Paris - Os defeitos do MPLA são conhecidos, por isso não nos perderemos neles. Mas de todos os seus defeitos há um pelo qual será eternamente responsável porque imperdoável, especialmente agora que a África tem um desejo identitário de realçar as suas línguas nacionais: a alienação cultural dos angolanos, que continuou com volúpia depois da Independência. É a mais grave falha, muito mais grave do que a nomeação para a presidência do Tribunal Constitucional de uma dos seus militantes, também portuguesa, para destituir o presidente do maior partido da oposição em Angola, ao que parece por ter tido, precisamente, a nacionalidade portuguesa no momento da candidatura à presidência do seu partido. É mais grave porque o futuro de um povo depende da sua capacidade de forjar uma identidade própria, intrinsecamente ligada a quem é fundamental e ontologicamente.

Fonte: Club-k.net

Um povo que não sabe quem é é um povo que não pode ir a lugar nenhum, é um povo que anda em círculos e, portanto, um povo que não tem futuro. Por isso, não sei se tudo o que se faz para endireitar esteticamente o país faz realmente sentido se não começarmos por curar primeiro a sua alma, reabilitando o angolano no seu ser cultural através da reconciliação com a sua africanidade. Já o podemos constatar pelo lugar atribuído ao Tribunal Constitucional, importante instituição responsável pela tutela da aplicação da nossa Constituição, que hoje se encontra reduzido a um patamar inferior ao de um partido político, uma vez que o MPLA não vê problema em que seja presidido por uma pessoa que tem a nacionalidade portuguesa. Isso diz muito sobre os imaginários que governam o nosso país e a nossa definição de soberania. E se na maioria dos países africanos os nacionalistas foram hostis à língua do colonizador, a escassa literatura disponível sobre o assunto em Angola diz-nos que não só o português foi abraçado pelos intelectuais do MPLA, mas especialmente imposto como a única língua dos angolanos após a Independência, isto é, muito além do desejo pragmático de criar a unidade nacional através dela. Angola é um país onde a língua colonial ultrapassou o nível administrativo e educacional, em detrimento das línguas nacionais, e achamos isso bonito.

Mas nos anos 80, Mbanza-a-Kongo, onde nasci e onde passei parte da infância, ainda resistia e era um melting pot feliz onde as crianças tinham a possibilidade de ser poliglotas sem se perderem. Vivíamos rodeados de várias vibrações culturais e a língua portuguesa era um meio de comunicação simples como qualquer outro. Em casa, no nosso quintal, nos anexos que os meus pais alugavam a inquilinos vindos de todos os lugares, já ouvíamos diferentes sonoridades de kikongo. O kikongo da Damba soava diferente do Soyo, Kuimba e todos do nosso. Mas todos nos entendíamos e cada uma dessas variantes enriquecia as outras. Em famílias antigas como a minha, não falávamos lingala por superioridade, mas porque sabíamos que a nossa língua era nobre e que devia ser preservada e protegida. Noutros lugares, foi por razões doutrinárias, pela política do MPLA, que ensinou sabiamente as pessoas a censurarem-se perante essa língua de um país irmão, o que em suma era mais da estupidez própria desse partido devido ao seu complexo diante de tudo que é africano em geral, por isso ensinou aos angolanos que o seu país irmão é Portugal. Mas todos nós entendíamos o lingala em Mbanza-a-Kongo, respondíamos em kikongo quando alguém falasse connosco nessa língua. Só muito mais tarde e, por sorte, depois de ter saído da seca lusofonia mais reduzida pelo MPLA em Angola, é que me apercebi da riqueza que isso representava para mim. E ainda me lembro que o kikongo era proibido na escola. A direcção da escola fazia circular, dentro da escola e às vezes nos bairros após as aulas, uma pequena moeda que chamávamos de Símbolo, que era entregue ao aluno flagrado a falar a nossa língua materna. Ele também tinha que passar para um outro antes do final das aulas. Então perseguia os seus colegas, provocava-os falando com eles em kikongo quando eles não sabiam que ele tinha a moeda. Quando alguém caia na armadilha, tinha que fazer de tudo para não passar a noite com a moeda, pois no dia seguinte era espancado violentamente com uma vara rija pelos professores na frente de todos. E só Deus sabe quantas vezes o meu pai, que no entanto foi Assimilado e professor no tempo colonial, embora proibisse os filhos de falar português em casa, brigou com a direcção da escola por causa disso! Esse espírito do MPLA criou angolanos encolhidos e limitados, almas penadas com muito pouca abertura à África e ao mundo. Quando não estão na lusofonia, onde se habituaram a ser desprezados pelo amo português, é triste ver como é tão flagrante a sua incapacidade de conviver com outros africanos e com o mundo negro. Mas muitos não sabem que são limitados e desinteressantes, até pensam o contrário de si mesmos.


O meu amigo Sam Lambert, um génio da moda reconhecido até no Japão e cofundador do colectivo criativo Art Comes First, que é admirado por Kanye West, Lenny Kravitz, Mos Def, Raphael Saadiq, que colabora com Ozwald Boateng e Fred Perry e que revolucionou a marca The Kooples, contou-me novamente na semana passada, durante a Paris Fashion Week, a cena triste que viveu em setembro de 2019 em Angola, único lugar onde se pode vivenciar coisas tão incríveis. Foi a sua primeira viagem após décadas fora e convidou o seu sócio, Shaka Maidoh, nascido em Londres, para conhecer o seu país, já que ele o convida regularmente para o seu país de origem, Gana, que se tornou a terra prometida dos afro-descendentes graças aos esforços dos seus dirigentes africanistas e conscientes. Um dia, decidiram ir à Bienal de Luanda que tinha lugar nesse período e um moço angolano dinâmico, que tinha conseguido fugir da lusofonia, reconheceu-os e quis apresentá-los às personalidades que lá estavam. E estava esse DJ, que ninguém conhece fora da lusofonia e que não merece ser mencionado aqui. A sua postura arrogante e insana já fazia adivinhar que patife ele era antes mesmo de abrir a boca. Mas o Sam e o Shaka, que são pessoas equilibradas e admiravelmente simples, tentaram falar com ele como falam com todo mundo, rico ou pobre. Mas tinham diante de si uma arrogância sem nome que não era justificada nem pelo génio nem pela inteligência, o que despertou profunda tristeza em Sam. Porque esse DJ, que falava apenas em português, perguntou ao moço que os apresentou de que província de Angola era o Sam e o próprio Sam respondeu-lhe "Uige". Foi então que o DJ se voltou para o moço e disse com desprezo: “é Zairense! "


Este é o tipo de energúmeno que o MPLA criou! Ele não tem ideia de que o Sam é o cidadão que qualquer país sério e digno gostaria de ter. Mas reduziu-o ao vil imaginário político criado pelo MPLA contra toda uma parte do povo do país que dirige. E ainda não se sabe que essa parte é a mais equilibrada e aberta do nosso país e que foi salva da alienação colonial prolongada pelo MPLA graças à sua resistência à obliteração. Essa parte do país nunca perdeu a sua africanidade, até a enriqueceu com outras Áfricas. E tal como os zairenses, que ainda escarnecemos por baixeza, que se encontram entre o corpo docente das mais prestigiadas universidades mundiais, também encontramos pelo mundo angolanos dessa parte do país a competir com outros peritos em todas as áreas. É porque se abriram sem se abolir que nunca se esqueceram de quem são e de onde vêm. Falam línguas europeias e asiáticas da mesma forma que falam línguas africanas. Os seus tímpanos são sensíveis às melodias do grande poeta Simaro Lutumba, às canções do humanista Cat Stevens e às vozes soluçantes do Bonga e Jacinto Tchipa que exigem uma Angola melhor para todos. É então quando esse DJ perceber o seu atraso organizado que vai ultrapassar as fronteiras da lusofonia que o folcloriza. Até então, continuará a encarnar o que os congoleses chamam de "Chungurra", ou seja, um angolano alienado e idiota que só fala português, que é incapaz de conceber o mundo para além dos limites impostos pelo seu amo português e que se considera superior a um « Zairense ».

Ricardo Vita é Pan-africanista, afro-optimista radicado em Paris, França. É colunista do diário Público (Portugal), cofundador do instituto République et Diversité que promove a diversidade em França e é empresário.

 



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