Joanesburgo – Nascido em Cabinda,  Fernando Ricardo de Melo Esteves, foi  na primeira metade da década de noventa, o jornalista que mais incomodava o regime em Angola. Tudo por conta do seu estilo editorial implacável de denúncia de casos de alta corrupção, abuso de poder, a conduta comercial e de descaso para a destruição do país demonstradas pelos senhores da guerra, assim como as intrigas palacianas, de então.

Fonte: Club-k.net

As autoridades nunca se importaram  em prestar esclarecimento

Através do bissemanário Imparcial Fax, uma publicação inicialmente distribuída via fax, de que era director e principal redactor, Ricardo de Mello animava assim o único projecto editorial verdadeiramente independente no país, como resultado da abertura ao multipartidarismo, em 1992.

 

O director do Imparcial Fax tinha a capacidade de saber, com celeridade, detalhes de reuniões restritas dirigidas por José Eduardo dos Santos, assim como acedia a informações confidenciais sobre o modus operandi da UNITA.

 

Na madrugada de 18 de Janeiro de 1995, Ricardo de Melo seria morto a tiro, quando subia as escadas do prédio onde vivia, em Luanda. Tinha 38 anos. O seu corpo foi encontrado já sem vida, por uma criança, às 6h00, no corredor de um andar abaixo, que alertou a sua esposa Arminda Mateus.

 

Segundo informações vazadas por círculos restritos do regime, que tiveram acesso ao relatório preliminar e confidencial da investigação realizada pela DNIC (Policia de Investigação Criminal), Ricardo de Mello foi morto por um pequeno grupo de operacionais dirigidos por um indivíduo de nome “Carlitos”, identificado como sobrinho do então Ministro do Interior, André Pitra “Petroff”. Os operativos haviam alugado, um mês antes, um apartamento no edifício onde Ricardo de Mello habitava e seguiam-lhe os passos. Segundo os dados da investigação e análise balística, os assassinos efectuaram os disparos da porta do apartamento que ocupavam, injectaram uma substância venenosa no jornalista, depois deste ter caído, para certificação de que não sobreviveria aos tiros. Segundo o referido informe confidencial, os assassinos simplesmente fecharam a porta do apartamento e ali continuaram por mais uns dias, intocáveis.


Os dias anteriores ao seu assassinato foram marcados por uma torrente de telefonemas anónimos, com ameaças de morte, convocatórias policiais para interrogatórios entre outras formas de pressão a que Ricardo de Mello encaixava com coragem, prosseguindo com a sua missão.

 

Ricardo previa, uma deslocação ao Bailundo, que tinha em agenda para os próximos dias, com o objectivo de entrevistar o então líder da UNITA, Jonas Savimbi.

 

Um dia antes da sua morte, o General do regime, António França “Ndalu” aconselhou-o a moderar a revelação de informações confidenciais sobre a situação político-militar que este obtinha com arrepiante facilidade junto de figuras muito próximas do Presidente José Eduardo dos Santos.

 

Neste mesmo dia, Ricardo de Mello telefonou ao jornalista luso-angolano Xavier de Figueiredo, do extinto África Focus (Antecessor do Africa Monitor) , baseado em Lisboa, para lhe dar conta da iminente publicação do primeiro número do seu novo projecto editorial, a revista "A Palavra".

 

“Hoje de manhã, cedo ainda, quando me deram de Luanda a notícia do brutal assassinato de Ricardo de Mello, dei comigo a congeminar que o tempo tinha acabado desafortunadamente de me dar razão. O meu relacionamento pessoal e profissional com Ricardo de Mello remontava de há muito; mas tornou-se muito estreito desde há cerca de um ano quando ele lançou o "Imparcial Fax" - aqui amiúde citado ou retomado, tal como ele fazia com o AF.”, escreveu o jornalista na edição No nr 340, de 19 de Janeiro de 1995, da extinta newsletter, África Focus.

 

Segundo Figueiredo “Ainda ontem à tarde me tinha telefonado, entre outras razões para me levar a aprontar um artigo (inacabado) que queria publicar no primeiro número de uma revista, "A Palavra", que se estava a preparar para lançar.”

A campanha de desinformação do regime contra o morto

Curiosamente, a Igreja Católica juntou-se a vários sectores da sociedade na condenação do crime e na exigência de esclarecimentos sobre o assassinato do jornalista. Mas, consta que o então porta-voz da Presidência da República, Aldemiro Vaz da Conceição contactou o Cardeal Alexandre do Nascimento para lhe transmitir a falsa de que o malogrado fazia parte dos serviços de inteligência e a sua morte deveu-se à quebra de sigilo a que estava obrigado. Desde então, a Igreja deixou de levantar a voz.


O regime difundiu também outras versões destinadas a confundir a opinião pública, incluindo a estapafúrdia ideia que a sua morte teria resultado de um caso passional. O regime chegou mesmo a levantar suspeitas sobre a viúva Arminda Mateus, que pouco depois da morte do marido abandonou o país, por ter sido alvo de constantes ameaças. Arminda Mateus também trabalhava para o Imparcial Fax.


Ricardo de Mello, granjeava de grande influência junto do regime e de vários sectores da sociedade devido ao seu trabalho ímpar, na altura. A integridade com que exercia a profissão levava-o a exigir o mesmo dos seus funcionários, e sobretudo para que estes não incorressem na duplicidade de trabalhar para o governo, como é corrente actualmente. Tinha também importantes laços de parentesco com figuras da nomenklatura.

 

A sua mãe que depois mudou-se para Portugal, fora secretaria de então ministro do Trabalho António Dembo, indicado pela UNITA, no governo de transição apos aos acordos de Alvor. Um irmão da sua mãe, António Perdigão aderiu a FNLA, tendo depois se refugiado para Namíbia, ainda nos finais da década de setenta.

 

Uma outra irmã de sua mãe, era casada com o então vice-ministro das Relações Exteriores, Venâncio de Moura, e ao mesmo tempo tia de Maria Luísa Abrantes “Milucha”, a ex-esposa do então Presidente José Eduardo dos Santos. Ou seja Ricardo de Melo é tio de Tchizé dos Santos.

O seu velório teve lugar na residência de um membro da família Abrantes, no Bairro do Cruzeiro.

Inspiração para classe de jornalistas em  Angola

Com a morte de Ricardo de Mello, desapareceu também o seu “Imparcial Fax”. Porém, toda classe é unanime ao exprimir que o seu exemplo, perdurará nos anais da história do jornalismo angolano, como um exemplo de coragem e tenacidade, na construção de um estado de direito.

 

Em Dezembro de 2014, perante uma conferencia na Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, um outro jornalista angolano Rafael Marques de Morais revelava que “Hoje, no entanto, o meu trabalho enquanto jornalista de investigação está todo ele impregnado do seu legado, assim como do legado do meu compatriota Ricardo Melo, cuja vida foi também ceifada demasiado cedo enquanto, em 1995, investigava a corrupção e outros crimes dos dirigentes angolanos.”

 

Também, um outro jornalista Jorge Eurico, escrevia há 11 anos que “Ricardo de Mello incomodou, Ricardo de Mello desapareceu” lamentando que “A Direcção Nacional de Investigação Criminal, à época dirigida por Eduardo Sambo, jamais se preocupou em deslindar o caso”.

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