Luanda - Raúl Tati, deputado independente pela UNITA, pede ao Estado angolano para explicar melhor as movimentações militares em Cabinda. 


Fonte: DW

"A guerra em Cabinda ainda não acabou"

Nos últimos tempos, e acreditando nos comunicados da Frente de Libertação do Estado de Cabinda (FLEC) e do seu braço armado, as Forças Armadas Cabindesas (FAC), a situação em Cabinda tem-se tornado mais tensa, com a ocorrência de sucessivos confrontos militares.


Ainda esta terça-feira (28.07) as FAC emitiram um documento denominado "Comunicado de Guerra", em que afirmam ter atacado uma unidade das Forças Armadas de Angola (FAA) que se preparava para surpreender uma posição de combatentes das FAC na região de Massabi.

 

Segundo o mesmo comunicado, as forças cabindesas terão perdido dois combatentes, enquanto oito soldados angolanos teriam sido mortos e três feridos. As FAC ter-se-iam ainda apoderado de armas automáticas, lançadores de mísseis e várias munições.


Em entrevista à DW África, Raúl Tati, deputado independente pela União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), círculo eleitoral de Cabinda, afirma que as autoridades devem explicar o que se passa na região.


DW África: Será que se pode, de facto, falar de confrontos militares em território de Cabinda?
Raúl Tati (RT): A guerra em Cabinda ainda não acabou e isso o Governo de Angola sabe muito bem. Há sinais bem visíveis em Cabinda, como o reforço de contingentes militares em Cabinda, sobretudo nas áreas do interior, onde há patrulhamentos constantes. Mesmo na estrada encontramos militares bem armados a fazerem patrulhas em grupos. E sabemos que há operações fora até das nossas fronteiras, como já foi denunciado pelo Governo da República Democrática do Congo. Então, se há incursões militares das Forças Armadas Angolanas fora das nossas fronteiras, a pergunta é o que vão lá fazer? Não acredito que, neste tempo da pandemia da Covid-19, queiram fazer turismo nesses países limítrofes.


DW África: As guerras sempre foram também guerras de propaganda. A FLEC-FAC emite comunicados, exibe nas redes sociais imagens dos seus combatentes. E as fontes oficiais de Angola, por seu lado, sustentam que se trata apenas de uma fabricação...
RT: Eu não vou muito na base dos comunicados da FLEC. O que estou a dizer é baseado em constatações, a partir da leitura da situação conjuntural. Se não há guerra, qual é a razão do incremento do efetivo militar em Cabinda? Qual é a razão do patrulhamento constante nas principais vias e no interior da província? É preciso explicar essas coisas.


DW África: O Raúl Tati, como deputado, e o seu partido, a UNITA, questionaram o Governo - o Ministério da Defesa, por exemplo - como lida com o conflito em Cabinda e como pretende resolver o problema? O que é que o Governo angolano responde?
RT: No Parlamento, o ministro da Defesa disse apenas que as Forças Armadas estacionadas em Cabinda estavam aqui para cumprir as missões que lhes foram superiormente orientadas pelo Governo e pelo comando superior. Relativamente a uma resolução do problema em Cabinda, o ministro não tocou neste assunto. O que sabemos é que se procura evitar tocar nesse assunto, mas também ouvimos um deputado da bancada maioritária [do MPLA, partido no poder] a dizer que "há grupos que reivindicam [a independência] em Cabinda". Se há grupos que reivindicam em Cabinda, é preciso citar quais são esses grupos. Portanto, [o partido no poder] não está permanentemente com a linguagem de que não há nada [em Cabinda]. Mesmo porque, em Cabinda, há jovens que estão nas cadeias neste momento. Cabinda é o único lugar onde há presos políticos, porque têm uma opinião sobre a situação na região e estão na cadeia. Não acho que este é o caminho.

 



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