Alemanha - A Suazilândia foi o "berço" do crime ou da suposta tentativa de golpe de Estado na RDC. Que outros paises Malanga envolveu para tentar realizar o "velho sonho" de restaurar o Zaire? A DW tenta desenrolar o novelo.

Fonte: DW

Na Suazilândia, Christian Malanga tinha estatuto de refugiado quando era adolescente, conta Temba (nome fictício), que viveu no mesmo centro que o congolês. "Muitas pessoas estavam a fugir de guerras e vinham procurar refúgio na Suazilândia. Quando a família Malanga chegou, o seu plano era ir para o estrangeiro e a Suazilândia estava a oferecer essa oportunidade", recorda.

 

Evidenciou desde cedo a sua veia anarquista. Mesmo em terra que o abraçou não se absteve de tirar a paz. Christian Malanga mobilizou uma campanha contra a monarquia de Mswati III no campo de refugiados de Mpaka, em Manzini, atual Essuatíni.

 

"Mas assim que chegaram, não demoraram muito tempo a revoltar-se contra o governo. Malanga começou a influenciar a maioria dos refugiados, que começaram a revoltar-se contra o Governo. 75% dos refugiados foram levados para Sidwashini, que é uma das prisões da Suazilândia, e uma semana depois repatriados", acrescenta Temba.

 

Christian Malanga era "muito inteligente" e inspirava as pessoas, porém "demasiado ambicioso" e com um espírito de dominação que afugentava alguns, conta Temba. Mas a maioria deixava-se encantar pelo seu caráter, deixando-se recrutar para a sua causa: restaurar o Zaire de Mobutu Sese Seko.

 

Temba relata ainda que Malanga "decidiu regressar à RDC para se juntar ao Exército, porque tinha o sonho de criar um novo Zaire. Depois de ter estado no Exército, regressou à Suazilândia - a família dele vivia aqui - e também passou por outros países, como Moçambique. Essa era uma ideia que toda a família tinha, tinham esse espírito rebelde."

 

Nessa altura, recorda ainda, Malanga "decidiu imprimir t-shirts com a bandeira do Zaire e as pessoas usavam-nas."

Moçambique, uma das fontes de financiamento?

Mais tarde, quando conseguiu chegar a Moçambique, não foi para recrutar seguidores, mas para obter riquezas naturais fáceis em contexto de ausência de Estado. Analistas suspeitam que o dinheiro desses recursos financiariam o velho sonho de Malanga.

No país, manteve relações com proeminentes figuras do partido no poder, como Alberto Chipande, o que despoletou a exigência de esclarecimentos do Governo. Porém, analistas são unânimes em descartar qualquer implicação de Maputo no processo.

"Se isto tem a ver com um posicionamento político ou interesse moçambicano em termos de Estado, em Kinshasa ou ao que se passa na RDC, a minha resposta é um retundo não", diz o analista Fernando Cardoso.

Já o primeiro-ministro moçambicano "deu um tiro no pé", ao afirmar que o investidor estrangeiro "faz no país de origem dos capitais, isso não é assunto" de Moçambique. Adriano Maleiane pontapeou, assim, a legislação de branqueamento de capitais e de prevenção do terrorismo, aprovada graças ao esforço do seu próprio Governo.


Angola foi terreno preparatório?

E os tentáculos de Malanga estendiam-se a Angola, onde manteve contactos com altas patentes militares, o que levou alguns setores a especular que o opositor de Félix Tshisekedi teria preparado a intentona de 19 de maio contra Kinshasa neste país.

Apesar das suspeitas relações, o especialista angolano em relações internacionais Kinkinamo Tuasamba também descarta qualquer tipo de crise diplomática: "[O envolvimento de Malanga com figuras de Angola e Moçambique] afetaria [as relações bilaterais] se, de facto, houvesse um pronunciamento de Kinshasa sobre a relação de Christian Malanga com Angola ou com Moçambique. E aí João Lourenço não teria moral para continuar como mediador do conflito na RDC."

Onesphore Sematumba, investigador congolês do centro de pesquisa International Crisis Group (ICG), também sublinha a ausência de factos que comprovem o envolvimento político de Luanda e Maputo. E até desqualifica o suposto golpe de Estado, por carência de alguns pressupostos, como por exemplo a tomada de órgãos de informação públicos e posições relevantes do Exército.

Contudo, o falhanço de Malanga expôs fragilidades na ala castrense congolesa: "Se Kinshasa tem fragilidades a esse nível, o que dizer do resto do país, como no leste onde existe o M23 e outros grupos armados?"

Para o investigador, "a aventura de Malanga mostra que o Congo tem vários problemas de segurança. O facto do Palácio da Nação, onde está a equipa do PR, ter sido atacado por mais de duas horas é um grande tema, que talvez possa ser um alerta de que ninguém está no comando."

Quem são os principais atores no conflito na RDC?

 

Fora isso, o vácuo de poder, depois das eleições gerais de dezembro de 2023, proporcionou uma oportunidade para Malanga, entende o pesquisador.

"Como ICG, entendemos que pode ter sido devido à falta de Governo. Seis meses depois das eleições, as instituições estiveram adormecidas, o que terá permitido que as pessoas fizessem o que queriam. As forças de segurança desertaram", sublinha.

As investidas do falecido opositor do regime de Tshisekedi na diáspora estendiam-se a vários lugares, como Inglaterra e Bélgica, onde chegou a pedir contribuições para as suas ações, embora garantisse que tinha apoio financeiro nos EUA. Os seus tentáculos estendiam-se inclusive a Israel.

Apoiantes do regime desconfiam que os EUA, país onde residia Malanga, e o Ruanda tenham apoiado a intentona, mas Washington já se distanciou. Sematumba, que se recusa a pisar no campo da especulação, lembra, no caso de Kigali, que "as mesmas forças de defesa do Ruanda que estão em Moçambique enviaram soldados ilegalmente para o leste da RDC para apoiar os rebeldes do M23."

O crime orquestrado por Christian Malanga e não tentativa de golpe de Estado, como entende Cardoso, é um novelo que revelaria outras surpresas, puxando mais a linha