Luanda - Gambeta é um movimento do corpo e das pernas para se fugir a uma perseguição. É um drible, uma finta, um "jajão", em sentido figurado; também pode ser entendido como um procedimento manhoso para enganar ou livrar-se de alguém. É, igualmente, o nome do jovem moçambicano que queria dar um show pirotécnico na passagem de ano e acabou incendiando o seu próprio bairro num vídeo que se tornou viral nas redes sociais em Moçambique e em Angola. Entre nós, aquilo que foi preparado no maior sigilo para ser a grande reentré do PR João Lourenço em 2022 acabou-se por revelar uma verdadeira Gambeta do princípio ao fim.


Fonte: NJ

Começando pelo termo criado para o efeito de "entrevista colectiva" para se fugir das habituais conferências de imprensa, é um "complicar o que sempre foi simples" como bem escreve o jornalista Reginaldo Silva, reforçando, igualmente, que "chamem-lhe o que quiserem, mas na relação de um Presidente com a comunicação social só existem duas opções: a conferência de imprensa e a entrevista exclusiva concedida a um ou dois jornalistas, desde que trabalhem para o mesmo órgão", e terminando na exigência aos cinco órgãos de comunicação social convidados do envio antecipado de perguntas a colocar ao PR João Lourenço, baseado num interesse "meramente logístico/organizativo" e pedido depois sigilo sobre o assunto.


Se o envio antecipado fosse normal, como tentam sustentar algumas "milícias digitais" através de falsos perfis nas redes sociais, não se teria pedido segredo aos jornalistas convidados, antes pelo contrário, a entidade anfitriã teria feito disso mais um palco para dar show. É muito grave quando se tenta condicionar a liberdade dos jornalistas, no sentido de se criarem condições para se deixar caminho livre para o PR brilhar e evitarem-se perguntas incómodas.


É, realmente, um episódio fútil, ultrajante e indigno para o próprio PR João Lourenço, aos jornalistas e ao Jornalismo como tal. O PR é exposto, revelam-se sinais de despreparo e de um grande receio de lidar com perguntas que estejam fora do guião e que lhe possam criar embaraços.



São novas armas e velha afirmação. As armas são novas, mas as tácticas são antigas e não mudaram. O "exímio xadrezista" mudou as peças do tabuleiro, porém as jogadas são as mesmas, mas só que um pouco mais sofisticadas e dissimuladas. José Eduardo dos Santos tinha pavor e um certo desprezo aos jornalistas (tratou os jornais nacionais de pasquins), não escondia isso, não falava para ele e evitava entrar em encenações e "contagiou" grande parte dos membros do seu Executivo. Fechava-se numa redoma, escutava um grupo restrito de pessoas da sua confiança e só via utilidade na comunicação social quando estivesse disponível para o servir, exaltar e idolatrar.


João Lourenço criou uma expectativa que depois não conseguiu sustentar. Verifica-se hoje uma excessiva interferência do poder político na linha editorial dos órgãos, na era do digital e onde a informação circula a velocidade da luz, somos confrontados com órgãos públicos de comunicação social a perder credibilidade perante os cidadãos e instituições, não por falta de qualidade ou competência dos seus profissionais, mas muito por causa de interferências externas e de linhas editoriais que muitas vezes são "fabricadas" em certos "laboratórios de propaganda". Fica- se com a ideia de que João Lourenço quer abertura, quer dialogar, quer auscultar, quer saber do resultado do escrutínio que lhe é feito pela imprensa com liberdade para o fazer, mas depois é como que impelido, advertido e alertado para recuar, criando posteriormente uma contradição entre os princípios anunciados e a prática.


A liberdade de imprensa é o principal barómetro da afirmação da democracia. É preciso que João Lourenço, os seus auxiliares e o seu staff da Cidade Alta percebam isso e mudem a forma como se relacionam com a imprensa nacional. Não se quer ter a imprensa pública numa condição de subalternização e com a imprensa privada uma relação de hostilização e até mesmo algum desprezo. Como é possível aceitar que, a caminho de dois anos da pandemia da Covid-19, a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, não conceda uma grande entrevista a órgãos de comunicação social privados e vai com a maior facilidade aos órgãos públicos de comunicação social? Há quase um ano que o Novo Jornal lhe solicita uma entrevista e nem há o respeito e dignidade de se dar uma resposta? Será que não existe interesse público nos órgãos privados?


A comunicação é o grande handicap neste Executivo de João Lourenço e é preciso melhorar-se na comunicação e na relação, bem como na abertura com a imprensa. É preciso que se vença certa insegurança existencial, que quem auxilie e apoie João Lourenço não caia no erro daqueles que apoiaram José Eduardo dos Santos, criando a narrativa de que ser Presidente em Angola resulta de uma emanação divina e que lhe devemos até o oxigénio que respiramos. É preciso humanizar a figura e a função e evitarem-se certas "gambetas" até na preparação de uma conferência de imprensa. Acabou-se criando uma "gambeta" desnecessária na Cidade Alta e aguardando-se os resultados do "show pirotécnico".

 



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