Luanda - O histórico político angolano Justino Pinto de Andrade considerou hoje à agência Lusa que "destruir a imagem edílica" do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, vai ser "difícil", apesar da relação com o "Caso 27 de Maio" de 1977.

Fonte: Lusa


"É um bocado complicado para o novo Presidente [João Lourenço] resolver este problema a contento de todos. Ao longo destes anos, criou-se uma ideia de Agostinho Neto quase santificada. Destruir esta imagem que foi criada ao longo de dezenas de anos vai ser um bocado difícil", afirmou Pinto de Andrade.

 

O atual professor na Universidade Católica de Angola e líder do Bloco Democrático (BD), partido que integra a coligação CASA-CE, segunda força política da oposição angolana, comentava à Lusa a ideia levantada hoje numa mesa-redonda sobre o "Caso 27 de Maio" e sobre uma eventual responsabilização de Agostinho Neto na morte de milhares de alegados opositores ao regime que então liderava.

 

"É capaz até de criar problemas de identidade em muitas das pessoas que foram, ao longo dos anos, com uma imagem edílica do 'pai da Pátria que veio para nos libertar', 'o homem por quem se esperava', 'o médico profundamente humano', 'o poeta universal'. Isto é, criou-se uma imagem edílica de Agostinho Neto e é complicado hoje resolver este problema sem provocar choques internos" no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA, no poder), considerou.

 

Em causa está inicialmente o decreto presidencial de 26 de abril passado, em que João Lourenço ordenou a criação de uma comissão para elaborar um plano geral de homenagem às vítimas dos conflitos políticos que ocorreram em Angola entre 11 de novembro de 1975 (dia da independência) e 04 de abril de 2002 (fim da guerra civil).

 

No decreto, João Lourenço inclui entre os conflitos a "intentona golpista do '27 de Maio' ou eventuais crimes cometidos por movimentos ou partidos políticos no quadro do conflito armado".

 

A decisão do chefe de Estado surgiu depois de, em novembro de 2018, o ministro da Justiça angolano, Francisco Queirós, ter anunciado a "Estratégia do Executivo de Médio Prazo para os Direitos Humanos 2018/2022", em que o Governo de Luanda reconhece, pela primeira vez, que, após o "27 de Maio", registou-se um "cortejo de atentados aos Direitos Humanos", considerando-o "um dos mais relevantes" da História do país.

 

Em 27 de maio de 1977, passam hoje 42 anos, uma alegada tentativa de golpe de Estado, numa operação aparentemente liderada por Nito Alves - então ex-ministro do Interior desde a independência (11 de novembro de 1975) até outubro de 1976 -, foi violentamente reprimida pelo regime de Agostinho Neto.

 

Seis dias antes, em 21 de maio, o MPLA expulsara Nito Alves do partido, o que levou o antigo ministro e vários apoiantes a invadirem a prisão de Luanda para libertar outros simpatizantes, assumindo, paralelamente, o controlo da estação da rádio nacional, ficando conhecido como "fracionistas".

 

As tropas leais a Agostinho Neto, com apoio de militares cubanos, acabaram por estabelecer a ordem e prenderem os revoltosos, seguindo-se, depois, o que ficou conhecido como "purga", com a eliminação das fações, tendo sido mortas cerca de 30 mil pessoas, na maior parte sem qualquer ligação a Nito Alves, tal como afirma a Amnistia Internacional (AI) em vários relatórios sobre o assunto.

 

"Mas acho que, com o tempo, se continuarmos a fazer acontecimentos deste género, de recuperação da memória, aos poucos vamos habituando a nossa sociedade a esta lógica que tem a ver com críticas, mas também com autocrítica", sublinhou hoje Pinto de Andrade à Lusa.

 

Questionado sobre se faz sentido criar uma Comissão da Verdade, tal como foi e tem sido falado publicamente, e suscitado também na iniciativa de hoje organizada pela Universidade Católica de Angola, Pinto de Andrade mostrou-se favorável, "porque foi muito profunda a dor causada pelo '27 de Maio'".

 

"A envolver o '27 de Maio' houve uma série de zonas cinzentas e, quando a História está com muitas zonas cinzentas, ela não é verdadeira. A única forma de se apurar a verdade é que as pessoas se pronunciem: as vítimas, aqueles que são filhos de pessoas que foram mortas ou que desapareceram e, mesmo, aqueles que foram os autores", defendeu.

 

"Muito desses autores vivem, seguramente, com este trauma ao longo destes 42 anos. Penso que devem ter também uma espécie de catarse. Os próprios autores devem libertar-se dos seus próprios fantasmas. Não acredito que as pessoas que se envolveram daquela maneira, de uma forma tão violenta, realizaram atos de tal barbaridade, consigam viver em paz consigo próprias. Penso que ajudaria a todos. Por um lado, as vítimas, os filhos das vítimas, por outro, os autores, porque também têm fantasmas que precisam de exorcizar", acrescentou.

 

À pergunta sobre se fazia sentido separar o "27 de Maio" do rol do "plano geral de homenagem às vítimas dos conflitos políticos que ocorreram em Angola entre 11 de novembro de 1975 a 04 de abril de 2002", Pinto de Andrade respondeu afirmativamente.

 

"Se misturarmos tudo no mesmo pote, no final não se apura coisa alguma. Acho que o '27 de Maio' é de uma profundidade muito grande, é uma enormidade, embora tenhamos casos que são mais individuais que também têm de ser esclarecidos", defendeu.

 

"Acho que tudo devia ser feito no seu próprio tempo e no seu próprio espaço [e] não colocar o '27 de Maio' no meio deste emaranhado de problemas que houve ao longo da nossa vida como país independente e até mesmo antes. Devemos mesmo falar sobre tudo, mas o '27 de Maio' tem de ter um tratamento especial", considerou.

 

 



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