Luanda - A sociedade angolana priva-se do convívio dos seus membros e concidadãos quotidianamente, mercê da falibilidade e da incapacidade intrínsecas na natureza humana de viver na perenidade, pelo menos enquanto substância psicossomática.

Fonte: Club-k.net

O passamento físico dos angolanos e a sua transferência para a posteridade acontece por razões de vária ordem, isto é, desde as naturais (envelhecimento e falimento dos órgãos vitais), sociais (incapacidade da saúde curativa do país de garantir a sobrevivência dos enfermos), ou as decorrentes das imprudências e dos excessos de alguns indivíduos, que não conseguem ultrapassar determinados vícios, os quais, a longo ou curto andar, tornam-se fatais, ou ainda as negligências na observação das normas de conduta social e cívica esperada (como são os casos decorrentes dos inúmeros acidentes de viação), entre outras. Em relação a esta última, encoraja-se a atitude dos agentes do Estado que apresentaram em tribunal, para o devido julgamento, em Luanda, os automobilistas detidos por condução sob efeito do álcool.

 

No entanto, e sem desprimor aos inúmeros angolanos anônimos que perecem todos os dias de causas evitáveis e não evitáveis, a sociedade angolana e o órgão da soberania nacional, o Parlamento, lamentam o falecimento do Dr. Jaka Jamba, exímio nacionalista, intelectual, Estadista e pan- africanista. Uma perda deveras prematura.

 

Nessa ordem de ideias, a morte é, sem sombra de dúvidas, o mistério que o Homem ainda não conseguiu dominar. O “ainda” está aqui referido de forma prepositada, já que há estudos em curso em várias universidades do mundo, mormente as estado-unidenses e japonesas, que procuram garantir uma certa forma de sobrevivência post-mortem, através do método digital, o qual poderá permitir que a memória do perecido possa ser transformada em forma de dispositivo computadorizado capaz de interagir com os seus familiares mais próximos, e não só. Um dos exemplos mais evidentes desta possibilidade é apresentado pela Sofia, a primeira robótica com feições humanas com autonomia de linguagem e raciocínio.

 

Esta revolução tecnológica inserida no âmbito da chamada Artificial Intelligence (Inteligência Artificial) poderá oferecer aos humanos – para lá das críticas de tipo ético e de aumento provável dos níveis de desemprego em sociedades cada vez mais automatizadas – alguma forma de “imortalidade” num futuro não muito distante.

 

Todavia, tratando-se de sociedades tradicionalistas e em vias de desenvolvimento como as africanas, a perpetuação da memória, dos feitos e das virtudes dos patriotas mais exímios não precisa esperar só pela “imortalidade virtual”, mas urge, sim, a adopção imediata de uma política de Estado que visa a salvaguarda e a promoção, entre os de hic et nunc e dos vindouros, das individualidades públicas que servem o Estado e a sociedade angolana com elevação moral, patriótica e africanista.

 

Essa política de Estado, em forma de lei aprovada pelo Parlamento, ou simples decreto-lei a punho do Chefe do Executivo deveria prever, entre outros, uma nova toponímia que repensasse a forma de designação das ruas, avenidas, largos e praças a atribuir às personalidades angolanas merecedoras (a caminho do meio século da independência nacional, faz ainda sentido haver ruas dedicadas a Ramalho Ortigão?! A Norton de Matos?! E as demais figuras da época colonial?!), sem descriminação de tipo ideológico-partidário, ou de qualquer tipo (o partido que governa, ainda, o país precisa repensar aos heróis nacionais todos, e não só os que eram e são portadores do seu cartão de membro, abraçando todos os heróis nacionais, que no âmbito da guerra colonial, derramaram sangue, suor e lágrimas para liberdade do povo angolano!).

 

Dito de outra forma, deve-se reconhecer que, na história humana, durante as lutas para a emancipação dos povos das subjugações, houve sempre figuras que usaram métodos díspares para o mesmo objectivo. Pensemos por exemplo que durante as guerras de independência da Itália (chamadas Guerre di risorgimento italiano), Cavour e Garibaldi discordaram um do outro da cedência pela Itália da região de Nice à França. Para o primeiro, era necessário lidar com Paris de forma diplomática, pela sua potência imperial e da defesa que fazia ao Estado Pontifício, mas para o segundo, Roma deveria ser tomada por via armada, considerando a cedência de Nice uma traição à causa da unidade italiana. (Cfr. Antonella Grignola, Paolo Ceccoli, Garibaldi. Una vita per la libertà, 2010). Todavia, hoje às duas figuras são dedicados monumentos, avenidas, estátuas e arcos em toda a Itália.

 

A mesma política de Estado poderia igualmente prever atribuições de medalhas e honorificências aos ilustres patriotas ainda em vida ou a título póstumo; a designação de palácios e edifícios públicos em sua homenagem, ou a construção de estátuas e outras formas de representação objectiva. Mais ainda, determinadas ruas e outras vias de circulação ou largos de cada uma das províncias e municípios do país deveriam levar nomes que identifiquem as demais províncias e localidades do país. Ou seja, pensemos em Benguela, onde deveria haver ruas e avenidas assim designadas: “Avenida Luanda”, “Largo Lunda-Sul”, “Rua Kuito”, “Auto-Estrada Cabinda”, e o mesmo aplicariar-se-ia sucessivamente às demais províncias e localidades do território nacional.

 

A memória colectiva é, de facto, o garante da sobrevivência dos valores, usos e costumes de um povo, sendo composta por sujeitos e objectos referenciais nacionais. É reflexo do seu património material e imaterial. Todavia, se tal não for previamente preparado e sistematizado, pode evaporar-se e perder- se no tempo, sem nunca chegar aos seus finais destinatários: os futuros Angolanos! Torna-se, ipso facto, umimperativo categóricoa construção de um museu ou de uma Galeria Nacional do Herói/Patriota que seja depositária das fotografias descritivas e dos artefactos individuais dos compatriotas ilustres, que a exemplo do Museu Nacional da Moeda, possa estar aberta ao público para exibições ao longo do ano.

 

A respeito da prematura morte de Dr. Jaka Jamba, o que o Estado e a sociedade angolana pensam fazer em sua homenagem, com vista a perpetuar os seus efeitos heróicos entre os presentes e as futuras gerações? Bastarão apenas as condolências endereçadas à sua família e a presença de figuras do Estado no seu funeral?

 

Essa é, de facto, a ocasião é mais do que justa para que o país possa adoptar uma nova atitude em relação ao reconhecimento oficial e público dos feitos mais relevantes oferecidos ao Estado e à sociedade pelos seus mais ilustres gregários, sem olhar as cores ideológicas nem partidárias, como acontecia no passado. Essa nova postura deverá permitir que individualidades ainda em vida possam merecer essa distinção como sinal de encorajamento e agradecimento merecidos pelos seus feitos em prol da causa comum, que é a defesa da soberania, da unidade e da liberdade e da dignidade dos angolanos (que homenagem o Estado angolano já atribuiu ao actual presidente da Assembleia Nacional, “Nandó”?! Ou a Isaías Samakuva? A Roberto de Almeida?! Ao próprio José Eduardo dos Santos?! Ou a Eduardo Kuangana?! A Dino Matross ou a Lukamba Gato?!!, só para citar esses).

 

Neste ínterim, destaca-se o Instituto Superior de Relações Internacionais do MIREX, cuja Sala de Conferências passou a designar-se “Venâncio de Moura”, em homenagem ao antigo ministro das Relações Exteriores de Angola.


Ora, torna-se de igual modo necessário que figuras públicas e de Estado abraçassem o bom hábito de escrever de punho próprio as suas memórias e autobiografias, pois tal prática contribui grandemente para a consolidação do sentimento de pertença e de identidade comum e da promoção das virtudes entre as novas gerações, através da emulação dos modelos e das gestas positivos realizados por seus autores. Memórias e autobiografias, podem resolver o problema das referências sociais e dos modelos virtuosos de que tanto precisa o povo. É oportuno apelar aqui, por exemplo, ao ex- presidente da República em vida, que ao invés de consumar mais do seu tempo na escrivaninha directiva do seu partido, seria de todo proveitoso – para cimentar o seu legado –, se se dedicasse a escrever suas memórias, autobiografias, documentários e outras formas de engajamento social, ou reformar e ampliar o objecto social e de intervenção da sua FESA. Porquê deixar isso aos outros, se pode fazê-lo pessoalmente?! Como diz uma locução em latim, atribuída a Orazio: Carpe diem!

 

A quem não fosse mais entre os vivos, como é o caso do Dr. Jamba, é oportuna uma distinção póstuma em formas e modalidades acima descritas, começando pela própria UAN, que deveria atribuir em sua homenagem a designação de uma das suas estruturas académicas (por exemplo, Sala de Reuniões Dr. Jaka Jamba, ou Auditório Dr Jaka Jamba).

 

A perpetuação da memória dos ilustres concidadãos será, seguramente, uma lição de história condicente com o objectivo da formação da nação angolana e da cidadania reconciliada com a sua identidade, pluralidade e diversidade (et pluribus unum), respondendo assim, de forma positiva, a pertinente questão colocada por Dr. Jaka Jamba, isto é: «Será que a diversidade cultural em Angola é uma herança preciosa, sobre a qual se deve cimentar o sentimento de coesão e unidade, ou é um obstáculo da construção da nação angolana?»

*Director do Semanário online ilgeopolitico



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