Lisboa - O mundo desperta esta segunda-feira com reações às manifestações que juntaram milhares de cubanos na rua, domingo, contra o regime comunista. Em Havana e noutras localidades da ilha, ouviram-se palavras de ordem como “Pátria e vida” (título de uma canção polémica), “Abaixo a ditadura” e “Não temos medo”, conta a agência France Presse (AFP), que refere jovens a desfilar em San Antonio de los Baños, cidade com cerca de 50 mil habitantes a 35 quilómetros da capital cubana.

Fonte: Expresso

A repressão não tardou

A agência espanhola EFE dá conta de uma manifestação em Palma Soriano, na outra ponta do país, perto de Santiago de Cuba, na qual participaram centenas de pessoas. “Chega de mentiras”, “unidade” e “queremos ajuda” foram alguns dos seus lemas. Houve violência policial nas manifestações, transmitidas em direto em várias contas na rede social Facebook. Güira de Melena e Alquízar, na província ocidental de Artemisa, foram outras terras onde houve concentrações contra a ditadura.

 

Foram os maiores protestos antigoverno de que há registo na ilha desde que centenas saíram à rua em Havana, em agosto de 1994, e não se retiraram até à chegada do então líder cubano Fidel Castro. Foi o “maleconazo”, assim designado por referência ao Malecón, a grande avenida marginal da capital.

PANDEMIA PIOROU TUDO

Além do desejo de liberdade, os cubanos são movidos pela penúria em que vivem. Desde o início da pandemia, em março de 2020, enfrentam maior escassez de alimentos, medicamentos e outros produtos básicos, o que gerou forte mal-estar social.


As manifestações aconteceram no dia em que o país registou novo recorde diário de contágios e mortos devido à covid-19, com 6923 novos casos nas últimas 24 horas, num total de 238.491, e 47 mortos, subindo o total desde o início da pandemia para 1537.


O regime cubano não tardou a reagir aos protestos. O Presidente exortou os seus apoiantes a estarem prontos para o “combate”. Num discurso televisivo especial, Miguel Díaz-Canel afirmou: “A ordem de combate está dada, os revolucionários às ruas”.

Em Havana há notícia de confrontos entre críticos e defensores do Governo no Parque da Fraternidade, em frente ao Capitólio, onde chegaram a juntar-se mais de mil pessoas. As forças militares e policiais, com presença forte no local. fizeram várias detenções.

Ainda assim, centenas de manifestantes romperam o cordão policial, na direção do Malecón, de braços no ar e a gritar “liberdade”, “pátria e vida” e “ditadores”, em referência aos dirigentes do país. Grupos organizados de apoiantes de Díaz-Canel também lá estiveram, entoando “Eu sou Fidel” ou “Canel, amigo, o povo está contigo”.


Díaz-Canel é chefe de Estado desde outubro de 2019, altura em que sucedeu a Raúl Castro, a quem também substituiu este ano como chefe do Partido Comunista Cubano. É o primeiro dirigente máximo da ilha em largas décadas que não é um dos dois irmãos Castro, Fidel e Raúl. O primeiro governou como primeiro-ministro entre 1959 e 1976 e desde então como Presidente até 2008, tendo morrido em 2016. Raúl ficou no poder desde então até à ascensão de Díaz-Canel.

APELOS À LIBERDADE E À PAZ

Os protestos de domingo contaram com o apoio da forte comunidade de exilados cubanos. Nos Estados Unidos pediram ao Governo que promova uma intervenção internacional para evitar que os manifestantes sejam vítimas de “um banho de sangue”. “Chegou o dia em que o povo de Cuba se levantou”, afirmou à EFE Orlando Gutíerrez, da Assembleia da Resistência Cubana, plataforma de organizações da oposição, de e fora da ilha. Exilado em Miami, preside ao Diretório Democrático Cubano.


Gutiérrez assegura que os protestos se espalharam a mais de 15 cidades e vilas de Cuba. “É muito claro o que quer o povo de Cuba: que este regime termine.” A Assembleia da Resistência Cubana apelou à população a que se mantenha nas ruas e à polícia e às Forças Armadas para que se posicionem ao lado do povo.


Rosa María Paya, do movimento Cuba Decide, que divulgou na redes sociais vídeos dos protestos, disse à EFE que a repressão começou e que se fala em vítimas de disparos. A agência espanhola, que cita testemunhas no local, refere violência policial em San Antonio de Los Baños e Palma Soriano.

 

O secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, Luis Almagro, condenou o “regime ditatorial” de Cuba. “Reconhecemos a reivindicação legítima da sociedade cubana por medicamentos, alimentos e liberdades fundamentais. Condenamos o regime ditatorial cubano por chamar os civis à repressão e ao confronto contra aqueles que exercem os seus direitos de protesto”, escreveu na rede social Twitter.

 

Na mesma plataforma, a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos (CIDH) afirmou ter recebido informações sobre uso da força e agressões em Cuba e apelou ao Governo para respeitar o direito de protesto e aceitar uma abertura democrática. A organização lamentou as “reações estigmatizantes das altas autoridades contra as pessoas que se manifestam”.

 

Também o Governo dos Estados Unidos se declarou “muito preocupado” com os apelos do Presidente cubano. A secretária de Estado Adjunta para os Assuntos do Hemisfério Ocidental, Julie Chung, sublinhou o apoio de Washington ao direito dos cubanos a manifestarem-se pacificamente. Apelou à “calma” e condenou “qualquer tipo de violência”.

 



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