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Categoria: Cultura

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Lunda Sul – Apesar da chuva que caiu em Saurimo, na tarde de sábado, 08, cerca de meia centena de pessoas presenciaram ao acto de apresentação do poemário de Brigitte Caferro, realizado no cine Chicapa, com a presença da governadora da Lunda Sul, Cândida Narciso, que se fez acompanhar de dois vice-governadores e do director provincial da cultura.

Fonte: Club-k.net
Soberano Canhanga, também poeta  e  prosador, foi convidado para a apresentação crítica do livro, começando por recitar um poema que escreveu para homenagear a autora e as senhoras presentes: “SORRISO A ANGOLANA
Nesta sala que me acolhe
No consagrado teu dia
Percorre-me a memória
Os sorrisos mais luminosos que me brindaste
Mesmo multi-atarefada
Mesmo preocupada
Entre emprego e família dividida
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE

De dor gemendo, aflita,
Sonolenta,
De noite mal dormida
Do mona adoentado
Moída pelo trabalho
Pelas lidas caseiras
Cuidando marido ressacado
Ou desviando patrão mal-intencionado
TEU SORRISO SEMPRE PRESENTE!”

Excelências, amigos das artes e, sobretudo, da literatura.
A minha saudação especial às nossas mães, razão da nossa existência.
Vénia redobrada à Dra. Cândida Narciso que nunca deixou de estar presente num acto de lançamento de livros em Saurimo, dando assim exemplo de que a sociedade só cresce com conhecimento.

A nossa escritora tem como nome artístico Brigitte Caferro, sendo de nome próprio Brigite Causse Caferro. Nascida aqui mesmo em Saurimo, em meados da década de 80 do século passado, é formada em Administração pela Universidade Federal de Paraná, no Brasil. É cantora, artesã e escultora da palavra, sendo este “do meu íntimo mais íntimo” o seu primeiro “artefacto” literário.

Brigitte Caferro também pode ser lida na antologia “Amores diversos”, publicada no Brasil, em 2012, bem como na “Folha Carioca” onde ilustrou com um poema a matéria “literotismo”.

O meu primeiro contacto com Brigitte foi pela via do FB, e já quando tinha terminado de ler o seu livro que me fora enviado para essa empreitada difícil que é apresentar o livro às senhoras e senhores aqui presentes.

 Confesso, que quando recebi o convite do grupo Hytweza para comparecer nessa cerimónia de apresentação do poemário de Brigitte, o sentimento foi de satisfação por ser eu um amante fervoroso das letras e incentivador da cultura da leitura e escrita entre os jovens. Embora acometido por uma lombalgia, aceitei o convite.

Porém, um calor interior invadiu-me quando me foram pedidos conselhos sobre como organizar um lançamento de livro. Opinei, mas fiquei receoso que algo sobrasse para mim. Assim pensado, assim solicitado. Senti-me criança perante tamanha responsabilidade, embora honrosa e irrecusável.

Estamos aqui dois estreantes. Ela na publicação e eu na apresentação crítica de um livro. A minha missão se torna ainda mais difícil pelo facto de o livro trazer já uma apreciação crítica de Ricardo Alfaya, um escritor, crítico literário, revisor e editor, como se poderá ler na pág. 07 (elementos pré-textuais da obra).

Queridas mamãs, queridos papás, caros jovens,

Um estudo realizado recentemente pelo investigador Tomás Lima Coelho, sobre a literatura angolana e feita pelos angolanos, actualizada nesta última quinta-feira, aponta que, de 1849 (ano em que foi publicada a primeira obra de um angolano), a esta parte, o número de escritores nascidos na Lunda Sul ainda NÃO CHEGA A DEZ. São apenas SETE, contando já com a nossa caçula Brigitte Caferro, Sendo que o primeiro lundasulino a publicar um livro em Angola foi o Professor Dr. Vítor Kajibanga com “A alma sociológica na ensaística de Mário Pinto de Andrade, em 2000”.

A ele se seguiram Bula Mbungue, Elias Chinguli de Oliveira, Fonseca Sousa, Raul Luís Fernandes Júnior e Valter Hugo Mãe (este último nasceu aqui em Saurimo mas vive em Portugal desde 1976). Brigitte é, portanto a primeira lundasulina a publicar um livro, já que, dos SETE naturais desta província, seis são homens.

Preocupados, vamos fazendo apelos e vamos tomando iniciativas como a criação do Núcleo de Leitura e Literatura, na Escola Superior Politécnica da Lunda Sul, que, desde já, convido todos os jovens a frequentá-lo.

Ilustres senhoras e senhores,

Já vai sendo tempo de começarem a surgir novos valores na Literatura da Lunda Sul. Precisamos que surjam mais Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita “a fotografia do coração”, conforme nos recomenda a nossa autora no seu poema ARTISTA (pág. 81). “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Brigitte Caferro não vem fazer número. Vem preencher o seu lugar e trazer vida à criatividade artística na Lunda Sul. Vem dizer que é possível desde que se tenha a palavra e a coragem de a esculpir conforme nos ensina nas páginas 05 e 06.“Escrevo desde os meus 13 anos. Anotava num caderno e por questão de segurança passei a digitá-los. Com o evoluir do tempo fui evoluindo a linha de pensamento e melhorei a escrita… Quando senti que a minha sensibilidade artística era muito forte, decidi escrever e publicar esse livro”.

Aos jovens, candidatos a escritores, aqui está o conselho mais do que claro. Ser escritor não é algo que se consiga de dia para noite. Exige inspiração e, acima de tudo, transpiração. Muita transpiração para dar forma à palavra.

Nos seus 76 poemas, Brigite apregoa, acima de tudo, o amor, o ser e a sociedade. A escrita de Brigitte é, sobretudo, intimista. É o seu grito ao encontro do “nós” social. A fotografia desta poesia intimista pode ser encontrada na pág. 17 “Dois corpos e uma paixão” ou ainda na pág. 21 “Vem amor/com teu fogo/causar-me curto circuito… /com teu cabo de alta tensão/ fazer-me conexão…”.

Nos “amores de Brigitte” encontramos também dilemas. A antagonia entre o estar juntos e compreender/enfrentar a separação. A ansiedade, o desejo de regressar e de reconquistar colos… Próprio de quem se encontre distante dos seus. Próprio dos migrantes.

Brigitte mostra-nos com surrealismo, na pág. 25, em que diz viver num “mundo de sonhos” onde o ”maior pesadelo é a realidade” de um dia “encontrar-te”. Em oposição, na pág. 20, Brigitte fala sobre o fim do tempo ou o fim da missão, mais quando tempo não houver para o “abraço final”,  quando deixarmos de “dividir a sala, sorrisos e futuros”…

Considero a poesia de Brigitte Caferro, como desabafos da alma que nos chegam por via da escrita. Neles, impera o verso livre, não se destacando formas tradicionais como o soneto, as quadras e as métricas, etc.

Encontramos porém elementos metalinguísticos, próprios do género literário. E, Brigitte também reinventa a língua com que trabalha no seu “íntimo mais íntimo”. Bastará ler o “penso, repenso e tripenso” (pág. 27), ou ainda elementos como a rima em “chamas-me p´ra cama/mas não me amas/ És o fantasma/que corrompe minha alma” (Pág. 53).

A anáfora e a gradação, outras características deste género, também estão representadas em vários textos como “Quero voltar a ser criança…/Quero voltar ao passado/… Quero regressar à meninice…/(pág. 56).

No “íntimo mais íntimo” de Brigitte nota-se também o recurso à personificação e a expressões metafóricas como se pode conferir em “As luzes revelando segredos sombrios/no palco da cidade adormecida” (pág. 97) ou ainda o pintar “… na tela da alma/amores, sonhos e ilusões…”

Outra questão, não menos importante, é o facto de a angolana Brigitte Caferro, ter escrito com base no discurso brasileiro da língua portuguesa ou aproximando o discurso ao AOLP de que Angola, por razões óbvias, cultural e socialmente ponderáveis, ainda não aderiu.

Grande parte da produção científica e intelectual, escrita em Língua Portuguesa, vem do Brasil e de Portugal, sendo o país americano, aquele que mais falantes possui. Daí, a necessidade de um apelo aos jovens, aos professores das nossas crianças. Escrevam de acordo ao português padrão, aquele convencionado até hoje, mas não deixem de estar atentos às regras do AOLP, para que tão logo os linguistas e os políticos se entendam não fiquemos na fila de trás, quanto à aplicação das novas regras.

Quero agradecer a Brigitte Caferro pela ousadia que teve em trazer-nos os seus gritos da alma e pedir que não se embale nos elogios que esteja ou vá receber. Continue a cultivar-se e a polir a palavra. Vá lendo os clássicos da literatura lusófona e, sobretudo, aqueles que reinventaram a língua como Fernando Pessoa, Eça de Queirós, António Jacinto, Alexandre Dáskalos, Agostinho Neto, Alda do Espírito Santo, entre outros.

Vá também tutorando os jovens que a vão procurar para dar forma aos seus textos. Somos poucos para a grande empreitada que é desenvolvermos a nossa terra, a nossa Lunda Sul, a nossa Angola.

Para terminar,

Precisamos que surjam mais jovens como Brigitte Caferro. Pessoas que façam da escrita a fotografia do coração. “Solte-se a palavra, por meio da escrita. Escreva-se, reescreva-se”.

Tal como recomendou, uma vez, o já finado mais velho Mendes de Carvalho, a quem rendo homenagem, “os jovens não precisam de ter pressa em publicar. Devem antes cultivar-se”. Porque a literatura adiada não apodrece. Ela amadurece.

E já que estamos a comemorar o dia internacional da mulher, com a apresentação do livro de uma jovem mulher, por que não irmos à página 75 e desfrutarmos do poema Mulheres?
“Dos seios/liberam as mulheres/ a essência-fragrância/que hipnotiza os homens/e que os leva ao êxtase!/ Doces como teixos/ as mulheres precisam ser/irrigadas e acariciadas/ Também mimadas/amadas e protegidas/ para que não se tornem venenosas”.

Muito obrigado

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    Cabinda - DISCURSO DE BOAS VINDAS DE SUA EXCELÊNCIA GOVERNADORA DA PROVÍNCIA DE CABINDA, NO ACTO CENTRAL DO 08 DE JANEIRO, DIA NACIONAL DA CULTURA

    • Sua Excelência, Dra Rosa Cruz e Silva, Ministra da Cultura

    •Excelência, Dr. Frederico Cardoso, Secretário de Conselho de Ministros

    • Senhores Vice-Governadores

    •Directores Nacionais e Quadros Seniores do Ministério da Cultura

    • Distintos Membros do Governo da Província de Cabinda

    • Agentes Culturais

    • Líderes Religiosos

    • Autoridades Tradicionais

    • Fazedores de cultura

    • Caros jovens

    • Minhas senhoras e meus senhores 

    Permitam-me em nome do Governo da Província de Cabinda e da sua acolhedora população do Miconge ao Yema e do Massabi ao Zenze de Lucula, saudar o dia 08 de Janeiro, Dia da Cultura Nacional e agradecer a Sua Excelência, Ministra da Cultura em particular e ao Ministério que mui dignamente dirige por terem escolhido a Província de Cabinda, para albergar neste ano de 2014, o Acto Central Nacional do Dia da Cultura. Cabinda, as terras de Macongo, Mangoio e Maloango, da Floresta do Maiombe, dos Bakamas, do Mayeye, do Kintueni, dos Maringas, do Matchatcha, do Sunsa e de tantas outras manifestações culturais, deseja-vos uma boa estadia e convida a desfrutarem do mais belo que o nosso rico país apresenta, nesta parcela do Território Nacional.

    Aqui, poderão testemunhar a bênção que o nosso Poderoso Criador nos ofereceu, a interacção da floresta com o mar, onde o verde cobre até onde a nossa visão alcança.

    Excelências Minhas Senhoras e meus senhores

    A Província de Cabinda destaca-se sobretudo pela preservação dos seus traços culturais, onde as artes são demostradas através da música, dança, pintura, escultura, etc.

    Os nossos contos e fábulas, os provérbios que nos transmitem uma sabedoria ímpar a um povo que dia-a-dia vai conhecendo a história em respeito aos seus ancestrais.

    Deste respeito e valorização cresce a responsabilidade do Governo da Província, para a identificação, requalificação dos locais e monumentos históricos, assim como o resgate e valorização das figuras históricas, que marcaram as diversas etapas da evolução de Angola, como país livre e independente, desde a resistência, a ocupação colonial, a abolição dos escravos, a tomada de consciência para a luta armada de libertação nacional, a proclamação da independência a 11 de Novembro de 1975, o longo e difícil processo de reconstrução nacional, a busca pela paz efectiva e aos dias de glória sabiamente dirigidos por Sua Excelência Engo José Eduardo dos Santos, Arquitecto da paz, que com o seu desempenho incomparável, o nosso país devastado pela guerra e cinzas, se desenvolve palmo a palmo, erguem-se novas cidades, vilas, aldeias, estradas, linhas férreas, estruturas aeroportuárias, e outras com a finalidade de fazer do nosso país, um bom sítio para se viver com dignidade.

    Excelência, Senhora Ministra, Durante o ano que findou, isto é, em 2013, a província de Cabinda, registou no Sector da Cultura, a implementação de algumas acções dignas de realce.

    Durante o ano de 2013, Cabinda conheceu o levantamento e a elaboração de projectos para a requalificação dos locais e monumentos históricos, cadastramento das figuras e a investigação dos seus dados biográficos.

    Durante o ano de 2013, Cabinda conheceu igualmente obras de requalificação do local do Tratado de Simulambuco, Cemitério do Mbuco Mbuadi (vulgo Cemitério dos Nobres), do local de concentração de escravos de Chinfuca, a reparação do Museu Regional de Cabinda, na sua fase conclusiva aguardando os arranjos técnicos.
    Os trabalhos de reparação do Centro Cultural de Chiloango, tiveram início durante o ano findo e a sua conclusão prevista para o 1o trimestre de 2014.

    Excelência, Senhora Ministra Minhas senhoras, meus senhores

    As Jornadas comemorativas do Dia da Cultura Nacional de 2014, trouxeram à Cabinda seminários e debates de temas extremamente importantes que serviram sobremaneira não só para a capacitação dos quadros do sector mas também as demais camadas sociais. Essas jornadas trouxeram igualmente o incentivo à investigação histórico-cultural com as diversas exposições, literaturas e o cinema posto à disposição da nossa população nos municípios de Cacongo, Buco-Zau e Belize. Em suma, as jornadas comemorativas do dia da cultura, trouxeram à Cabinda um verdadeiro ambiente de cultura nacional.

    Por este feito, aqui fica o compromisso do Governo da Província de Cabinda, em trabalhar mais em prol da cultura nacional na implementação de mais infra-estruturas específicas para um melhor desempenho e divulgação.

    Para terminar, desejamos muito sinceramente os nossos votos de boa estadia em Cabinda e finalmente agradecer ao Chefe do Executivo Angolano, Eng José Eduardo dos Santos, por ter aceite a realização das Jornadas Comemorativas do Dia da Cultura Nacional, na Província mais ao norte do nosso país, Cabinda.

    Matondo, matondo kuke Tata Nzambi Mbotianu befu bonso

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      Saurimo – Matias Damásio foi, sem dúvida, a grande atracção da actividade músico e cultural realizada neste domingo, 10, na vila da Sociedade Mineira de Catoca, em Saurimo, província da Lunda Sul, no âmbito das comemorações do 38º aniversário da Independência Nacional, a assinalar-se esta segunda-feira, 11, em todo país.

      Fonte: Club-k.net
      O jovem músico cantou e encantou delirantemente mais de 2500 espectadores com as suas canções, num espectáculo jamais vista pelos funcionários daquela diamantífera, que já sentem saudade.       

      Acompanhado com as suas duas extravagantes bailarinas, o vencedor do certame “Top dos Mais queridos 2013”, promovida pela Rádio Nacional de Angola, fez vibrar – debaixo da chuva – tudo e todos (desde crianças, jovens, mulheres, homens e velhos), como conta um dos presentes a este portal.

      “Até os diamantes, no subsolo, estavam a dançar”, ironizou Leopoldo Nelembe com uma cara de satisfação, revelando que nunca, em Catoca, se assistiu um espectáculo musical daquela dimensão. “A maior parte dos músicos que aqui vêm só cantam no máximo três a quatro canções e vão, mas com ele (Matias Damásio) foi diferente”, reconheceu.    

      Tal como Nelembe, vários outros espectadores, sobretudo de sexo feminino, desnortearam-se com a simplicidade e a criatividade de Matias Damásio no pequeno palco. “Matias Damásio é quem?”, questionava constantemente o também compositor ao público que respondia em enrubesço “O grande cantor!”. “Não fui eu que disse”, brincava ele com os presentes que soltavam um grande sorriso nos lábios.

      A par o Damásio, a diamantífera Catoca convidara ainda os “aspirantes a músicos”, tais como os kuristas W King e Ximas Lau, Cigano Weza e o grupo de dança tradicional Txianda, que também fizeram das suas. O humorista Calado Show fez igualmente parte da atracção.  

      Para além desta actividade cultural, para saudar os 38 anos da independência nacional, a Sociedade Mineira de Catoca (SMC) promoveu uma exposição de objectos artesanais, torneio de futebol 11, de xadrez, de ténis de mesa, de basquetebol e de ténis de campo, cujos vencedores beneficiaram de uma gileira, televisão, entre outros electro-domésticos.

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        Paris - “A ausência efectiva de uma critica literária angolana e a falta de tradução das obras para outras linguas têm sido alguns dos factores de constrigimento da literatura angolana em Angola e fora do país”, considerou o escritor e editor literário Jacques dos Santos que animou nesta quinta-feira, na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, uma palestra sobre “O Percurso da Literatura Angolana”.

        Fonte: Club-k.net

        Na sua abordagem histórica, Jacques dos Santos lembrou os momentos que antecederam a autonomia da literature moderna com os escritos de António de Assis Junior, em O Segredo da morta cuja narrative é um marco importante para a emancipação da literatura angolana face à literatura ultramarine ou colonial.

        Ao mesmo tempo, o também Presidente da Associação Cultural Chá de Caxinde debruçou-se sobre o florescimento de jornais desde o final do século XX até meados do século XX onde vários autores se foram destacando.

        No tocante à poesia, palestrante considerou que a obra de Tomás Vieira da Cruz traz já um olhar de fora, mas não distanciado, ao passo que os escritos de Castro Soromenho resgatam a vida dos sertões de Angola.

        Para Jacques dos Santos, um momento importante para a literatura angolana da-se na antiga Sociedade Cultural de Angola, cuja revista “Cultura”, publicada em duas fases distintas, torna-se o veículo das vozes que clamam pela independência utilizando sobretudo a poesia e o ensaio mediante o resgate dos temas angolanos.

        No entanto, citando António Jacinto, Jacques dos Santos lembrou que o movimento que se propunha “franquear a muralha do silêncio entre os anos 40 e 50 é o Movimento dos Novos Intelectuais de Angola que se engajou em torno do “Vamos descobrir Angola”.

        Por outro lado, e numa reflexão sobre a poesia angolana de hoje, Jacques dos Santos identificou alguns dos vectores que a carecterizam com destaque a transgresão e a metalinguagem por via de uma recreação das formas orais, e uma recreaçao ou rupture de modelos anteriores citando o caso de Frederico Ningi.

        Para o palestrante, há uma grande propensão para o aparecimento de novos escritores, sobretudo ao nivel da poesia. “Todo o jovem angolano quer ser poeta, mas precisam trabalhar mais porque há muita falta de qualidade e não preocupaçao em aprimorar-se a qualidade do que se publica”.

        Apesar de emergirem poucos talentos, destacou o facto de surgirem autores novos que se impõe no panorama actual como é o caso de Ondjaki que acaba de vencer um prémio literário em Portugal, reduto onde a literatura angolana, fora de Angola é mais conhecida.

        Em relação aos demais países fora do espaço da lusofonia, Jacques dos Santos considera que precisam ser revistas algumas políticas e instituições. Em seu entender, as editoras precisam ter melhores condições para editar os seus livros e autores fora de Angola. Segundo disse, “a primeira grande dificuldade é a tradução”.

        “É muito pouco e vejamos quem são os autores angolanos que são lidos no estrangeiro: Ondjaki, Agualusa, Pepetela, Manuel Rui são os poucos que as editoras portuguesas e eventualmente francesas editam. E os outros. Há tantos bons escritores, não em número considerável, mas temos muitos autores que mereciam ser mais divulgados e de facto temos de fazer alguma força para que isso aconteça”, afirmou.

        Essa questão foi corroborada pela moderadora da palestra, Professora Benedita Basto da Universidade Sorbone - Paris IV, para quem o estudo dos autores angolanos tem esbarrado na ausência de obras e autores traduzidas. “Muitas vezes temos apenas uma obra traduzida e isso tem sido um verdadeiro obstáculo para um melhor conhecimento dos autores angolanos”.

        E Jacques dos Santos completa: “Pepetela, Manuel Rui e Luandino Vieira são muito conhecidos fora de Angola. Mas temos material para mais, precisamos é que as suas obras sejam traduzidas principalmente para inglês e francês, mas estes são custos que nem sempre as pequenas editoras estão em condições de assumir”.

        Durante cerca de duas horas, e diante de uma audiência onde se destacava o Embaixador de Angola em França, Miguel da Costa e alguns diplomatas e cidadãos angolanos, portugueses e franceses, Jacques dos Santos falou ainda sobre a problemática do livro e da leitura. Por isso, em seu entender, as bibliotecas escolares deveriam ser obrigadas a adquirir alguns dos títulos dos autores nacionais e este movimento ajudaria a que as tiragens se esgotassem mais rapidamente.

        Concordando com o que o PR afirmou recentemente no discurso sobre o Estado da Nação em apostar na “melhoria da qualidade do ensino a todos os níveis, fundamentalmente no ensino primário e secundário”, Jacques dos Santos considera entretanto que “é o sistema de ensino, por intermédio dos professores, que melhor desempenharia um papel vital para estimular as crianças e jovens a desenvolverem hábitos de leitura”.

        Esta palestra insere-se no programa da semana cultural angolana em Paris. Para está sexta-feira haverá uma mesa redonda com historiadores, antropólogos e outros interessados em sociedade e história Africana, para analisar a vida da Rainha Njinga Mbandi e o seu contributo na resistência contra a ocupação colonial no Ndongo.

        Manifestando-se contra a adopção do acordo ortográfico da língua portuguesa, Jacques dos Santos que nas próximas gerações o angolanês poderá ser também uma variante da lingua portuguesa.

        Jacques Arlindo dos Santos é o autor de obras como o “ABC do BO” e “Chove na grande Kitanda”. Tem no prelo o seu primeiro romance, Quimera dos Trópicos, cujo lançamento deverá ocorrer em 2014 no âmbito dos 25 anos da Chá de Caxinde, associação e editor que preside.

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          Categoria: Cultura

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          Lisboa - À oitava edição, o Prémio Literário José Saramago foi para Ondjaki, escritor e poeta que nasceu em Luanda em 1977, autor do romance Os Transparentes, publicado pela Caminho em 2012 e que é um retrato de Angola.

          Fonte: Publico

          O prémio foi esta terça-feira anunciado na sede da Fundação José Saramago, na Casa dos Bicos, em Lisboa. Numa cerimónia em que a poeta angolana Ana Paula Tavares, e um dos membros do júri, fez o elogio do autor e da obra distinguida por unanimidade.

          "Este prémio não é meu, este prémio é de Angola." Foi assim que Ondjaki agradeceu o prémio, no valor de 25 mil euros. "Eu não ando sozinho, faço-me acompanhar dos materiais que me passaram os mais velhos. Na palavra 'cantil' guardo a utopia, para que durante a vida eu possa não morrer de sede."

          "Este é um livro sobre uma Angola que existe dentro de uma Luanda que eu procurei escrever e descrever. Fi-lo com o que tinha dentro de mim entre verdade, sentimento, imaginação. E amor. É uma leitura de carinho e de preocupação. É um abraço aos que não se acomodam mas antes se incomodam. É uma celebração da nossa festa interior, trazendo as makas, os mujimbos, algumas dores, alguns amores. Penso que todos queremos uma Angola melhor", disse o escritor no seu discurso de agradecimento.

          Instituído pela Fundação Círculo de Leitores, o prémio, que é atribuído de dois em dois anos, distingue uma obra literária no domínio da ficção, romance ou novela, escrita em língua portuguesa, por um autor com idade não superior a 35 anos à data da publicação do livro, e cuja primeira edição tenha saído em qualquer país lusófono.

          O escritor angolano cumpre o que há muito se anunciava: a construção de um grande livro fiel a linhagens literárias mais antigas e que pode ler-se na travessia das linguagens de cada um.

          Ana Paula Tavares, júri

          Na acta do júri, Ana Paula Tavares escreve que com Os Transparentes "o escritor angolano cumpre o que há muito se anunciava: a construção de um grande livro fiel a linhagens literárias mais antigas e que pode ler-se na travessia das linguagens de cada um".

          "A língua portuguesa ganha o tom, liga todas as mensagens, renova-se sem concessões e aparece fresca e milagrosa como as águas à solta do rés-do-chão do lugar central do romance", acrescenta ainda Ana Paula Tavares, para quem este é um livro de maturidade do autor. "O seu encanto pela infância continua presente, mas já estamos no registo adulto do olhar crítico e mordaz que é lançado sobre o tempo, a História e as respectivas legitimações políticas. A ironia e o humor continuam a caracterizar a escrita de Ondjaki, tornando a leitura de Os Transparentes muito fluída e agradável, sobretudo quando o romance obriga o leitor a se confrontar com uma crioulização mais radical e criativa da língua portuguesa."

          O júri do Prémio José Saramago foi, também nesta edição, presidido pela directora editorial do Círculo de Leitores, Guilhermina Gomes, e composto ainda pela escritora e académica brasileira Nelida Piñon; pela poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares; pela "presidenta" da Fundação José Saramago, Pilar del Río, e pelo poeta e escritor Vasco Graça Moura. Por escolha da presidente Guilhermina Gomes, integraram também o júri Manuel Frias Martins, Maria de Santa Cruz e Nazaré Gomes dos Santos.

          Vasco Graça Moura foi surpreendido neste romance de Ondjaki, pela "maneira como a sua utilização da língua portuguesa é, não só capaz de captar com maior naturalidade as mais diversas situações num contexto social tão diferente do nosso, mas comporta em si mesma fermentos de uma inovação que espelha com força e realismo um quotidiano vivido na sua trepidação e também funciona eficazmente ao restituí-lo no plano literário. É essa uma das vias possíveis da nossa língua na sua variante angolana."


          Para Maria de Santa Cruz, Os Transparentes "é um romance experimental, de original e criativa estruturação que se espelha, em mise en abîme, na narração, convocando os mais diversos tipos de discurso".

          Nas edições anteriores, o Prémio José Saramago foi atribuído aos portugueses Paulo José Miranda, por Natureza Morta, em 1999, e José Luís Peixoto, por Nenhum Olhar, em 2001. À brasileira Adriana Lisboa, Sinfonia em Branco, em 2003, aos portugueses Gonçalo M. Tavares, Jerusalém, 2005, Valter Hugo Mãe, O Remorso de Baltazar Serapião, 2007, e João Tordo, As Três Vidas, em 2009, e à brasileira Andréa del Fuego, Os Malaquias, em 2011.

          Poeta, prosador, Ondjaki – que significa "guerreiro" em umbundu – visita também a escrita para crianças, o teatro, a pintura e o documentário. Formado em Sociologia, completou o doutoramento em Estudos Africanos em Itália. Distinguido em 2000 com a Menção Honrosa do Prémio António Jacinto pelo seu primeiro livro de poesia (actu sanguíneu), em 2005 obtém o Prémio António Paulouro pelo livro de contos E Se Amanhã o Medo, e o Grande Prémio APE em 2007 por Os da Minha Rua.

          Em 2010, recebe o Prémio Jabuti (categoria juvenil) com Avó Dezanove e o Segredo do Soviético. Ainda no âmbito juvenil, publica A Bicicleta Que Tinha Bigodes distinguido com o Prémio Bissaya Barreto 2012 e com o Prémio Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (IBBY do Brasil) 2013.

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