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Categoria: Cultura

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Luanda – O artista Paulo Kapela, dadas as condições precárias em que vivia nas instalações da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP) e devido à venda de drogas que afluía àquele local, foi levado na semana passada para o lar de idosos, Beiral.

Fonte: NJ
A história deste artista foi só o ponto de partida para focar uma problemática que atinge a maioria dos artistas e não só. Kapela é afinal, também o retrato de uma sociedade que vive, enquanto jovem, numa informalidade sem impostos e sem descontos e mais tarde se confronta com a precariedade e o abandono.

Segundo o secretário-geral da UNAP, António Tomás Ana, Etona, cerca de 80% dos artistas "estão mal" e cansados de viver à margem de um Governo que não os ouve nem se interessa pelo que fazem. "Somos órfãos, o Governo para nós não existe", diz.

"Aonde está o Estado? Tivemos o Fenacult, atendemos aos pedidos da senhora ministra, deslocámos artistas, obras, organizamos eventos, pintamos o mural do Rocha Pinto e até agora não houve qualquer pagamento pelos custos envolvidos ou pelos serviços prestados. Nem a ministra ou mesmo a 6ª Comissão de Educação, Cultura, Assuntos Religiosos e Comunicação Social visitaram a UNAP. Se não nos conhecem, como vão defender-nos", questiona Etona.

O secretário-geral considera que é importante que esta situação do Kapela venha a público para que as pessoas saibam o que está a acontecer. "Esta questão do Kapela é um problema da nação. O problema das artes em Angola não é individual, é geral", assegura.

"O Ministério da Cultura não responde a nada, não existe. Queremos uma plataforma de diálogo, a UNAP e a UNAC estão em situações paupérrimas. Queremos sentar e discutir a nossa condição, mas a ministra não nos ouve", denuncia o responsável, acrescentando que o orçamento para as associações foi reduzido e segundo avançou, vai sofrer uma nova redução.

"A UNAP é nacional. Já esteve em dez províncias: A ideia era chegar a todas, mas por via dos cortes financeiros, teve de ficar apenas pela capital", esclarece. Etona está ciente que a classe é vista como pedinte, desorganizada e ligada a "certos ambientes", mas assegura que tudo isto está a mudar.

"Estamos a fazer um esforço para nos organizarmos. Queremos criar espaços dignos para expor os nossos trabalhos. Somos solicitados por Veneza, New Jersey, Paris para estabelecer acordos, mas nós não temos condições para receber visitas", lamenta.

E alerta: "Enquanto tivermos uma lei tributária que não protege o mercado nacional, vamos ter empresários que vão comprar peças fora, encomendar serviços a outros países e vão continuar a desvalorizar o que temos no país".

Há um ano e seis meses à frente da UNAP, Etona esclarece que o problema do Kapela não é único. "Temos vários. Quando morre um artista temos de comprar o caixão, por vezes até pagar as exéquias. Ainda na semana passada tivemos de pagar os medicamentos para uma artista que se encontrava em dificuldades. Nós também temos problemas sociais", lembra.

"Alguns artistas fazem os seus descontos para segurança social e pagam impostos, estão enquadrados entre as profissões liberais, mas esse não é o quadro geral. A associação não dispunha de capacidade para controlar todos esses mecanismos, não estava organizada e só agora estamos a atingir um pouco de organização", explica, revelando que a seguir, o objectivo, é ganhar conhecimento nesta área.

"Vou participar num workshop do Ministério do Trabalho para aprender como será a gestão do nosso processo junto do Governo. Depois a ideia é trazer essa contribuição para os artistas", adianta.

Não ao dinheiro na mão

O NJ contactou o Ministério da Cultura e também a Direcção Provincial da Cultura de Luanda. A resposta do governo provincial foi imediata. Desconheciam que o artista Paulo Kapela estava agora no Lar Beiral. "Estamos tristes com o que aconteceu. É um angolano, é um irmão e estamos abertos para ajudar. A associação tem de participar esta ocorrência, lamentamos, mas nunca nos foi colocada esta situação", refere o director provincial da cultura, Manuel Sebastião.

A percepção que os departamentos públicos têm dos artistas em geral não é positiva. Em conversa informal com alguns responsáveis conclui-se que a maior parte dos artistas procura estes serviços para procurar apoio financeiro, sobretudo músicos. Existe inclusivamente, a ideia e que o Estado tem a obrigação e o dever de providenciar verbas para financiar, indiscriminadamente as actividades que estes artistas dizem que promovem.

Só no Governo Provincial de Luanda chegam entre 15 a 20 pedidos de apoio por mês. "O dinheiro tanto pode ser para comprar um carro, como para gravar um videoclip fora do país ou gravar um disco também no estrangeiro. Não pode haver uma política de entregar dinheiro. Por exemplo, os do teatro pedem menos, mas solicitam apoios para criar salas de espectáculo e isso é diferente", refere uma fonte do GPL.

Segundo a mesma fonte, "o apoio social passa por dar trabalho aos artistas (não se percebe porque o Angola Investe não contempla a cultura), exigir profissionalismo e o cumprimento dos regulamentos que já existem. Não faz sentido que o artista reclame quando a própria classe não se organiza para defender os seus interesses".

Não há amor na União

Nasceu em Maquela do Zombo, província do Uíge, há 67 anos. De lá partiu para o Congo Kinshasa e veio para Luanda com uma bagagem que lhe permitiu construir uma arte que já percorreu vários países africanos e europeus. O mestre Kapela, como é comummente conhecido, relembra os tempos áureos de convívio entre artistas, a criação da UNAP e como ajudou a formar alguns artistas.

O prémio CICIBA (Centro Internacional de Civilizações Bantu), a participação na bienal de Joburg em 1995 e a integração das suas obras em várias colecções. Refugiava-se há 21 anos nas instalações da associação. Sexta-feira, 24 de Outubro, Paulo Kapela foi levado por um grupo de polícias que entraram UNAP adentro.

O relato dos factos chega à redacção do NJ por intermédio de uma página criada com o nome do artista numa rede social. E acrescenta mais: O mestre Kapela seria levado dali para o lar de abrigo Beiral. Os gestores da página social, que não se quiseram identificar, informam que há dois cadeados que agora impedem a entrada.

O artista entretanto, confirma que foi levado sem nada daquele espaço que por mais de duas décadas foi o seu lar e ateliê. "Ficou lá tudo. As minhas obras, o material, documentos, roupas... Não trouxe nada comigo".

O mestre diz ter ficado atordoado com o aparato e da forma como foi levado dali. Sem aviso prévio, confirma o também artista Rasta Kongo que o visitava no Beiral. Paulo Kapela ganha a designação de mestre, porque segundo afirma, por ele passaram vários artistas que hoje se destacam entre muitos, Etona, o actual secretário-geral da UNAP. Que agora é apontado por estes dois artistas de ser o instigador da apreensão e expulsão.

Quase todos os secretários-gerais que passaram pela UNAP queriam aquele espaço para fazer restaurante ou bar e tirarem proveitos, mas a pressão do Etona foi muito maior, ao ponto de chegarmos a isto, dizem. O secretário-geral refuta as acusações referindo que se tratou de uma situação criminal, a polícia tinha que conferir alguma ordem.

O mestre Kapela foi detido em flagrante delito. O processo foi atenuado e dada a idade que tem e estado de saúde, foi levado para o Beiral. "Ele foi apanhado com estupefacientes e todos sabem muito bem que naquele espaço havia uso de drogas. Não podemos estar coniventes com esse tipo de situações criminais, porque senão a UNAP deixa de existir", defende-se Etona.

Confrontado com o facto, o mestre Kapela disse apenas que o espaço era frequentado por muitos artistas e clientes, com interesses vários. Lembra que houve tempos até, em que deu formação. Segundo a UNAP, "a polícia agiu autonomamente como deveria, até porque o espaço era frequentado por toda a sorte de pessoas que sabiam que ali iriam encontrar liamba".

"A polícia sabia e veio aqui tomar medidas, não fomos nós. O Comissário-chefe Jójó avisou-nos inclusive que iria redigir uma carta à UNAP a condenar este tipo de comportamento. A juventude que denegriu a imagem do Kapela desapareceu e ele agora está em crise", diz.

Durante vários anos o mestre Kapela conta que cedeu as suas obras para serem levadas para o estrangeiro. Esteve no No Fly Zone, em Lisboa, e na colecção ENSA, em Veneza. Além dos prémios que já conquistou e da venda de obras, o que se questiona agora é como chegou a este ponto.

 "Não há amor na UNAP, somos descartados. Deixo que levem os meus trabalhos para o estrangeiro, mas quando regressam não vejo nada, dinheiro nenhum, nem mesmo as obras", revela o mestre. Os artistas dizem que cederam obras que "acabavam por ser vendidas pela direcção da UNAP a 1000 dólares".

"Desse total, nós só recebíamos 200 dólares. Não há entrega de material, não nos são dados cuidados de saúde, já que muitas vezes trabalhamos com material tóxico. Nada", conta Rasta Kongo. O grande problema, explica o artista, deu-se quando começaram a "vender directamente as obras e a direcção assim não quer".

"Preferem que as coloquemos à disposição deles, mas nãohá transparência. Muitos artistas que tinham lá as suas obras foram buscá-las e por isso, resolveram correr connosco dali", explica Rasta Kongo.

Sobre esta questão da venda de obras, Etona afirma: "Em momento algum foram vendidas obras do Kapela, mas sei que ele vendeu à muita gente. Temos vindo a exibir uma parte das obras dele, que fazem parte da colecção Sindica Dokolo. Agora como é que essa fundação poderá vir a encaminhar algum valor que ele tenha direito? A lei dos direitos de autor foi aprovada, podemos tentar ver e seguir o passo de alguns coleccionadores que compraram as suas obras. A UNAP vai assinar um acordo com gabinete jurídico para acautelarmos algumas circunstâncias e salvaguardar os direitos do artista e provavelmente, neste âmbito, a situação do Kapela poderá ser ultrapassada".
Futuro do artista
No lar de idosos Kapela confessa que sente falta do convívio com os artistas. Não sabe bem como será o seu futuro, mas espera voltar a ter o seu espaço para se sentir encorajado a trabalhar. Durante uma reunião extraordinária que ocorreu esta quarta-feira, 29, na UNAP, o mestre Kapela foi o assunto em discussão.

Um empresário, conhecido coleccionador, terá proposto ajudar, alojando o mestre num ateliê em Cacuaco. Entretanto a UNAP decidiu procurar os familiares para entregar algumas obras que permanecem no antigo ateliê. "Como membro com direitos, a direcção da UNAP, na devida altura, também poderá fazer visitas e vamos começar a registar algumas preocupações latentes para depois fazermos um acompanhamento para que o Kapela não esteja ali, simplesmente abandonado sem ter esse calor familiar dos membros da UNAP", garante Etona.

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Lunda Sul – Criado em 2013, o Núcleo de Jovens Amigos da leitura e Literatura da Lunda Sul ganha fôlego, depois de alguma apatia. Jovens preocupados com a inexistência na cidade de um espaço para debates e “oficina” de arte literária decidiram juntar-se e revitalizar o Núcleo, fazendo dele um espaço para o intercâmbio de conhecimentos que levem ao afinar da pena literária.

Fonte: Club-k.net
Depois de um encontro preliminar, a 13 de Setembro, juntando duas dezenas de jovens e adolescentes, o grupo voltou a reunir-se neste domingo, 21 de Setembro, sob a liderança de Guilson Saxingo.
 
O próximo passo, segundo Satxingo, será a eleição e tomada de posse de um corpo directivo que deverá elaborar um calendário de reuniões ordinárias e outros encontros.
 
A reunião deste domingo contou também  com a presença do escritor Soberano Canhanga, mentor do Núcleo e apadrinho do mesmo, como convidado que falou aos presentes sobre a necessidade de os jovens trocarem experiências e conhecimentos académicos e culturais e se empenharem nos estudos para que tenhamos renovação ao nível da classe intelectual.
 
Não basta estar licenciado, disse, é preciso ter conhecimentos. Nesse quesito, a leitura, o debate cortês e o ensaio da escrita são peças fundamentais para que o jovem ganhe o reconhecimento social.

No grupo, o realce vai para a presença de uma rapariga, Núria, que se sente apaixonada pela literatura, tendo ganho de presente um exemplar do livro "O Relógio do Velho Trinta", ao passo que um outro "Manongo-Nongo" foi ofertado ao colectivo.
 
“Há muito tempo procurava por um grupo onde pudéssemos falar sobre assuntos de interesse juvenil e conhecer a nossa literatura”, disse Núria, 17 anos.
 
Os jovens, alguns deles já declamadores de poesia, procuram buscar o conhecimento e o reconhecimento social pela via do estudo e do trabalho, uma acção que merece apoio institucional e de pessoas particulares para que possam desenvolver actividades e crescer cultural e intelectualmente.
 
Capas para processos, cartões para membros, apoios financeiros e materiais como blocos de notas, esferográficas, etc., serão bem-vindos.  O Núcleo usa para as suas reuniões as instalações da Escola Superior Politécnica da Lunda Sul, Universidade Lueji A Nkonde e foi formalmente apresentado às autoridades políticas e administrativas da província.

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Lunda Sul – Apesar da chuva que caiu em Saurimo, na tarde de sábado, 08, cerca de meia centena de pessoas presenciaram ao acto de apresentação do poemário de Brigitte Caferro, realizado no cine Chicapa, com a presença da governadora da Lunda Sul, Cândida Narciso, que se fez acompanhar de dois vice-governadores e do director provincial da cultura.

Fonte: Club-k.net
Soberano Canhanga, também poeta  e  prosador, foi convidado para a apresentação crítica do livro, começando por recitar um poema que escreveu para homenagear a autora e as senhoras presentes: “SORRISO A ANGOLANA
Nesta sala que me acolhe
No consagrado teu dia
Percorre-me a memória
Os sorrisos mais luminosos que me brindaste
Mesmo multi-atarefada
Mesmo preocupada
Entre emprego e família dividida
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE

De dor gemendo, aflita,
Sonolenta,
De noite mal dormida
Do mona adoentado
Moída pelo trabalho
Pelas lidas caseiras
Cuidando marido ressacado
Ou desviando patrão mal-intencionado
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE!”

Excelências, amigos das artes e, sobretudo, da literatura.
A minha saudação especial às nossas mães, razão da nossa existência.
Vénia redobrada à Dra. Cândida Narciso que nunca deixou de estar presente num acto de lançamento de livros em Saurimo, dando assim exemplo de que a sociedade só cresce com conhecimento.

A nossa escritora tem como nome artístico Brigitte Caferro, sendo de nome próprio Brigite Causse Caferro. Nascida aqui mesmo em Saurimo, em meados da década de 80 do século passado, é formada em Administração pela Universidade Federal de Paraná, no Brasil. É cantora, artesã e escultora da palavra, sendo este “do meu íntimo mais íntimo” o seu primeiro “artefacto” literário.

Brigitte Caferro também pode ser lida na antologia “Amores diversos”, publicada no Brasil, em 2012, bem como na “Folha Carioca” onde ilustrou com um poema a matéria “literotismo”.

O meu primeiro contacto com Brigitte foi pela via do FB, e já quando tinha terminado de ler o seu livro que me fora enviado para essa empreitada difícil que é apresentar o livro às senhoras e senhores aqui presentes.

 Confesso, que quando recebi o convite do grupo Hytweza para comparecer nessa cerimónia de apresentação do poemário de Brigitte, o sentimento foi de satisfação por ser eu um amante fervoroso das letras e incentivador da cultura da leitura e escrita entre os jovens. Embora acometido por uma lombalgia, aceitei o convite.

Porém, um calor interior invadiu-me quando me foram pedidos conselhos sobre como organizar um lançamento de livro. Opinei, mas fiquei receoso que algo sobrasse para mim. Assim pensado, assim solicitado. Senti-me criança perante tamanha responsabilidade, embora honrosa e irrecusável.

Estamos aqui dois estreantes. Ela na publicação e eu na apresentação crítica de um livro. A minha missão se torna ainda mais difícil pelo facto de o livro trazer já uma apreciação crítica de Ricardo Alfaya, um escritor, crítico literário, revisor e editor, como se poderá ler na pág. 07 (elementos pré-textuais da obra).

Queridas mamãs, queridos papás, caros jovens,

Um estudo realizado recentemente pelo investigador Tomás Lima Coelho, sobre a literatura angolana e feita pelos angolanos, actualizada nesta última quinta-feira, aponta que, de 1849 (ano em que foi publicada a primeira obra de um angolano), a esta parte, o número de escritores nascidos na Lunda Sul ainda NÃO CHEGA A DEZ. São apenas SETE, contando já com a nossa caçula Brigitte Caferro, Sendo que o primeiro lundasulino a publicar um livro em Angola foi o Professor Dr. Vítor Kajibanga com “A alma sociológica na ensaística de Mário Pinto de Andrade, em 2000”.

A ele se seguiram Bula Mbungue, Elias Chinguli de Oliveira, Fonseca Sousa, Raul Luís Fernandes Júnior e Valter Hugo Mãe (este último nasceu aqui em Saurimo mas vive em Portugal desde 1976). Brigitte é, portanto a primeira lundasulina a publicar um livro, já que, dos SETE naturais desta província, seis são homens.

Preocupados, vamos fazendo apelos e vamos tomando iniciativas como a criação do Núcleo de Leitura e Literatura, na Escola Superior Politécnica da Lunda Sul, que, desde já, convido todos os jovens a frequentá-lo.

Ilustres senhoras e senhores,

Já vai sendo tempo de começarem a surgir novos valores na Literatura da Lunda Sul. Precisamos que surjam mais Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita “a fotografia do coração”, conforme nos recomenda a nossa autora no seu poema ARTISTA (pág. 81). “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Brigitte Caferro não vem fazer número. Vem preencher o seu lugar e trazer vida à criatividade artística na Lunda Sul. Vem dizer que é possível desde que se tenha a palavra e a coragem de a esculpir conforme nos ensina nas páginas 05 e 06.“Escrevo desde os meus 13 anos. Anotava num caderno e por questão de segurança passei a digitá-los. Com o evoluir do tempo fui evoluindo a linha de pensamento e melhorei a escrita… Quando senti que a minha sensibilidade artística era muito forte, decidi escrever e publicar esse livro”.

Aos jovens, candidatos a escritores, aqui está o conselho mais do que claro. Ser escritor não é algo que se consiga de dia para noite. Exige inspiração e, acima de tudo, transpiração. Muita transpiração para dar forma à palavra.

Nos seus 76 poemas, Brigite apregoa, acima de tudo, o amor, o ser e a sociedade. A escrita de Brigitte é, sobretudo, intimista. É o seu grito ao encontro do “nós” social. A fotografia desta poesia intimista pode ser encontrada na pág. 17 “Dois corpos e uma paixão” ou ainda na pág. 21 “Vem amor/com teu fogo/causar-me curto circuito… /com teu cabo de alta tensão/ fazer-me conexão…”.

Nos “amores de Brigitte” encontramos também dilemas. A antagonia entre o estar juntos e compreender/enfrentar a separação. A ansiedade, o desejo de regressar e de reconquistar colos… Próprio de quem se encontre distante dos seus. Próprio dos migrantes.

Brigitte mostra-nos com surrealismo, na pág. 25, em que diz viver num “mundo de sonhos” onde o ”maior pesadelo é a realidade” de um dia “encontrar-te”. Em oposição, na pág. 20, Brigitte fala sobre o fim do tempo ou o fim da missão, mais quando tempo não houver para o “abraço final”,  quando deixarmos de “dividir a sala, sorrisos e futuros”…

Considero a poesia de Brigitte Caferro, como desabafos da alma que nos chegam por via da escrita. Neles, impera o verso livre, não se destacando formas tradicionais como o soneto, as quadras e as métricas, etc.

Encontramos porém elementos metalinguísticos, próprios do género literário. E, Brigitte também reinventa a língua com que trabalha no seu “íntimo mais íntimo”. Bastará ler o “penso, repenso e tripenso” (pág. 27), ou ainda elementos como a rima em “chamas-me p´ra cama/mas não me amas/ És o fantasma/que corrompe minha alma” (Pág. 53).

A anáfora e a gradação, outras características deste género, também estão representadas em vários textos como “Quero voltar a ser criança…/Quero voltar ao passado/… Quero regressar à meninice…/(pág. 56).

No “íntimo mais íntimo” de Brigitte nota-se também o recurso à personificação e a expressões metafóricas como se pode conferir em “As luzes revelando segredos sombrios/no palco da cidade adormecida” (pág. 97) ou ainda o pintar “… na tela da alma/amores, sonhos e ilusões…”

Outra questão, não menos importante, é o facto de a angolana Brigitte Caferro, ter escrito com base no discurso brasileiro da língua portuguesa ou aproximando o discurso ao AOLP de que Angola, por razões óbvias, cultural e socialmente ponderáveis, ainda não aderiu.

Grande parte da produção científica e intelectual, escrita em Língua Portuguesa, vem do Brasil e de Portugal, sendo o país americano, aquele que mais falantes possui. Daí, a necessidade de um apelo aos jovens, aos professores das nossas crianças. Escrevam de acordo ao português padrão, aquele convencionado até hoje, mas não deixem de estar atentos às regras do AOLP, para que tão logo os linguistas e os políticos se entendam não fiquemos na fila de trás, quanto à aplicação das novas regras.

Quero agradecer a Brigitte Caferro pela ousadia que teve em trazer-nos os seus gritos da alma e pedir que não se embale nos elogios que esteja ou vá receber. Continue a cultivar-se e a polir a palavra. Vá lendo os clássicos da literatura lusófona e, sobretudo, aqueles que reinventaram a língua como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, António Jacinto, Alexandre Dáskalos, Agostinho Neto, Alda do Espírito Santo, entre outros.

Vá também tutorando os jovens que a vão procurar para dar forma aos seus textos. Somos poucos para a grande empreitada que é desenvolvermos a nossa terra, a nossa Lunda Sul, a nossa Angola.

Para terminar,

Precisamos que surjam mais jovens como Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita a fotografia do coração. “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Tal como recomendou, uma vez, o já finado mais velho Mendes de Carvalho, a quem rendo homenagem, “os jovens não precisam de ter pressa em publicar. Devem antes cultivar-se”. Porque a literatura adiada não apodrece. Ela amadurece.

E já que estamos a comemorar o dia internacional da mulher, com a apresentação do livro de uma jovem mulher, por que não irmos à página 75 e desfrutarmos do poema Mulheres?
“Dos seios/liberam as mulheres/ a essência-fragrância/que hipnotiza os homens/e que os leva ao êxtase!/ Doces como teixos/ as mulheres precisam ser/irrigadas e acariciadas/ Também mimadas/amadas e protegidas/ para que não se tornem venenosas”.

Muito obrigado

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Luanda - O livro África e Direitos Humanos será lançado em Luanda, no dia 10 de Junho na União dos escritores Angolanos, as 15 horas. O livro tem como organizador, Domingos da Cruz. Segundo o resumo disponibilizado no site da editora, o livro "discute a questão dos direitos humanos em África, uma vez que este assunto estampa todos os dias os noticiários dos países que olham de maneira distorcida o continente. Esta questão é abordada por vários ensaios e pesquisas feitas por mais de vinte cientistas convidados para participar deste livro, com a humilde pretensão de dar uma contribuição para África, mostrando posturas criticamente construtivas para melhor conhecer o continente."


Fonte: Club-k.net

Far-se-à uma apresentação e lançamento fora do comum, uma vez que haverão vários intervenientes à comentar o livro: Fernando Macedo, Nelson Pestana (Bonavena), Sizaltina Cutaia e Filomeno Vieira Lopes.

 

Confira abaixo o prefácio do livro feito pelo Prof. da Serra Leoa, Francis Musa Boakari, Pós-Ph.D.:
“Temos em mãos uma valiosa contribuição aos esforços renovados e posturas criticamente construtivas para melhor conhecer a África, as áfricas e as/os africanas/os. Não poderia ter sido escolhido uma temática tão central nesta tarefa como a dos direitos humanos, que é um campo movediço no tocante às realidades políticas, culturais, econômicas e sociológicas, não somente no que se refere ao continente africano, mas acima de tudo, nas suas diversificadas formas de relações com o resto dos mundos, árabe, latino, oceânico, ocidental e oriental. E todos dialeticamente constituindo uma encruzilhada no pensar de políticas e outras intervenções voltadas às mudanças que africanas/os continuam precisando para usufruir melhor de seus direitos basilares porque são tão humanos como quaisquer outros da espécie humana.
 

Os Direitos Humanos são para TODOS e devem ser de TODOS! É recompensador saber que um membro de uma África Nova, de um grupo de intelectuais críticas/os e acadêmicas/os participativas/os que produzem conhecimentos de engajamento social com o calibre analítico de um Domingos da Cruz teria a coragem de convidar outras/os pesquisadoras/os para se debruçar sobre a problemática universal dos Direitos Humanos – agora, com as realidades africanas como ponto de partida para compreender a complexidade do mundo globalizado; ainda que enraizado em cosmovisões localizadas, com concepções singularmente tradicionais.


Domingos da Cruz e as/os suas/seus co-autoras/es nos conduzem a um patamar de reflexões frutíferas no que tange a humanidade, a sua própria humanidade. Afinal de contas, quem define esta realidade, este ideal que é ontológico para a maioria das/os africanas/os de hoje? Esta humanidade de que se fala é real ou é uma construção social de interesses diversos para jogos sociais diferentes?  No substrato de todos os capítulos da obra, é um questionamento bem africano: De que humanidade está falando? Para falantes de Mende de Serra Leoa, este fenômeno é melhor entendido como ngo-yilah, que pode ser traduzido como união, unidade, voz unificada, valor social primário, ou solidariedade. Para as populações que falam línguas Bantu, ubuntu, é a palavra que expressa estas características que falo aqui.  A humanidade é humana, dizem estes conceitos filosóficos e princípios organizativos da sociedade, quando há solidariedade e união na busca do melhor nas pessoas como integrantes de coletividades. Chamado ngo-yilah ou ubuntu, famílias africanas dos tempos primordiais aderiram à esta filosofia humanizadora de todas as pessoas, ao contrário de uma outra filosofia que prioriza o indivíduo, as individualidades persistentemente construindo barreiras contra uma colaboração real entre os povos e os indivíduos ... no altar da filosofia alternativa que é dominante, é o indivíduo em toda a sua incompleta (decepcionante?) magnitude que é adorado. Lendo os textos a seguir, valeria a pena lembrar que as explicações e discussões das/os intelectuais precisam de um alicerce humanizante porque elas/es não cansam de enfatizar que – De tudo que temos e somos, o mais importante é a nossa humanidade e a das/os outras/os. Sou eu porque você é, e juntas/os, podemos ser muito mais gente. Com as explicações das/os colaboradoras/es e a competência organizativa do idealizador da obra, ficou convidativo refletir sobre a humanidade que permanece a essência da África, a África e Direitos Humanos – realidade cotidiana, campo problemático, mecanismo das discriminações.
 

A seleção inteligente dos textos ajuda evidenciar a obra como bandeira, provocando reflexões criativas sobre questões de Justiça, Liberdade, Igualdade, Equidade, Solidariedade, Tolerância, Respeito e Paz. Quando a questão é da Justiça Social, os trabalhos das/os pesquisadoras/es levam o/a leitor/a a pensar sobre os ideais do mundo moderno proclamado há séculos, mas que ainda permanecem como sonhos, cuja realização é postergada com o passar dos tempos e as conquistas tecnológicas do mundo industrializado e consumista. Por outro lado, os mundos africano e indígena continuam vivendo uma justiça social pragmática, porque esta é cotidiana e ubíqua.


Textos que discutem questões de justiça na África contemporânea servem de janelas para reflexões comparativas. Num mundo de discursos, onde a escolha e organização das palavras (empacotamento discursivo) é quase tudo para a maioria das pessoas, porque procurar alcançar a essência nos ditos pelos não-ditos se tornou tarefa cada vez mais pesada. É neste sentido que as contribuições nesta publicação deveriam provocar leitores para fazer comparações históricas dos mundos africanos e outros. A leitura univocal de uma história universal da humanidade facilita comparar as realidades africanas de hoje com os avanços do mundo ocidental do século XXI, uma Europa que hoje é composta de nações políticas, e não com o mundo medieval das lutas tribais e conflitos genocidas entre os grupos étnico-culturais europeias. Focar análises nos Direitos Humanos e a África serve de incentivo para olhar para estes povos a partir de uma ótica menos etnocêntrica, eurocêntrica. É preciso que cada grupo seja observado no seu contexto (histórico-espacial), criticamente relativizando com critérios que humanizam todas as pessoas nas suas condições humanas.

 
Há necessidade de uma Educação em Direitos Humanos, com fundamentos teórico-metodológicos quando se trata da África e de sua rica realidade de diversidades? Se for assim, quais os modelos que devem servir de base epistemológica para tal exercício pedagógico? Quem seriam as/os instrutores, e quem iria instruir-orientar estas/es; africanos indígenas ou africanos das diásporas, ou ainda, africanistas – ocidentalizadas/os ou orientalizadas/os? Como berço da humanidade, porque os valores da indigeneidade africana não podem ser utilizados para uma formação em Direitos Humanos para praticar direitos humanos viáveis? Como conseguir isto considerando o que rege a Carta de Banjul (1979) - Tendo em conta as virtudes das suas tradições históricas e os valores da civilização Africana ...? Esta não é a problemática central dos Direitos Humanos na/para/da África?

 
O organizador cria um impacto quando apresenta como capítulo inicial, “Direitos Humanos: As particularidades africanas” de autoria do angolano Marcolino Moco, e como último capítulo, “África, sinais de esperança”, de sua própria autoria. Domingos da Cruz reforça a ideia de que na diversidade do continente africano reside uma riqueza ilimitada apesar do secular empobrecimento de seus povos. A obra África e Direitos Humanos é chamamento da relevância do provérbio de que - Falar de uma pessoa é de fato pensar em TODAS AS PESSOAS!”  

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Cabinda - DISCURSO DE BOAS VINDAS DE SUA EXCELÊNCIA GOVERNADORA DA PROVÍNCIA DE CABINDA, NO ACTO CENTRAL DO 08 DE JANEIRO, DIA NACIONAL DA CULTURA

• Sua Excelência, Dra Rosa Cruz e Silva, Ministra da Cultura

•Excelência, Dr. Frederico Cardoso, Secretário de Conselho de Ministros

• Senhores Vice-Governadores

•Directores Nacionais e Quadros Seniores do Ministério da Cultura

• Distintos Membros do Governo da Província de Cabinda

• Agentes Culturais

• Líderes Religiosos

• Autoridades Tradicionais

• Fazedores de cultura

• Caros jovens

• Minhas senhoras e meus senhores 

Permitam-me em nome do Governo da Província de Cabinda e da sua acolhedora população do Miconge ao Yema e do Massabi ao Zenze de Lucula, saudar o dia 08 de Janeiro, Dia da Cultura Nacional e agradecer a Sua Excelência, Ministra da Cultura em particular e ao Ministério que mui dignamente dirige por terem escolhido a Província de Cabinda, para albergar neste ano de 2014, o Acto Central Nacional do Dia da Cultura. Cabinda, as terras de Macongo, Mangoio e Maloango, da Floresta do Maiombe, dos Bakamas, do Mayeye, do Kintueni, dos Maringas, do Matchatcha, do Sunsa e de tantas outras manifestações culturais, deseja-vos uma boa estadia e convida a desfrutarem do mais belo que o nosso rico país apresenta, nesta parcela do Território Nacional.

Aqui, poderão testemunhar a bênção que o nosso Poderoso Criador nos ofereceu, a interacção da floresta com o mar, onde o verde cobre até onde a nossa visão alcança.

Excelências Minhas Senhoras e meus senhores

A Província de Cabinda destaca-se sobretudo pela preservação dos seus traços culturais, onde as artes são demostradas através da música, dança, pintura, escultura, etc.

Os nossos contos e fábulas, os provérbios que nos transmitem uma sabedoria ímpar a um povo que dia-a-dia vai conhecendo a história em respeito aos seus ancestrais.

Deste respeito e valorização cresce a responsabilidade do Governo da Província, para a identificação, requalificação dos locais e monumentos históricos, assim como o resgate e valorização das figuras históricas, que marcaram as diversas etapas da evolução de Angola, como país livre e independente, desde a resistência, a ocupação colonial, a abolição dos escravos, a tomada de consciência para a luta armada de libertação nacional, a proclamação da independência a 11 de Novembro de 1975, o longo e difícil processo de reconstrução nacional, a busca pela paz efectiva e aos dias de glória sabiamente dirigidos por Sua Excelência Engo José Eduardo dos Santos, Arquitecto da paz, que com o seu desempenho incomparável, o nosso país devastado pela guerra e cinzas, se desenvolve palmo a palmo, erguem-se novas cidades, vilas, aldeias, estradas, linhas férreas, estruturas aeroportuárias, e outras com a finalidade de fazer do nosso país, um bom sítio para se viver com dignidade.

Excelência, Senhora Ministra, Durante o ano que findou, isto é, em 2013, a província de Cabinda, registou no Sector da Cultura, a implementação de algumas acções dignas de realce.

Durante o ano de 2013, Cabinda conheceu o levantamento e a elaboração de projectos para a requalificação dos locais e monumentos históricos, cadastramento das figuras e a investigação dos seus dados biográficos.

Durante o ano de 2013, Cabinda conheceu igualmente obras de requalificação do local do Tratado de Simulambuco, Cemitério do Mbuco Mbuadi (vulgo Cemitério dos Nobres), do local de concentração de escravos de Chinfuca, a reparação do Museu Regional de Cabinda, na sua fase conclusiva aguardando os arranjos técnicos.
Os trabalhos de reparação do Centro Cultural de Chiloango, tiveram início durante o ano findo e a sua conclusão prevista para o 1o trimestre de 2014.

Excelência, Senhora Ministra Minhas senhoras, meus senhores

As Jornadas comemorativas do Dia da Cultura Nacional de 2014, trouxeram à Cabinda seminários e debates de temas extremamente importantes que serviram sobremaneira não só para a capacitação dos quadros do sector mas também as demais camadas sociais. Essas jornadas trouxeram igualmente o incentivo à investigação histórico-cultural com as diversas exposições, literaturas e o cinema posto à disposição da nossa população nos municípios de Cacongo, Buco-Zau e Belize. Em suma, as jornadas comemorativas do dia da cultura, trouxeram à Cabinda um verdadeiro ambiente de cultura nacional.

Por este feito, aqui fica o compromisso do Governo da Província de Cabinda, em trabalhar mais em prol da cultura nacional na implementação de mais infra-estruturas específicas para um melhor desempenho e divulgação.

Para terminar, desejamos muito sinceramente os nossos votos de boa estadia em Cabinda e finalmente agradecer ao Chefe do Executivo Angolano, Eng José Eduardo dos Santos, por ter aceite a realização das Jornadas Comemorativas do Dia da Cultura Nacional, na Província mais ao norte do nosso país, Cabinda.

Matondo, matondo kuke Tata Nzambi Mbotianu befu bonso

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