Lisboa - Ontem tirei um texto com algumas ideias sobre a dificuldade de fazer análise social. Como o texto parece ter tocado alguma veia por aí, achei oportuno trazer mais alguns subsídios, desta feita com alguns reparos sobre como ler uma análise social. Não se trata, portanto, de saber como fazer – embora, no fundo, seja isso – mas sim apreciar os passos envolvidos no processo para saber interpelar criticamente.

Fonte: Facebook

Aqui partilho um esquema analítico que uso nas minhas aulas de metodologia. O esquema tem três momentos: formulação duma tese, fundamentação duma tese e, finalmente, interpretação duma tese. São passos simples, na verdade. A formulação da tese é o momento inicial. Na verdade, ele é antecidido por outros momentos que têm a ver com a definição da problemática, mas isso não interessa agora. Então, formular uma tese é apenas dar um palpite sobre algum fenómeno. Por exemplo, você quer entender a violência em Cabo Delgado. Você pode dizer que a guerra em Cabo Delgado é a manifestação do falhanço do modelo de desenvolvimento seguido desde o fim da guerra civil. É uma opinião.


Só que opinião não é tese. É opinião. É aquilo que você diria aos seus amigos no Bar “Senta-Baixo”. Para ser uma tese você precisa de começar por a sustentar com factos. Você pode dizer, por exemplo, que a guerra em Cabo Delgado mostra o falhanço do modelo de desenvolvimento que se pode constatar quando a gente olha para os seguintes factos: (a) enriquecimento, com o beneplácito dos doadores, das elites políticas; (b) marginalização das populações locais; (c) expropriação das comunidades locais dos seus recursos; (d) envolvimento das elites políticas em negócios ilícitos; etc..


Agora, há duas coisas importantes aqui. Primeiro, estes “factos” precisam de ser demonstrados. Essa demonstração faz-se apoiando-se noutros trabalhos feitos por outras pessoas, por nós próprios e, acima de tudo, com clareza conceitual. Por exemplo, o que você quer dizer com “expropriação das comunidades locais”? Como é que você define isso?
Segundo, estes factos não “provam” aquela sua opinião. Dão apenas alguma plausibilidade a ela. É como se eu dissesse “acho que está a chover lá fora” – uma opinião – e dizer “acho que está a chover lá fora, o PCA da Dugongo entrou molhado no seu escritório”. Na segunda frase, apresento uma opinião apoiada em algum “facto”. Você ainda vai ter que mostrar o que torna esse facto relevante para a sua opinião. É ainda onde as coisas começam a ficar interessantes. Infelizmente, também, é ainda aqui onde muita “análise social” falha. Há um bom número de trabalhos académicos que termina aqui e pensa que fez “análise social”.


Como se estabelece a relevância dos “factos” para a opinião? Faz-se isso através dum exercício lógico. Faz-se uma inferência lógica – pode ser um princípio, uma generalização, uma analogia, etc. – que funciona como “teoria”, isto é como quadro a partir do qual aqueles factos começam a falar. É aqui onde é preciso ter estudado ciências sociais para você saber que “teorias” existem aí, como elas ajudam não só a definir conceitos como também a enquadrar os fenómenos. Por exemplo, seu eu digo que acho que está a chover porque alguém entrou molhado, a minha “teoria”, portanto, a inferência lógica que articula os meus factos e a minha opinião é um “sinal”. Se alguém entra numa sala molhado vindo de fora é sinal de que está a chover. De novo, a teoria não prova a opinião. Torna-a apenas plausível e passível de ser verificada. Faz da opinião uma “tese”. Só isso.


Voltemos a Cabo Delgado. Se eu disser que a guerra lá mostra o falhanço do modelo de desenvolvimento, tenho que formular uma “teoria” que articule os factos. Assim, posso, por exemplo, formular uma generalização. Posso dizer que sempre que surge um discurso social de contestação do poder do Estado com recurso a armas estamos perante o falhanço dum modelo de desenvolvimento. Isto é a formulação duma tese. Começo pela opinião, passo pelos factos que sustentam essa opinião e termino com a inferência lógica que transforma a opinião em tese. Mais uma vez, não provei nada. Disse coisa com coisa, só.


O segundo momento é o da fundamentação da tese. Aqui a porca torce o rabo. Tecnicamente, o que acontece aqui é a transformação dos seus “factos” (ou dados) em “evidências”. Você vai demonstrar porque nós nos podemos fiar nesses factos para validar a tese. Por exemplo, se você diz que está a chover porque alguém veio de fora molhado e isso é sinal de que está a chover, transformar esse facto em evidência é mostrar por A + B porque o facto de alguém entrar molhado constitui a melhor prova de que esteja a chover lá fora.


Pode ser que ele tenha passado pela casa de banho, feito xixi nas calças e, para disfarçar, ter se molhado todo. Esta é a parte da metodologia, por assim dizer. Você tem que fazer trabalho sério de recolha e análise de dados. Os dados referem-se à sua teoria (a inferência lógica), pois você quer mostrar que ela valida a sua tese. Ou ajuda a validar, tanto faz.


No caso de Cabo Delgado vimos que a “teoria” é a generalização segundo a qual sempre que um discurso social de contestação do poder do Estado com recurso a armas surge, estamos perante o falhanço dum modelo de desenvolvimento. Que dados precisa para demonstrar isto? Sei lá, você pode verificar casos semelhantes noutras partes do mundo.


Aí você faz análise comparativa, por assim dizer. Você pode falar com os insurgentes para saber se é mesmo isso que os motivou a pegar em armas. Você pode analisar os conflitos locais, de que natureza são, quem os articula e como é que eles se relacionam com a sua “teoria”. Há muita coisa que você pode fazer. Mas tem que a fazer. Se não a fizer, você não fez nenhuma análise social. Você só opinou. Interessante opinião, sim, mas opinião.
Repito: é grande milagre se muito do que passa por pesquisa social chega a este ponto.

Conforme disse, muitos trabalhos quedam-se pela formulação da tese. Não saiem de lá, mas acham que estão habilitados para “explicar” o mundo. Agora, isto também envolve todo um trabalho de análise com recurso a técnicas próprias e que não podem ser aquele método jornalístico de pegar no que as pessoas dizem e achar que isso é a revelação da verdade.


Há, infelizmente, muito disso. Muito mesmo. Você tem que ter uma abordagem clara dos dados, você tem que fazer a codificaçao, desenvolver temas, construir categorias, enfim, fazer análise mesmo (talvez explique isto num outro post já que ganhei gosto). Isto é a fundamentação da tese. Você mostra que ela tem fundamento!


O terceiro momento é o da interpretação. Conheço cientistas sociais que não sabem que há diferença entre análise e interpretação. Confundem as duas coisas. Normalmente, até, faz-se pouca análise. Interpreta-se apenas. A forma mais simples de explicar a interpretação é dizer que é o momento em que você procura limitar o alcance da sua tese.


Você faz isso perguntando: em que circunstâncias é que seria válido dizer que a guerra de Cabo Delgado se explica pelo falhanço do modelo de desenvolvimento tendo em conta a sua ideia de que discursos sociais de contestação com recurso a armas são sinal disso e tomando em consideração os dados que você apurou? Eu, por exemplo, iria pensar no seguinte: (a) quando existe tradiçao de contestação violenta do Estado; (b) quando existe tradição de radicalização; C) quando o Estado reage mal e porcamente à crítica; (d) quando existem interesses externos; etc. E não pararia por aí.


Seguindo o que escrevia ontem sobre o mesmo assunto, iria perguntar para que pergunta é que a minha tese é uma resposta válida. Isto implicaria uma melhor definição do conceito de “modelo de desenvolvimento”, por exemplo. Consequentemente, teria, chegado aqui, de perguntar que mais preciso de saber, ou que grandes questões se levantam a partir disto. Não estaremos perante a fragilidade geral de processos de construção do Estado? Não estaremos perante um exemplo de como o próprio conceito de desenvolvimento é problemático? Etc.


O texto já vai longo. Mas o essencial é isto. Análise social não é ter uma ideia genial e depois reunir factos para confirmar que essa ideia é mesmo genial. É interpelação crítica a nós mesmos. Se você tem a sensação de que entende Cabo Delgado muito bem, duvide de si próprio. E se você cruza com alguém assim, tente reconstruir a sua “explicação” usando este modelo que apresentei aqui. É possível que você comece a respeitar quem faz ciências sociais a sério...

 



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