Luanda - No dia 16 de novembro de 2018, o Presidente de Angola, João Lourenço, visitou o Campus da Universidade Agostinho Neto. Naquela ocasião, na parte final do seu discurso, ele lançou o desafio das entidades competentes no sector do ensino superior trabalharem para que, num futuro que se quer não muito longínquo, as Universidades angolanas, de preferência a primeira Universidade Publica do pais esteja no ranking das 10 melhores de Africa.

Fonte: Club-k.net


“Sonhar não é pecado, antes pelo contrário, desde que trabalhemos com o objectivo claro de tornar esse sonho em realidade”. Referiu.


Para quem conhece a UAN internamente e tem conhecimento, em particular, do que está a acontecer na Faculdade de Ciências Sociais apercebe-se que o afastamento de Paulo C. J Faria e Nelson Domingos António, dois destacados Professores do Departamento de Ciência Política representa uma medida que,
pelo menos, ao nível do discurso não segue a linha do Presidente.


De facto, esta decisão só mostra o quão penosa é a vida académica em Angola. Estes brilhantes cientistas políticos angolanos foram afastados pela Direcção da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto pelo facto de criticarem o concurso publico pouco transparente que houve naquela instituição. É estranho. O Pais carece de quadros de excelência e os que temos são combatidos?


Muito bem referiu JLO que “o Estatuto da Carreira Docente do Ensino Superior que deve ser colocado na prática, dignificamos mais esta classe de profissionais que muitos sacrifícios consentem para a formação dos quadros angolanos”. Ora, resta que materializar todas as coisas boas referidas pelo Presidente.

A Figura do académico na Angola “moderna” está desvalorizada. Infelizmente, assim continuará enquanto a Universidade não fazer o que a ela é incumbido. As Universidades devem promover um espaço de liberdade, espírito critico e debate. Ou seja, estas instituições devem estar em consonância com os ditames da democracia. Sem fachada ou falsa representação.

Não sei até que ponto as sobras do totalitarismo determinam a fase actual no que concerne ao combate a figura do intelectual apartidário, objectivo, comprometido em fazer ciência, com livre consciência. Se for este o caso, é certamente uma herança que devemos negar, pois actos desta natureza são contraproducentes ao que o pais precisa promover, a excelência. E esta não se alcança combatendo quem a promove e representa.


Quem estuda ou estudou na Universidade Agostinho Neto (UAN), mais concretamente na Faculdade de Ciências Sociais (FCS) sabe que aquela instituição é muito frágil e materializa muito pouco o que lhe compete. Os Estudantes sabem...os Professores e Funcionários também...o resto é fingimento e um pouco de teatro.


Anualmente, a Faculdade de Ciências Sociais tem formado exércitos de incompetentes. Não é nenhum exagero da minha parte e não estou a dizer que aquela Faculdade só forma incompetentes.


Professores como o deputado João Pinto (JP) apelam os seus estudantes a não criticarem a Faculdade publicamente e, basicamente, isso implica fechar os olhos para a miséria instalada. Recentemente ele publicou um texto onde lança algumas indirectas a este caso. Em 2016, um renomado activista já havia dito que JP não suportava estes dois académicos.


Nos departamentos da Faculdade de Ciências Sociais existe um cenário pesado. Muitos professores cansados, sem compromisso com a ciência, há, inclusive, alguns que já lecionaram bêbados, intrigas e mais intrigas..., a maioria deles não publica artigos, não investiga e nas salas de aulas só sabem autopromover-se ou falar coisas desnecessárias que não têm nada haver com a academia.


No entanto, existe uma minoria dedicada. São os que não se deixam corromper e combatem a mediocridade. E no departamento de ciência política, sem dúvida, essas pessoas eram Paulo C. J Faria e Nelson Domingos António (acrescentando outros poucos que não adianta aqui mencionar o seu nome).
Se quisermos o progresso não podemos desvalorizar os ACADÉMICOS. Esse estatuto não se atribui a qualquer pessoa. Estar na Universidade não pressupõe sê-lo. É por fazer e saber fazer ciência. É por viver ciência.


O Afastamento destes dois Professores tem gerado uma grande repercussão. Internacionalmente, académicos moçambicanos, brasileiros, portugueses, franceses, ingleses, entre outras nacionalidades, já manifestaram o seu repudio. A Associação Brasileira de Ciência Política reagiu por meio de uma nota publica. Académicos de grandes Universidades do mundo (Stanford, Cambridge, Oxford, Londres, Liverpool, entre outras), membros do Jornal de Estudos Africanos reagiram com uma carta ao Ministério do Ensino Superior.


É realmente triste. Tanto um como outro são dos poucos que tem reconhecimento internacional nos grandes fóruns académicos, particularmente na área de ciência política. Como é que a Direcção da Universidade permite que ocorra isso?


A nível nacional também tem havido muitas manifestações de apoio, mas infelizmente os académicos solidários não emitem uma nota publica, não sei se é por receio e medo da repressão.

Barack Obama foi muito assertivo em 2009, quando afirmou, num discurso proferido em Acra (Gana), que “Africa não precisa de homens fortes, mas de instituições fortes”. Ainda vamos a tempo de reverter esse quadro. Mas não será possível com esse tipo de acções. Somos o continente que mais combate ou desvaloriza os seus mais radiantes cérebros pelo facto destes exprimirem livre e objectivamente o que pensam.


Pelo que li, os dois Professores enviaram à Ministra do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, Dra Maria do Rosário Sambo, uma Nota de Protesto e Oportunidade de Corrigir o que Está Mal e, pelo que consta, endereçaram também a Presidência da República, a Assembleia Nacional e a Procuradoria Geral da República. Segundo informações, até agora as não houve nenhuma reacção destas entidades. Esperemos que reajam o mais breve no sentido de corrigir o que está muito mal...

 



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