Luanda - O Reino Unido ameaça restringir vistos a Angola, Namíbia e RDC alegando falta de cooperação em deportações. Luanda nega obstrução e defende diálogo. Analista antevê conflitos diplomáticos e económico-financeiros.
Fonte: DW
O Reino Unido ameaça restringir a concessão de vistos a Angola, Namíbia e República Democrática do Congo, acusando-os de não cooperarem suficientemente para readmitir os seus cidadãos em situação irregular.
Luanda nega ter deliberadamente obstruído processos de deportação e garante que mantém um "canal aberto de diálogo" no sentido de serem encontrados "os mecanismos que permitam uma rápida resolução deste assunto de forma a salvaguardar e preservar os laços de cooperação e amizade entre os dois países.
Em entrevista à DW, Eugénio Costa Almeida, investigador do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE), considera que esta situação pode provocar um conflito "diplomático e económico-financeiro" entre os dois países.
DW África: Crê que esta situação pode criar alaridos e problemas diplomáticos entre os dois países?
Eugénio Costa Almeida (ECA): Pode criar duplo conflito: conflito diplomático e conflito económico-financeiro. Conflito diplomático porque as razões invocadas não me parecem serem suficientemente fortes para esta ameaça, o que é a questão dos países em causa, em concreto Angola, não querer receber de volta eventuais deportados. Em princípio, os países devem receber os seus cidadãos, mas depende da forma como a deportação é feita e também das razões que levam a essa deportação. Portanto, é preciso ter em linha de conta a isso. Depois, no caso de Angola, há efeitos económico-financeiros.
De um lado há angolanos que estão no Reino Unido e que têm alguma capacidade financeira colocada no Reino Unido e esses angolanos, se começam a ter dificuldades de vistos, terão dificuldades em ir lá ou manterem-se lá. Também podem ter esse problema. Por outro lado, também há estudantes que estão a estudar, alguns em áreas de pós-graduações. E finalmente, o Reino Unido é uma parte que diz estar interessada em prestar financeiro a Angola, quer no Corredor de Lobito, quer nas áreas da agricultura. Ora, isto naturalmente vai ter impacto.
DW África: O que significa que neste momento a relação entre os dois países pode estar um pouco tremida, tendo em conta os interesses entre ambas as partes?
ECA: Pois é natural que sim. Quer dizer, a simples recusa de receber deportados do país, não me parece que seja suficiente para isso.
DW África: Mas não acha também que esta questão de alegar a recusa de receber os deportados seja apenas um "bode expiatório", se considerarmos que agora discute-se muito, aqui na Europa, a questão de controlo da emigração?
ECA: Sim, sim, mas repare essa questão já vem desde o tempo em que eles quiseram inclusivamente deportar cidadãos africanos para o Ruanda e não só, que o Ruanda aceitou mediante uma compensação financeira e que o Supremo Tribunal britânico considerou ilegal. E há uma lei recente do Reino Unido que reafirma que vão começar a deportar nacionais de outros países, de acordo com novas normas no país.
DW África: Olhando para a situação real de Angola, até que ponto o país será capaz de resistir a esta pressão do Reino Unido?
ECA: Quando há situações de crise, nenhum país pode levar avante as suas opções radicais. Quando aparece uma crise, arranja-se sempre maneira de minorar os efeitos da crise, portanto, tem de haver e vai haver conversações e certamente haverá acordo para o bem das partes.
DW África: Entende que no meio de tudo isso, os interesses poderão falar mais alto?
ECA: Os interesses falam sempre mais alto do que tudo o resto. Agora, é evidente que se os interesses britânicos forem mais imperativos, falarão mais alto que os interesses de Angola, que poderão ser menos imperativos.












