Luanda - Quem disse que um Oficial de Inteligência não pode dizer à sua família ou a amigos que trabalha nos serviços secretos? Confundir segredo de Estado com anonimato absoluto é má-fé ou ignorância. O que mais me impressiona, porém, é a ignorância de alguns jornalistas em matérias desta natureza.
Fonte: A Denuncia
Lá fora, debatem-se, em plena televisão pública, assuntos relacionados com os serviços secretos. Aliás, recentemente, tivemos um caso que envolveu o nome de Higino Carneiro e um ex-agente da CIA, que veio publicamente desmentir o assunto na TPA. E a TPA passou o direito de resposta. Não assumiu? Morreu alguém nos Estados Unidos pelo desmentido? Ele não veio, a título pessoal, desmentir? Revelou-se algum segredo dos Estados Unidos? Perante acusações sérias, tem de haver desmentidos ou aceita-se com o silêncio, revelando-se que as acusações são verdadeiras, o que seria gravíssimo.
No nosso país, porém, isto continua a ser tratado como tabu. Mas não se trata de um mito qualquer. Até dizem que não existe "ex-oficial". Quem entra nunca sai. Eu fui suspenso da ERCA, de forma ilegal, com proposta de Reginaldo Silva, por causa de passes antigos do SINFO, como se eu fosse um criminoso por ter passado ligado ao Serviço.
Há dias houve um acto público de reforma do pessoal dos serviços de inteligência. E eu escrevi sobre isso. E até citei nomes. Revelei algum "segredo de Estado"? Assim, os veteranos não saíram? Quem disse que quem foi nunca deixa de ser? Quem disse que alguém não pode deixar de ter vínculos com o Serviço? Que estupidez sem tamanho!
É um mito calculado, porque convém: serve para não destapar ilegalidades e para continuarmos a viver num país sem verdadeiro escrutínio público.
Em qualquer país sério, oficiais de inteligência podem ser conhecidos. O que está protegido são operações, fontes e métodos. Confundir estas realidades revela uma ignorância sem tamanho.
Em Angola, há chefes conhecidos, reformas públicas e condecorações transmitidas na televisão. Logo, o mito do “oficial invisível” não resiste aos factos. O verdadeiro incómodo surge quando alguém que conhece o sistema por dentro recusa calar-se por conveniência, como é o meu caso. Eu fui formado, também, no SINFO/SINSE. E assumi isto publicamente. Mas ninguém nunca vai saber o que eu fiz quando pertenci ao Serviço.
O silêncio institucional perante acusações graves não é prudência. É desgaste da própria instituição. O SINSE é uma instituição pública como qualquer outra e deve explicações ao Estado quando estão em causa acusações graves que, a confirmarem-se, podem conduzir o seu chefe a penas de prisão, ponto.










