Luanda - Os angolanos, dentro do país e na diáspora, despertaram abalados pelas notícias que envolvem o cidadão Cesalty Paulo, conhecido artisticamente como Tia Bolinha, integrante do grupo Os Tunezas. As informações tornadas públicas até o momento indicam alegações graves, apresentadas pela sua esposa, relativas a possíveis actos de abuso e violência sexual continuados contra a filha de criação do casal.
Fonte: Club-k.net
Circulam nas redes sociais várias versões — muitas ainda sem confirmação pública — incluindo a informação de que a menor estaria grávida e de que os alegados abusos teriam começado por volta dos 12 anos de idade, num lar que, perante o público, se apresentava como modelo de harmonia familiar.
Como mulher, sinto-me obrigada a aplaudir a coragem desta mãe. Ela não culpou a vítima, não procurou proteger a aparência de um lar já destruído pela violência e pela traição, e não se posicionou ao lado do marido. Ela escolheu o caminho certo: o caminho da justiça, do amor e da proteção incondicional à filha. Oxalá o seu exemplo inspire outras famílias que, neste exacto momento, enfrentam situações semelhantes, a denunciarem abusos contra menores no seio familiar.
As estatísticas mostram que a maioria dos casos de abuso sexual contra menores é cometida por familiares ou pessoas próximas, e que muitos destes crimes são silenciados, ocultados ou manipulados — chegando-se inclusivamente a culpar, humilhar e abandonar a própria vítima.
O abuso sexual contra crianças e adolescentes deixa traumas psicológicos profundos e, por vezes, irreversíveis. Todos conhecemos o testemunho da nossa irmã Neth Nahara, que denunciou repetidamente abusos que afirma ter sofrido enquanto ainda menor de idade. As sequelas psicológicas que carrega são visíveis, mas, mesmo assim, a sociedade escolheu apontar-lhe o dedo e poupar o alegado agressor.
A sua recente condenação a quatro anos de prisão — quando o que ela grita é por apoio psicológico e psiquiátrico — é um reflexo brutal de uma sociedade que continua a punir vítimas e a proteger perpetradores. A Neth não precisa de prisão; precisa de tratamento. Ela é produto de uma sociedade onde adultos que deveriam proteger meninas vulneráveis as exploram, abusam, transmitem doenças, provocam gravidezes indesejadas, moldam o seu carácter e depois as descartam na fossa séptica. A Neth teve a ousadia de falar. De denunciar o que tantas outras silenciam. Que mais mulheres, mães, amigas e irmãs levantem a voz e denunciem os abusos que testemunham nos seus próprios lares.
O abuso sexual de menores é um cancro social em Angola. Surpreende, uma vez mais, o silêncio das organizações de mulheres angolanas — OMA, LIMA — e o silêncio das mais altas figuras femininas do Estado: Sua Excelência a Vice-Presidente da República, a Primeira-Dama, a Juíza presidente do Tribunal Constitucional, assim como de tantas mulheres influentes, artistas, líderes de opinião e profissionais de destaque.
Perante casos gravíssimos e tão públicos, o silêncio é ensurdecedor e politicamente insustentável. Neste contexto, o silêncio significa cumplicidade — e é categoricamente inadmissível e condenável a todos os títulos.
Igualmente ensurdecedor é o silêncio do grupo Os Tunezas, perante as alegações que recaem sobre um dos seus membros fundadores. Quando surgem denúncias desta gravidade espera-se um posicionamento responsável, firme e público. O silêncio alimenta a percepção de cumplicidade.
Nas redes sociais e nas conversas de quintal surgem todas as opiniões: há quem culpe a vítima, quem questione a denunciante, e quem diga que tudo isto é uma manobra de distração política. Mas o essencial é que este caso deve marcar um antes e um depois na forma como Angola encara a violência contra mulheres e meninas. Muitas vítimas permanecem em silêncio por medo, vergonha, dependência económica ou porque normalizaram a violência dentro de casa.
Felicitamos a rápida atuação do Ministério Público e da Polícia Nacional, que detiveram cautelarmente o suspeito, dentro dos trâmites legais. Esperamos que a justiça prossiga o seu curso e que a lei seja aplicada de forma exemplar.
Exigimos que o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, retire imediatamente a distinção e a medalha de condecoração atribuída ao cidadão Cesalty Paulo, alusiva aos 50 anos de Independência, na classe de Paz e Desenvolvimento.
Não se pode permitir que indivíduos com conduta indecorosa criminal mantenham condecorações públicas. Tais distinções são incompatíveis com a gravidade das circunstâncias e com o papel social de um professor do ensino primário e secundário, que é o Sr. Cesalty Paulo.
Acabámos de assinalar o 25 de Novembro — Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres. Que esta data seja um lembrete para dizermos, juntos: não às múltiplas formas de violência sofridas pelas mulheres e meninas em Angola.
Metade do mundo são mulheres — e a outra metade são os filhos e filhas delas.
Diga não ao abuso sexual a menores.











