Bruxelas – Este ano, GREMA (Grupo de Reflexão de Migrantes Angolanos na Bélgica) não  organizou o seu tradicional Fórum anual do dia 11 de novembro. Esta entorse à tradição deve-se ao facto que o grupo encara reorientar as suas actividades para consagrar-se, doravante, à vertente desenvolvimento do seu programa. Uma vertente que exige mais abnegação, compromisso patriótico e  criatividade. Mas, este compromisso para o desenvolvimento só é possível num país  apaziguado, e totalmente reconciliado com ele mesmo.

Fonte : Club-k.net

Ora, do parecer de GREMA,  Angola atravessa, desde a sua acessão à independência, uma crise de confiança que não cessa de amplificar-se cada dia. Contrariamente às esperanças exprimidas, os acordos de Luena, em 2002, não trouxeram a tranquilidade dos espíritos esperada pelo povo angolano.

Na diligência para reencontrar esta tranquilidade, nós pensamos que a solução reside neste gesto simples e, ao mesmo tempo difícil, que é a reconciliação nacional. Uma expressão que durante anos foi  frequentemente desvalorizada  por falta de sinceridade pela nossa classe política, e que acabou por perder o seu sentido mais profundo e mais nobre. Todos falam da reconciliação nacional, mas não temos a certeza  de que todos falam  da mesma coisa. Em vez da  reconciliação nacional, GREMA propõe a «Reconciliação dos espíritos». Concretamente, que significa esta proposta?

A reconciliação, na sua essência, não pode ser confundida com uma negociação que conduz à um acordo, seja ele muito equilibrado e equitativo. A reconciliação não pode também  ser confundida com um consenso, mesmo procedente da aprovação de todas as partes em conflito que teriam sacrificado uma parte dos seus interesses para o interesse superior da nação.

Por último, a reconciliação não pode ser confundida com uma aliança em torno de um objectivo, mesmo se este objectivo é nobre nas suas intenções. A reconciliação é um acto que parte da profundidade do coração do homem.

É primeiramente exigência para o  homem: exigência de humildade para aceitar abaixar-se e ceder voluntariamente perante o outro mesmo quando tem razão; é exigência de honestidade  para reconhecer os seus  erros e as suas  insuficiências; é exigência de integridade para respeitar em público, e em privado, os compromissos tomados no que diz respeito à outra  parte; é exigência de perdão para aceitar apagar os erros e as faltas do adversário ou do inimigo; é exigência de amor para fazer outra vez confiança ao adversário e aceitar  compartilhar com ele uma mesma visão, e os mesmos objectivos.

A reconciliação é também exigência para todas as partes em causas: exige a restauração de uma confiança mútua entre as partes, e bani qualquer atitude de desconfiança e de hipocrisia que conduz aos cálculos estratégicos para prender o outro ou para evitar as suas armadilhas.

A reconciliação exige uma verdadeira aspiração das partes aos mesmos ideais e ao mesmo combate com as mesmas estratégias para um mesmo resultado. Sem aquilo, não podemos falar de reconciliação. E sem esta reconciliação, como é o caso em Angola, não poderemos empreender nada de sólido para sairmos desta crise.

Por estas razões, GREMA sugere que políticos angolanos desfazem-se do demónio “acusador” que procura sempre  apontar o dedo para o outro esquecendo-se olhar para si. Dizemo-lo porque consideramos que qualquer ser humano é chamado ao esforço permanente da sua mudança  e  a da sua sociedade.

Um homem responsável, é aquele que é capaz fazer constantemente um exame de consciência para relevar os seus  erros, procurar as suas causas profundas, e eventualmente corrigir-os para o futuro. E qualquer homem, sobre esta terra dos homens, sendo imperfeito e sujeito aos erros quotidianos, é obrigado submeter-se à este processo indispensável e permanente de exame de consciência.

Os numerosos  anos passados longe de Angola permitiram-nos viver uma rica experiência. Tivemos a oportunidade de passar muitas vezes o filme dos anos difíceis que viveu o povo angolano. Anos de combate, certo, mas também  de crise profunda. Para o nosso grupo, foi um exercício que consideramos muito útil.

Hoje, podemos afirmar que nenhum líder político angolano não pode erigir-se em doador de lição incriminando os outros  após o resultado dos trinta e sete anos de independência de Angola. O povo angolano é o único actor que tem plenamente o direito de manifestar a sua rejeição no que diz respeito aos todos os responsáveis políticos, porque todos o desilusionaram.

A luz de tudo que precede, GREMA considera que cada responsável ou líder político deve reconhecer e assumir a responsabilidade colectiva ou individual de todas as faltas e de todos erros cometidos no passado. Pois, todos têm uma dívida moral com este povo. Todos  devem ajudar este povo a sair da situação de miséria e de pobreza em que foi mergulhado.

A todos responsáveis políticos, GREMA sugere que tenham mais humildade,  modéstia, honestidade e integridade de modo que amanhã não seja mais nunca como hoje. Porque, a reconciliação dos espíritos  implica ao mesmo tempo a reconciliação com si  próprio e com os outros. Sem esta reconciliação, é praticamente impossível ganhar, juntos, a difícil batalha da reconstrução do país.

Com estas sugestões, não pretendemos possuir o monopólio da verdade porque as nossas sugestões são apenas o fruto das nossas reflexões e da nossa experiência nestas terras remotas da nossa migração. Consideram-las como o modesto contributo de um grupo de patriotas angolanos que procuram uma solução para o seu país. Estão certamente distante da perfeição, mas têm o mérito a ser propostas e expostas à crítica construtiva de todos os que estão preocupados e implicados na  reconstrução do nosso país.

Para os que não conhecem GREMA, somos uma associação da sociedade civil, sem objectivo lucrativo, apolítica, um observatório da vida sociopolítica  angolana. Os nossos membros são migrantes angolanos de diversas tendências políticas. Mas as nossas análises e propostas têm um carácter consensual, e dirigem-se à todos responsáveis e actores políticos angolanos. É a nossa contribuição ao desenvolvimento do país e a consolidação da paz e democracia em Angola. 

Bruxelas, aos 27 de Novembro de 2012.

Signatários:
Eduardo Belo wa Ngombo/ Eduardo McK. Scotty/ Gregório Nsumbu Mbala/Pedro Ndilo Sozinho/ Jorge Alves Paulo/ António Manuel Pires/ Pembele Dema/ Garcia Mpambu Nzila/ Massunguna Da Silva/ Jose Kuavita /Nelson Zico Tati /Maria da Conceição N. /Martinho Chivala.

Contacto: e-mail – Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.  / Sede : Borrekensveld n°25 - Grimberg - Bruxelas – Bélgica.



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