Luanda - A deficiência física nunca impediu a jovem de lutar pelos seus objectivos. Os taxistas não a aceitavam nas viaturas mas Rosa persistiu e muitas vezes a sua cadeira de rodas foi empurrada pelo irmão em longas distâncias para a faculdade. Rosa José Manuel "Rosinha" nasceu em Luanda no Cazenga rua F, aos 5 anos mudou para o bairro Rocha Pinto, com os pais. Até aos dois anos estava tudo bem, até que surgiu uma poliomielite e paralisia infantil que a deixou numa cadeira de rodas e isto mudou a sua rotina e a sua infância.

Fonte: JA

A família apoiou-a sempre no dia a dia e na aceitação da realidade. "A minha mãe, Laurinda Armando , é uma mulher batalhadora, sempre foi vendedora ambulante para nós sustentar."


Por conta da deficiência começou a estudar tarde, com dez anos, em 2001 e até 2009 concluiu o I ciclo, num colégio próximo de casa, foi aceite e os colegas ajudavam muito… "Foram um grande suporte na minha vida."
Neste período aconteceu a separação dos pais e a sua vida viu-se dividida. "Venho de uma família cristã, na qual o amor ao próximo e o respeito é uma obrigação, a minha família é humilde mas muito unida, principalmente a minha família da parte materna,"


Sentiu-se excluída dentro da igreja, razão pela qual em 2004 abandonou a igreja Assembleia de Deus Pentecostal e aderiu à Igreja Católica, na qual professou a sua fé por um período de dez anos. "Hoje sou o que sou por causa da força, carinho e amor que os irmão católicos me deram."


Em 2016, com 15 anos, teve de regressar à Igreja Pentecostal por pressão familiar, toda a minha família é pentecostal e eu nasci nesse meio. Foi um período muito difícil."


Em 2010 começou a fazer o ensino médio no IMEL no curso d Comunicação Social. Para tal acto se concretizar a mãe teve de juntar fazendo inúmeros sacrifícios, 800 USD para a "compra" da vaga. "Sempre tive o sonho de ser uma grande realizadora no mundo da comunicação social, então o IMEL era a única solução para mim, nem tudo foi um mar de rosas, porque vivia no Rocha e a escola ficava no 1º de Maio."


Logo começa um outro desafio para Rosa Manuel. Andar no táxi colectivo e numa cadeira de rodas era muito difícil, tudo porque Angola não tem transporte colectivo para pessoas com deficiência.


" Deu-me vontade de desistir logo no 1º ano, porque estudava de manhã e tinha de sair sempre às 5h00 para conseguir transporte."


Rosa Manuel sempre teve o irmão Hermenegildo Manuel por perto, ele nunca a abandonou e frequentemente teve de empurrar a cadeira de rodas da irmã a pé ate à escola porque os taxistas recusavam-se a levá-la.


Rosa Manuel perdeu provas por impossibilidade de atingir a escola. No 2º e 3º anos passa a estudar no período da tarde, o irmão levava-a por volta da 10h00, porque era uma hora "morta", com pouco fluxo de passageiros, ai os táxis ficavam vazios e ela aproveitava. "Ao fim do dia, no regresso, os colegas acompanhavam-me ate à paragem e sem o táxi arrancar eles não saiam de lá, as minhas aulas terminavam as 17h00, mas chegava sempre a casa as 21h00.


Em 2012 conclui o ensino médio com média de 14 na defesa, foi um momento especial para Rosa Manuel, porque ela não contava que um dia chegaria aquele momento tão esperado.


Em 2013 não conseguindo ingressar na universidade, Rosa Manuel entrou em depressão profunda, não dormia, julgava que os seus sonhos tinham acabado, por dia, diz-nos, bebia mais de dez coca-colas "por causa do stresse".


Mas um ano depois Rosa Manuel consegue entrar na Universidade Agostinho Neto, faculdade de Ciências Sociais, no curso de Sociologia, "Infelizmente não consegui continuar com o meu sonho de ser realizadora em Comunicação, peguei a oportunidade de fazer o curso de Sociologia na opção de sociologia jurídica. Foi subdelegada de turma no 1º e 2º anos e isso deu-lhe mais visibilidade dentro da instituição e não só.
2015 foi um ano muito marcante para Rosa Manuel, porque concorreu, no Jornal Nova Gazeta, na Categoria Estudante Exemplo, com mais de 90 estudantes na mesma categoria e foi a vencedora a nível nacional.


No ano passado, Rosa Manuel perdeu a avó materna em Abril e em Julho a irmã mais velha da mãe, "foram perdas irreparáveis na família".


Mas a luta pelo mercado de trabalho não parou, já este ano, depois de concluir o ensino superior em 2017, começa a distribuir o seu CV pelas empresas, mas os " preconceitos, a discriminação, a falta de acessibilidade e a humilhação era o que eu encontrava no caminho, mas o sonho e a vontade d vencer falavam mais alto."

Na companhia da amiga Celina Sebastião (também cadeirante) pediu audiência ao PCA da Unicargas, Celso Rosas, que, "sem olhar às nossas condições físicas, deu-nos uma oportunidade e hoje fazemos parte do quadro da empresa.


"A pessoa com deficiência no nosso país não é tida nem achada. Os nossos direitos não são cumpridos na prática", desabafa.

 



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