante a guerra, escapei muitas vezes da morte. Mesmo sem comunicação, tinha sempre de me deslocar, a princípio ao Palácio do Governo para expedir o trabalho e depois ao Comando das Forças Armadas”, disse.


Apesar das dificuldades e os riscos por que passava, Abel Abraão colocava o profissionalismo à frente de tudo.


“A minha motivação, sempre, foi informar o país, porque sentia que tinha essa obrigação, mas como recompensa recebi muito pouco”, lamenta.


Hoje, jornalista sénior da Rádio Bié, Abel Abraão está temporariamente afastado dos microfones, a coisa que mais gosta de fazer, devido a um acidente cardiovascular. “Estou a esforçar-me para voltar aos microfones. Penso que daqui a mais alguns meses posso fazê-lo a 100 por cento”, disse.



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