Luanda - Se o estado de saúde de José Eduardo dos Santos tiver um desfecho drástico durante o atual período eleitoral talvez João Lourenço mostre o que aprendeu com ele.

Fonte: Publico

José Eduardo dos Santos encontra-se entre a vida e a morte e nenhum Angolano consegue ficar indiferente a esta notícia, nem mesmo João Lourenço, o seu sucessor, que assim que se viu sentado na cadeira da Cidade Alta tudo fez para mostrar que entre os dois nada havia que os unisse e que tudo o que dali em diante construísse serviria para os separar. E separou.

 

Dos Santos, um homem do Norte, nascido e criado no bairro de Sambizanga, em Luanda, jogador de futebol do Atlético, clube do bairro onde nasceu, e estudante do Liceu Salvador Correia, colheita dos anos 40 do século passado, foi um dos poucos da geração mais instruída e politizada de sempre em Angola que sobreviveu ao 27 de Maio de 1977 e às sentenças sem direito a julgamento vozeiradas por Agostinho Neto, primeiro presidente da inicialmente denominada República Popular de Angola, passando José Eduardo dos Santos pelos pingos da chuva com a mestria que sempre tão bem caracterizou a sua personalidade.

 

Já sobre João Lourenço, um homem do Sul, nascido e criado no Lobito, de nada se sabe acerca de um passado de clandestinidade e combate pela liberdade. Aproximou-se do Movimento Popular para a Libertação de Angola (MPLA) já depois do 25 de Abril em Portugal, fez a instrução militar no Centro de Instrução Revolucionário (CIR) de Kalunga e alistou-se nas Forças Armadas Populares para a Libertação de Angola (FAPLA) onde fez toda a sua carreira militar até atingir a patente de General e sentar-se, em 2014, debaixo do ar condicionado do seu Gabinete de Ministro da Defesa até ao ano em que ganha as eleições à Presidência da República de Angola, em 2017. Já havia passado por outros gabinetes no mínimo desde 1991, altura em que assumiu o cargo de Chefe da Bancada Parlamentar do MPLA, pelo que já estava mais acostumado ao ar condicionado do que aos ares da mata.

 

Também conhecido pelo diminutivo Zédu, José Eduardo dos Santos tem um percurso de guerrilheiro que inicia no extinto Exército Popular de Libertação de Angola (EPLA), então braço armado do movimento dos camaradas[1], e um percurso político que se inicia na clandestinidade ao qual segue-se o exílio em Brazzaville, capital da República do Congo. Colocou-se ao serviço daquele que era um movimento político com base armada em 1958. Atenda-se que nesta data não se tratava de um partido político, até porque a sua existência não era reconhecida oficialmente, mas de um movimento de libertação nacional. De Brazzaville segue para a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) formando-se em Engenharia dos Petróleos no Instituto Químico da Universidade de Azerbaijão, em Baku, no ano de 1969. 


Já João Lourenço sempre foi fiel à carreira militar tendo-se formado, em 1978, na Academia Político-Militar de Lenin, em Petrogrado, na antiga URSS.


Entre Zédu e JLo – como também é conhecido o atual Presidente da República de Angola, pois que nestas coisas de rebatismos os Angolanos não perdem oportunidades de nomear alguém não pelo nome que os seus pais escolherem mas pelo nome que aos Mangopes[2]soa melhor – dista uma década de idade a favor de José Eduardo, um caráter e personalidade absolutamente antagónicos, com a timidez de José Eduardo a convertê-lo num líder simpático e afável, contrariamente à timidez de Lourenço a fazer dele um líder arrogante e distante, mesmo que visto de perto até possa ser afetuoso e humano. Mas é do Sul e José Eduardo é do Norte pelo que o assunto se passa entre a fuba de mandioca[3]e a fuba de milho[4]ou o diz-me de que fuba é feito o teu funje e dir-te-ei quem és.


Também pela diferença entre José Eduardo dos Santos e João Lourenço denotamos como estes dois líderes conduziram Angola. O primeiro, Ministro dos Negócios Estrangeiros desde o 1.º Governo de Agostinho Neto e, após a morte do último, empurrado por Lúcio Lara para a cadeira da presidência, lugar que sempre assumiu que não queria, foi o engenheiro da mudança que colocou fim às perseguições que se faziam desde 1977 por ocasião do 27 de Maio e desmantelou oficialmente a Divisão de Informação e Segurança de Angola (DISA), polícia política e serviços de inteligência, retirando do calendário de festejos nacionais ao malogrado 27 de Maio até então assinalado com pompa e circunstância. O segundo, Ministro da Defesa que nunca privou com Neto, nunca escondeu o sonho da cadeira da presidência e segundo mujimbos[5]não bateu à porta para entrar, antes deu-lhe um pontapé escancarando-a.

 

E se José Eduardo sempre foi um líder com um leitmotiv, fazendo de qualquer ação um ideário nacional e movimentando massas para o cumprir, já João Lourenço, caso o cacimbo o reconduza em agosto, sem chapéu[6], à cadeira da presidência, terá de se esforçar muito para apagar o péssimo marketing político com que o aparelho do MPLA pintou a sua personalidade. O slogan eleitoral “Em 2022 vão assustar já está. JLO Reeleito” só não deixou os angolanos assustados porque o povo já não se assusta, mas gerou muita perplexidade. E a diferença entre perplexidade e indignação é algo que faz de João Lourenço um líder pouco carismático e de José Eduardo dos Santos um amor odiado, uma paixão de punho firme que nunca querendo ser presidente o foi durante 37 anos, deixando de lado o título de engenheiro diplomata para, na História de Angola, quer se queira quer não, elevar-se a Arquiteto da Paz.

 

Se o estado de saúde de José Eduardo dos Santos tiver um desfecho drástico durante o atual período eleitoral talvez João Lourenço mostre o que aprendeu com José Eduardo dos Santos e faça uma gigantesca campanha política sobre um assunto que dá sinais claros de deixar a maioria dos angolanos consternados. Se o destino o ditar, João Lourenço e a máquina do MPLA vão poder dizer, sem sombra de dúvida, “Já está”.

 

Afinal, fazer marketing político com a morte dos angolanos tem sido algo que nos últimos meses o maior partido de Angola, no governo há praticamente 47 anos, os seus mais de 500 métiers du l’argentcom lugar no Comité Central, e a Presidência do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Históricos (CIVICOP II) têm provado executar com desfaçatez.

 



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