Os melhores cumprimentos.

É com bastante mágoa que lhe endereço esta carta, tendo em conta que o senhor dirige uma área fundamental para a vida de qualquer povo, mas o seu acesso, na prática, contrasta de forma gritante com os discursos oficiais.

Decidi endereçar-lhe esta carta por esta via e não directamente, porque achei ser a melhor maneira de garantir que o senhor a vai ler e que vai tomar nota das preocupações que levanto, pois, quantas não foram as vezes que reclamamos e, alguém se encarregou de jogar as nossas preocupações à um caixote de lixo e, tudo continua como se, os serviços de saúde fossem uma maravilha.

Excelência, podia enumerar-lhe um conjunto de situações nefastas que ocorrem todos os dias no hospital central do Bengo em Caxito. Talvez não houvesse espaço suficiente para tamanho desabafo. Daí ter decidido contar-lhe apenas o que aconteceu há alguns dias à minha família. Na madrugada do dia 03 de Novembro do presente ano, acorremos com o meu sobrinho que estava com muita diarreia ao bloco pediátrico do hospital central do Bengo. Eram 2h10 minutos, para ser mais preciso.

Fomos prontamente atendidos pelo recepcionista que, comunicou a nossa presença a médica em serviço naquela madrugada. O nosso espanto é que a médica, que nem sequer estava ocupada, não apareceu passados 25 minutos, face ao estado de saúde preocupante do meu sobrinho.

Indignados, pedimos ao recepcionista que fosse outra vez contactar a médica, pedido acedido imediatamente. Para o nosso espanto, mais uma vez, a médica não voltou a sair da sua toca nos 25 minutos que se seguiram.

Preocupados e já com os nervos a flor da pele, solicitamos mais uma vez a presença da médica que, mais parecia estar a fazer-nos um favor, do que a cumprir uma obrigação profissional remunerada! Feita esta última intervenção, felizmente a senhora caprichosa apareceu e já eram 3h02minutos da madrugada. Dois minutos depois a senhora já tinha nos tinha atendido, tendo-nos conduzido à uma enfermeira em serviço.

Tinha orientado que o menino fizesse soro. Mas como os nossos hospitais públicos estão muito bem equipados, havia lá o soro mas sem a borboleta e, a enfermeira orientou-nos a ir comprá-la a uma farmácia! Importa realçar, senhor Director, que o senhor, a enfermeira e eu, sabemos que Caxito dispõe de apenas quatro farmácias e mais um posto de atendimento de medicamentos às comunidades e que nenhum deles funciona 24/24 horas. Mas mesmo assim saímos desesperadamente a procura da borboleta, sem sucesso, como era de esperar.

Regressados ao hospital, informamos o nosso insucesso à enfermeira que, orientou que se desse o soro a criança de forma oral, como se estivesse a beber água. Procedimento rejeitado pela própria criança de um (1) ano e cinco (5) meses. Eis que solicitamos que na ausência da borboleta se receitasse outro fármaco que servisse de alternativa.

A enfermeira indicou então o soro de reidratação oral, como alternativa, que o nosso bem equipado hospital também não tinha! Contamos, porém, com a solidariedade que é peculiar aos necessitados que, mesmo tendo pouco, este pouco é partilhado com quem nada tem. Foi assim que uma mãe que tinha a sua criança a ser assistida, ofereceu-nos o tal soro de reidratação oral que o hospital não tinha! Até aí já tinham passado duas horas.

Eram 04h00 da manhã e, tivemos de voltar à casa com o sobrinho, porque não haviam condições no hospital para que ele fosse assistido! Qual foi mais uma vez o nosso espanto, senhor Director, é que lá mesmo, no hospital, apercebemo-nos que as enfermeiras vendem aos pacientes aquilo que elas dizem o hospital não ter! Então, há aqui algumas perguntas que não se querem calar.

Será que o tal juramento de Hipócrates que os médicos prestam, orienta que os médicos atendam os pacientes quando bem entenderem? Quem inculcou na cabeça dos médicos e enfermeiros que nos fazem um grande favor, daí que nos podem desprezar porque estão ali por amor a camisola?

Quem autorizou as enfermeiras a fazer negócio com os pacientes e, como se não bastasse, provavelmente com o medicamento que o (des) governo disponibiliza para o hospital?! Onde anda a tal (des) humanização dos serviços de saúde?

Para que o senhor não pense que estou a falar com base em suposições, no passado dia 10 de Outubro, uma das minhas irmãs acorreu à maternidade do hospital central do Bengo para o serviço de parto. Como as dores estavam muito lentas, as enfermeiras orientaram que se comprasse um medicamento que tinha o objectivo de acelerar as dores de parto.

A minha outra irmã adquiriu, numa farmácia, as duas ampolas recomendadas, ao preço de 1000 kzs. Posta na maternidade, uma das enfermeiras questionou o preço e, quando a minha irmã lho revelou, ela arrependida disse: “se tivesse te vendido mbora as minhas ampolas a 200 kzs cada, estava bom!” Será que o senhor desconhece essas práticas nojentas que vigoram nos hospitais que o senhor dirige?

Senhor Director, o desprezo aos pacientes é uma prática recorrente no hospital central de Caxito. E estranha-me que o senhor, há muitos anos no cargo, nunca tenha feito nada para mudar o rumo das coisas! Não sei se é por desconhecimento ou por não se importar com as nossas vidas!

Mas como nós não vemos só as más práticas, quero elogiar o trabalho que está a ser desenvolvido pelo pessoal que trabalha no novo hospital da Barra do Dande. É, de facto, um exemplo a ser seguido, que está de acordo com a humanização dos serviços de saúde aqui na nossa Província.

A terminar, espero que o senhor entenda essas críticas como um contributo destinado a melhorar o trabalho do seu sector e que visa salvaguardar a vida de muitos Benguenses que todos os dias acorrem aos hospitais públicos.

Mas se agir como alguns que pensam que criticar é falar mal do governo, tendo em conta a nova acepção atribuída à esta palavra, neste país, então, não se venha a surpreender se algum dia um paciente vier a perder a vida à porta dos seus hospitais, como, aliás, já tem acontecido noutras paragens deste país.

Caxito, aos 05 de Novembro de 2012.

Subscrevo-me,

Admar Jinguma



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