Luanda - Um filósofo chinês afirmava que: «a morte é bastante dolorosa; somente há mortes que pesam mais que a montanha Thai; há outras mortes cujos pesos são menores que a pena da galinha». Fim de citação. Neste contexto, eu diria que, a morte do soberano dos Mbundas, Muene Mbandu III, que ocorreu no dia 20 de Julho de 2021, na cidade do Luena, na Província do Moxico, a sua dimensão é muito maior que a montanha de Kilimanjaro. Gostaria de afirmar que, sem exagero, o Rei Mbandu III foi um homem altamente culto e erudito, conhecedor da história universal, do direito constitucional, da economia do mercado e do desenvolvimento rural e comunitário.

Fonte: Club-k.net


O facto é que, esta figura eminente, defendeu firmemente o pluralismo, o constitucionalismo, o poder local, a valorização das instituições tradicionais e a promoção da cultura africana. Sem sobra de dúvida, o Rei Mbandu III foi um Homem altruísta e um cristão convicto que dedicou a sua vida ao Evangelho, à Cultura e ao trabalho comunitário. Durante a vigência do seu Reino, desde dia 14 de Agosto de 2007 em que foi entronizado, ele empenhou-se fortemente na restruturação do Reino dos Mbundas, dentro do País e na Zâmbia, onde existem vários Principados Mbundas dentro do território do Reino da Barotselândia (Western Province), do Povo Lozi (Luyana).


Historicamente, no início do Século XIX, isto é, em 1845, o Rei Sebetwane, do Povo Makololo (Kololo), vindo de Botswana, atravessou o Rio Zambeze e conquistou o Povo Lozi e ocupou o seu território. Muito antes disso, em 1823, o Povo Makololo foi derrotado pelo Shaka Zulu Mfecane, o fundador do Reino de AmaZulu. E, o Povo Makololo teve que abandonar o seu território (Lesotho) passando pela Swazilândia e Botswana de onde travou grandes batalhas sucessivas contra os povos desses territórios.


Porém, em 1864 o Reino Makololo foi derrotado e expulso da Barotselândia. Os descendentes Kololo dirigiram-se ao Malawi sendo acompanhados por explorador Inglês, David Livingstone. Importa dizer que, o Litunga do Povo Lozi buscou apoio militar do Reino dos Mbundas para derrubar e expulsar os Makololo da Barotselândia. Através desta Aliança Militar aprofundou-se as relações de amizade entre os dois Povos. Na base disso, vários Príncipes Mbundas que emigraram para Barotselândia foram cedidos vastos territórios sob a sua inteira responsabilidade. Importa realçar que, quer o Povo Lozi quer o Povo Mbunda deixaram o Planalto de Katanga (RDC) entre o final do Século XVII e o início do Século XVIII. Os dois Povos pertenciam ao Império Lunda-Chokué (Império Luba-Lunda).


Portanto, no ano passado (2020) o Rei Mbandu III fez uma longa digressão pelos Principados Mbundas na Barotselândia (Western Province), Zâmbia, com a finalidade de reorganizar, reestruturar e estabelecer mecanismos de controlo e de coordenação entre o Reino e os Principados, reforçando assim o espirito de pertença étnica, da unidade, da coesão e da solidariedade. Neste mesmo período, o Primeiro-Ministro do Reino dos Mbundas, Príncipe Kameya Pedro Chavaya, andou pelo Cuando Cubango, Huila, Benguela, Huambo, Bié, Luanda e as Lundas a fim de estabelecer contactos com os governantes e com as outras autoridades tradicionais. Tendo como objectivos principais promover a Cultura Angolana e desenvolver estudos e pesquisas sobre a História dos Povos da África Subsariana.


O Príncipe Kameya Pedro Chavaya deslocou-se igualmente a muitos países da África Austral, como por exemplo: Namíbia, Botswana, Zâmbia, África do Sul, Swazilândia, Malawi, Zimbabwe, Mozambique, Tanzânia e RDC. Antes disso, anos atrás, esteve na Holanda em missão de pesquisa através dos Missionários da Missão de Luampa, que tinham ligações directas com as Missões de Muie e de Catota. É importante saber que, a Missão de Luampa dedicou-se bastante ao estudo e à pesquisa da sociologia do Povo Mbunda. A Missão trabalhou imenso nas comunidades Mbundas tendo-se promovido a cultura, a educação e a saúde.


Neste capítulo interessa dizer que, existe a Associação Cultural de Escritores Mbundas, chamada: “Cheke Cha Mbunda.” Na Língua Mbunda, “Cheke” significa: a luz, o saber, a ciência, a cultura, a sabedoria, o progresso ou a civilização. Mas neste caso específico, “Cheke Cha Mbunda,” significa: «A Civilização Mbunda». Esta Associação está sedeada em Lusaka, na Zâmbia, onde desenvolve uma série de estudos e pesquisas sobre a História, a Cultural, a Língua e a Sociologia do grupo étnico Nganguela, que engloba vários subgrupos, de entre os quais: Mbunda, Luchazi, Kangala, Yauma, Luimbi, Mbuela, Nyemba, Nyengo, Mashi, Ngali, Ndiliku, etc.


A Associação Cultural dos Escritores Mbundas já publicou vários livros em Mbunda, nomeadamente: a História do Povo Mbunda; a tradução da Bíblia em Mbunda; a Gramática Mbunda; o Dicionário Mbunda; os Provérbios e Aforismos Mbundas; as Lendas, os Contos e as Historietas Mbundas; a tradução em Mbunda de algumas Leis e do Hino Nacional da República de Angola, etc. Convinha enfatizar que, o Rei Mbandu III muito antes da sua entronização em 2007, como Rei dos Mbundas, enquanto na Zâmbia, já estava envolvido fortemente na Associação Cultural dos Escritores Mbundas, como dinamizador do Centro de Estudos e de Pesquisas do Cheke Cha Mbunda.


Portanto, a sua morte trágica foi um golpe fatal não só para o Povo Mbunda, mas sim, para o Estado Angolano, que perdeu uma autoridade tradicional eminente, clarividente, firme, douto, patriota e visionário, que tinha uma bagagem intelectual muito grande, com ideias claras sobre o poder local e sobre o desenvolvimento rural e comunitário. Sem dúvida, a Província do Moxico carece de Quadros competentes de calibre do Rei Muene Mbandu III que morreu em circunstancias anómalas, desumanas, cruéis e humilhantes. O quadro clinico apresentado pelas Autoridades do Moxico como sendo a causa da morte do Rei Mbandu III foi o seguinte: a hipertensão; a glicemia irregular; a paragem cardiovascular; e a Covid-19.


Todavia, na realidade este quadro clínico não corresponde à verdade. Pois, quem morre da Covid-19, os seus familiares mais próximos, sobretudo a esposa, devia ser submetida ao teste da Covid-19, ser isolada e ser acompanhada de perto pelas autoridades de saúde. Em contraste, isso não aconteceu em nenhum caso das pessoas que ficaram próximos dele e viajaram com ele de carro de Lumbala Nguimbo para a cidade do Luena. Nós, a família mais próxima do Muene Mbandu III, sabemos que ele fazia consultas regulares em Lusaka onde tinha uma equipa de médicos que durante muitos anos acompanhavam o seu estado de saúde. Infelizmente, desta vez o Rei Mbandu III foi negado categoricamente o acesso à equipa dos seus médicos. Tendo sido recolhido às pressas de Lumbala Nguimbo para o Hospital Geral do Moxico, onde ficou internado e tratado desumanamente, até sucumbir-se em agonia.


As autoridades do Governo Provincial do Moxico sabem o que de facto aconteceu, e o futuro trará à superfície as evidências. Pois que, a ciência moderna, apoiada por tecnologias de ponta, possui capacidades enormes de apurar dados arqueológicos de antiguidade a partir de fósseis. Por isso, nada pode ficar definitivamente oculto. Por outro lado, é sabido que, o Rei Muene Mbandu III não foi bem visto pelo Regime que fez tudo para domesticá-lo com vista a servir os interesses partidários. Ou melhor, tudo isso, como costume, enquadra-se na política da partidarização das instituições tradicionais como forma de ampliar a «base social» do Partido-Estado. Só que, o Rei Mbandu III resistiu à pressão, manteve-se firme, com cabeça bem erguida, defendendo a sua dignidade e o seu estatuto soberano, como autoridade tradicional, que deve observar rigorosamente os princípios de «imparcialidade» e de «equidistância». Em consequência disso ele viveu momentos dramáticos de perseguição. Era tão evidente que, cedo ou tarde seria um alvo a abater, e finalmente aconteceu.


Repare que, em toda a parte do mundo, quando o Rei ou a Rainha morre, existe sempre os rituais tradicionais da despedida formal, solene, digna e gloriosa, como forma de não só invocar os espíritos dos ancestrais, mas sobretudo, de honrar o defunto, de pacificar as almas, de enaltecer a sua obra, de engradecer o reino e de passar o seu legado às gerações presentes e vindouras. Pois, a morte do Rei ou da Rainha constitui um «marco histórico», que deve ser exaltada e valorizada, para que ela se afirma no tempo e no espaço, dando o eco de louvor, de esplendor e de grandeza, ao Ceu.


O Príncipe Gonçalves Manuel Muandumba, do Reino de Muachissengue, do Povo Chokué, sabe essa realidade tradicional dos nossos Povos Bantus, do Império Lunda-Chokué. Como que ele deixou o seu primo, Muene Mbandu III, ser tratado assim e enterrado indignamente, como se fosse um animal qualquer? Estou a dizer isso porque, embora tivera registado no passado guerras sucessivas entre o Povo Chokué e Povo Mbunda, mas os dois Povos são da mesma árvore genealógica, da linhagem ancestral do Rei Nkuungu, da Rainha Naama, da Rainha Yamvu, do Rei Nkonde, do Rei Chinguli e da Rainha Mbaao.


O ponto de separação genealógica entre os dois Povos (Chokué & Mbunda) parte da «Poderosa» Rainha Kamba, a filha da Rainha Mbaao Ya Chinguli, que conduziu o Povo Mbunda ao território que se chama hoje Angola. A Rainha Kamba Ya Mbaao saiu do Planalto de Katanga (Kongo), passando pelo Alto Zambeze (Kazombo) e fixou-se ao longo do Rio Lungué-Bungo, ao afluente Muximoji, a Sul da Vila de Cangumbe, de onde o Reino Mbunda se irradiou ao Sul do Rio Lungué-Bungo até Cuando Cubango. Dali para diante fundou-se a Nação Mbunda, como Estado soberano, sem pagar tributos a ninguém. Portanto, a pretensão das elites políticas Chokué de expandir o dito “Protectorado Lunda-Chokué” até a fronteira da Namíbia, não somente é ilusória, mas é altamente perigosa.


Pois, isso atenta à estabilidade política da Nação Angolana, como Estado Unitário: Una, Coesa e Indivisível. Além disso, o Povo Chokué quando assinou o “Protectorado” com os Portugueses, o Povo Mbunda era um Estado Soberano, não estava sob alçada do Reino Chokué, nem pagava tributos sequer. O tal “Protectorado Chokué” estendia apenas até ao Rio Cassai, onde se travou batalhas violentas entre o Povo Mbunda e o Povo Chokué.


Na verdade, a Província do Moxico vive momentos difíceis de crispações interétnicas que visam impor a supremacia de um grupo étnico sobre os outros. Durante o Consulado longevo do Governador João Ernesto dos Santos (Liberdade) buscou impor a hegemonia Luvale em todos os Municípios da Província do Moxico. Agora, na governação actual do Príncipe Gonçalves Manuel Muandumba procura igualmente impor a dominação do Povo Chokué sobre os outros grupos étnicos da Província.


Nesta referência, na Cidade do Luena, houve recentemente uma Reunião Magna das Autoridades Tradicionais do Moxico que emitiram um MEMORANDO dirigido ao Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, fazendo “Apelo Veemente” ao Presidente Angolano para tomar medidas urgentes e apropriadas. Portanto, a morte do Rei Muene Mbandu III é o culminar de uma «crise profunda» que vem a desenrolar-se durante muitos anos e a liderança do MPLA, que está no poder há mais de quatro décadas, tem estado a fazer ouvidos de mercador. Isso é muito mal, é uma pura negligência, porque a situação da Província do Moxico poderá evoluir-se ao estado caótico caracterizado por conflitos abertos interétnicos, como tem estando a acontecer em muitos Países Africanos. Em suma, as minhas recomendações ao Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, são as seguintes:


Primeiro: a Província do Moxico, na condição actual, deve ser governada por uma personalidade idónea, de uma etnia que não faz parte dos grupos étnicos do Moxico, do Cuando Cubango e das duas Lundas. Essa personalidade, a ser escolhida, deve ter capacidade suficiente de reconciliar e congregar as diversas comunidades locais, estabelecer o equilíbrio e viabilizar o acesso ao emprego em todos os sectores públicos e privados, sem a discriminação étnica, como tem sido a práctica redundante na Província do Moxico.


Segundo: a corrente política secessionista, veiculada por algumas elites públicas Chokué, deve ser acompanhada de perto para não mergulhar o Leste e o Sul de Angola na instabilidade política e sociocultural. Terceiro: a morte trágica do Rei Muene Mbandu III deve merecer a investigação devida e imparcial, no sentido de apurar os factos e responsabilizar civil e criminalmente os malfeitores.


Enfim, quando ao Povo Mbunda, que está espalhado pelo país e pelo mundo, sobretudo os que habitam na «terra natal», devemos todos ter a calma e a contenção, mantendo a lucidez, a prudência, a coragem, a bravura, a firmeza e a dignidade. Nesta óptica, não devemos deixar-se cair na tentação de assumir atitudes impróprias, embora a nossa alma tenha sido atingida profundamente. Contudo, o espirito sagrado do malogrado habita em nós, e está infundido na nossa memória colectiva. Só deste modo seremos capazes de honrar a “grandeza” do Mwene wa Ngoma wa Chundi, Mwene Mbandu III Mbandu.

Paz a sua Alma!

Descanse em Paz – Meu Ente Querido Primo.

Luanda, 20 de Setembro de 2021



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