Luanda - A vida de Jimmy Cliff só se compreende plenamente quando atravessamos o Atlântico com ele. Pois, embora tenha nascido jamaicano, foi em África, e também em Angola, que a sua voz encontrou o eco mais profundo. Esta segunda parte narra o encontro entre um artista e um continente, entre uma voz e uma história, entre uma canção e um povo. É também neste espaço que se inscreve um dos episódios mais inesperados: o uso secreto de “Many Rivers to Cross” por Jonas Savimbi nos seus últimos dias. Eis a continuação: África, Angola, o legado, e tudo o que uma voz pode deixar atrás de si depois de ter atravessado gerações e rios inteiros.
Impacto em África, de Angola ao mundo lusófono
Se Bob Marley foi o profeta emblemático da “África unida”, Jimmy Cliff foi o seu pioneiro na prática. Por onde quer que andasse, semeava a semente do reggae em solo fértil. Nas décadas de 1970 e 80, a sua influência estendeu-se do Sahel às margens do Congo, dos townships da África Austral às ilhas de Cabo Verde. Era muitas vezes recebido como um herói: um “reggae ambassador” encarregado de conectar a diáspora às raízes. Os seus concertos no continente atraíam multidões imensas, fosse no Ghana, no Zaire (RDC), na Zâmbia, em Madagáscar, no Magrebe ou na Costa do Marfim (onde ainda se apresentou em 2015 no festival Abi Reggae). Em cada um destes países, Cliff tecia laços com músicos locais e absorvia as sonoridades regionais. Em 1987, de passagem por Kinshasa, grava um mini-álbum, Shout For Freedom, colaborando com as orquestras lendárias de Franco (OK Jazz) e de Tabu Ley Rochereau (Afrisa), bem como com o grupo Zaïko Langa Langa. Este cruzamento musical ilustra a sua profunda atração pelas músicas africanas, do highlife ghanês aos ritmos mandingas, e a sua vontade de construir uma ponte cultural entre Kingston e o continente.
Cliff marcou particularmente os países africanos lusófonos, onde a sua voz ressoou como a de um aliado nas lutas. Já em 1968, o Brasil lhe oferecera o seu primeiro triunfo internacional, prenunciando o entusiasmo do mundo latino pelo reggae. Em Angola, devastada por uma guerra civil pós-colonial, a sua mensagem de paz teve um eco poderoso. Jimmy Cliff desloca-se pessoalmente ao país na década de 1980, em pleno conflito, com a missão de ajudar a conquistar a paz através da música. Não se limitando a cantar apenas em Luanda, viaja até ao Huambo, região duramente atingida, onde visita um centro de fabrico de próteses para vítimas da guerra, e alguns afirmam até que compôs uma canção especial apelando à paz em Angola. Este gesto não passa despercebido: os angolanos recordam um artista de grande coração, disposto a enfrentar o perigo para defender a paz, a união e a igualdade de todas as raças nas suas terras. Cliff levava a sua arte a países em conflito, atingidos pela fome ou por calamidades, como um verdadeiro embaixador da esperança, testemunha disso sendo Nguxi dos Santos, cineasta angolano que acompanhou Cliff durante essa memorável digressão.
Savimbi, “Many Rivers to Cross” e o último enigma de um chefe de guerra
Mesmo no centro da história angolana, Jimmy Cliff deixou uma marca inesperada, quase secreta. Nas últimas semanas de vida, Jonas Savimbi, chefe de guerra, estratega, figura central da alma política angolana, pede aos seus representantes no exterior que escutem “Many Rivers to Cross”. Os destinatários não compreenderam na altura. Só depois de 22 de Fevereiro de 2002, após o fim, após o tiro, após o abandono na mata, é que o significado se revelou. Para Savimbi, aquela não era uma canção. Era uma confissão. Um reconhecimento velado. Talvez até uma última leitura do destino. “I’ve been licked, washed up for years. And I merely survive because of my pride...”. “Many rivers to cross...”. A canção narrava exactamente o que fora a sua trajetória: batalhas demasiado longas, decisões cortantes, um fardo existencial carregado até ao fim da noite angolana. Que uma das figuras mais complexas da história contemporânea de Angola — admirado, detestado, temido, mas incontestavelmente mitológica — tenha escolhido Jimmy Cliff para os seus últimos recados velados revela a profundidade desta música no imaginário ango-africano. Jimmy Cliff, desde a Jamaica, escrevera aquilo que os homens de guerra angolanos, os exilados, os órfãos, os exaustos já sabiam: a vida africana é um rio interminável a atravessar. E, por vezes, é na voz de um jamaicano que alguém encontra as palavras para nomear a sua última solidão.
Na Angola contemporânea, o nome de Jimmy Cliff é venerado pelos amadores do reggae. A Associação Nacional dos Amigos do Reggae em Angola (ANARA) saudou nele uma “biblioteca viva da história do reggae”, cujos ensinamentos formaram toda uma geração. A sua morte, a 24 de Novembro de 2025, mergulhou a comunidade reggae lusófona no luto, lembrando o quanto este jamaicano era considerado um dos precursores da internacionalização do reggae no mundo de língua portuguesa. Mais amplamente em África, as suas canções penetraram as culturas locais desde a década de 1970. Grupos cabo-verdianos como Tulipa Negra, e a cantora sul-africana Margaret Singana, já gravavam versões dos seus êxitos há mais de quarenta anos. O refrão em suaíli “Hakuna Matata”, que interpreta em 1994 para O Rei Leão, reforçou a sua aura panafricana, fazendo da sua voz um sinónimo de alegria africana para o grande público global.
Uma influência duradoura sobre artistas africanos e da diáspora
Para além do seu próprio sucesso, Jimmy Cliff inspirou inúmeros músicos africanos e da diáspora. “A sua voz ressoava como um canto de unidade no coração de todos os amadores da liberdade”, escreveu um cronista africano, sublinhando que, de Harare a Dakar, a sua música encorajou gerações a não desistir. Na África do Sul, antes da ascensão meteórica de Lucky Dube, Jimmy Cliff era o cantor de reggae mais conhecido do público: o seu reggae “positivo” chegava à rádio apesar do apartheid. O próprio Lucky Dube, que se tornaria depois ícone do reggae africano, reconhecia ter bebido inspiração em Cliff e noutros veteranos conscientes como Peter Tosh. “A influência de Jimmy Cliff moldou gerações inteiras de artistas africanos”, afirma a imprensa panafricana, citando nomes tão diversos como Lucky Dube (África do Sul), Alpha Blondy (Costa do Marfim) ou a estrela pop Brenda Fassie (África do Sul).
Mesmo os gigantes do reggae africano francófono lhe devem muito. Tiken Jah Fakoly (Costa do Marfim) e Alpha Blondy retomaram frequentemente as suas canções ou adaptaram a sua mensagem às suas realidades locais. Alpha Blondy gravou “Bongo Man”, popularizada por Cliff, e nunca escondeu que via nele, a par de Bob Marley e Peter Tosh, um mentor espiritual dos seus inícios. Do mesmo modo, o rei do afrobeat, Fela Kuti, ficou impressionado ao ver Cliff em África em 1974, chegando a convidá-lo para sua casa como gesto de fraternidade musical entre jamaicanos e africanos. Mais tarde, em 1986, o músico de intervenção camaronês, Lapiro de Mbanga, convida Jimmy Cliff a partilhar o microfone no tema No Make Erreur, sinal de respeito pelo veterano jamaicano. Das Caraíbas às margens do Nilo, muitos foram os artistas que, um dia, atravessaram “mais um rio” guiados pelo exemplo de Jimmy Cliff.
Um testemunho particularmente eloquente vem de Angola: Ras Sassa, cantor e presidente da ANARA, afirma que Jimmy Cliff era “o ícone número um do reggae”, um verdadeiro mestre de pensamento para Bob Marley, Peter Tosh e todos os que vieram depois. “Claro que Marley e Tosh são mais conhecidos, mas Jimmy Cliff foi o professor de todos os artistas de reggae que vieram depois, incluindo Marley”, insiste ele. Para este activista angolano, conhecer Jimmy Cliff pessoalmente foi um momento inesquecível: em 1995, durante um concerto em Paris em homenagem aos 50 anos de Bob Marley, dirigido por Cliff, Ras Sassa tocava na banda de apoio e guarda uma memória comovida dessa “lição de vida” partilhada com a lenda jamaicana. Estes inúmeros testemunhos mostram que Jimmy Cliff não era apenas um cantor de reggae: era um transmissor de legado, um modelo de orgulho, um farol de consciência para a diáspora africana.
Orgulho negro, negritude e ligações Jamaica–África
Figura pioneira do movimento pan-africano, Jimmy Cliff sempre reivindicou com força a sua identidade africana. “A Jamaica é um país composto de 90% de descendentes de africanos”, recordava ele, sublinhando nunca ter tido dificuldade em encontrar reconhecimento e respeito no continente, ao contrário de Inglaterra, onde enfrentou preconceitos raciais. Definindo-se como African Jamaican, via África como a sua casa espiritual. “— Onde é mais feliz? — Em África”, confessou em 2022. Acrescentava possuir um terreno na Libéria, “onde Marcus Garvey queria levar os negros da América”, sinal da sua adesão ao sonho panafricanista do regresso à terra ancestral. Nas canções como nas entrevistas, Cliff celebrou a negritude e a dignidade negra com fervor, rejeitando toda a vergonha herdada do colonialismo. “Sou africano e não me posso despir da minha pele negra” poderia resumir o seu pensamento: não se renega a cultura, e não há complexo algum a ter, apenas orgulho.
Em palco, usava frequentemente as cores vermelho-verde-amarelo da Etiópia, em homenagem a Hailé Selassié e ao movimento rastafari que o venera. Militante da primeira hora do movimento rasta, Jimmy Cliff não usava as emblemáticas dreadlocks, mas encarnava plenamente o seu espírito vibrante e universalista. Defendia a unidade africana em temas como “Bongo Man” ou “Roots Radical”, cantados evocando a Motherland com profundo respeito. Para ele, África não era uma mera metáfora exótica. “Para Jimmy Cliff, África não era uma ideia, era memória, pertença e lar”, sublinha uma bela homenagem. O seu percurso encarna o círculo que une África à sua diáspora: nascido numa ilha caribenha marcada pela escravatura, reencontrou pela música o caminho de regresso à mãe-pátria.
Cliff gostava de recordar os laços históricos entre a Jamaica e África, fosse pela figura do jamaicano Marcus Garvey, pioneiro do pan-africanismo, fosse pelos paralelos entre as lutas anticoloniais. Na década de 1970, quando muitos países africanos alcançavam independência, lança “Struggling Man” (“Homem em luta”) e participa em concertos de apoio aos movimentos de libertação. O seu famoso filme The Harder They Come era visto clandestinamente por militantes sul-africanos em resistência, e o seu refrão “You can get it if you really want” ecoava como um mantra de empoderamento para milhares de jovens em Angola, Moçambique ou Zimbabwe em busca de um futuro melhor. Nas décadas de guerra, as suas cassetes atravessavam secretamente fronteiras para levar coragem aos combatentes da liberdade, confirmando o reggae como banda sonora das independências africanas.
Hoje, o legado de Jimmy Cliff perpetua esses laços transatlânticos. Ele ajudou a fazer do reggae uma música africana na alma, meio de expressar o orgulho negro e a sede de justiça em todos os continentes. A sua entrada no Rock & Roll Hall of Fame em 2010 ou os seus Grammy Awards pouco importam quando comparados ao reconhecimento que o povo africano há muito lhe concedera. No mais fundo de uma aldeia ou de um musseque, não é preciso autorização para pôr Jimmy Cliff a tocar: a sua música faz parte da família, da memória colectiva que acompanhou lágrimas e alegrias, lutos e vitórias. “Ele era a banda sonora da liberdade, o coro do luto, o ritmo da alegria”, resume poeticamente um jornal africano. Jimmy Cliff partiu, mas deixa em herança uma bússola moral: a de uma música ao serviço da dignidade humana. Em cada refrão que chama a erguer-se, a sonhar e a lutar, continuará a ressoar, por muito tempo, a voz deste jamaicano de coração africano.
Ricardo Vita
Headhunter e observador pan-africanista












