Luanda - O General Armindo Júlio Baião, mais conhecido por Tarzan, foi um daqueles soldados das FALA que passaram toda a guerra com a mochila às costas e a arma em punho. Ascendeu gradualmente na hierarquia militar: começou como simples soldado e, passo a passo, alcançou o grau de general.
Fonte: Club-k.net
Teve passagem pelo famoso e eficiente Batalhão 333, onde coadjuvava o então Major Álvaro Essuvi Lutukuta, mais conhecido por Luwawa, que viria a atingir a patente de Brigadeiro e a tornar-se seu padrinho. Com ele participou na libertação da orla do Cuando-Cubango, facto que permitiu a instalação da base principal de apoio, a Jamba.
Com a criação da BRELITE (Brigada de Elite), uma unidade militar equipada com canhões de longo alcance, transportados em viaturas Unimog, entre outros meios, concebida para reforçar a capacidade de fogo e a mobilidade das forças no terreno, e resultante da fusão do Batalhão 333 com outras unidades, Tarzan manteve-se como adjunto de Luwawa no comando da nova brigada, embora por pouco tempo. Posteriormente, assumiu o comando da frente do Cuito Cuanavale.
A sua vida foi sempre vivida na trincheira, lado a lado com os seus intimoratos soldados, com os quais partilhou momentos de alegria e de angústia. Passou fome e sede, enfrentou a chuva e caminhou sob sol ardente no cumprimento da missão. Foi um soldado organizado e disciplinado. Na hora do perigo, não abandonava a tropa. Por isso granjeou profundo respeito e admiração entre os guerrilheiros, sendo frequentemente elogiado pelo Alto-Comandante das FALA, o General de Exército Jonas Malheiro Savimbi.
Num dos comícios realizados na Jamba, talvez em 1988, Dr. Savimbi afirmou: “O Tarzan disse-me que as suas tropas estavam em prontidão de duzentos por cento.” E correspondia à verdade, pois as ofensivas das FAPLA naquela região não obtiveram sucesso.
Terminada a guerra, já na fase da campanha eleitoral de 1992, vi-o a coordenar a segurança do Dr. Savimbi num comício em Benguela. Foi durante a sua estadia naquela cidade que procurou os pais, a quem não via desde 1976. Tratou-se de um dia de enorme emoção, pois os familiares acreditavam que estivesse morto, uma vez que nunca haviam recebido qualquer notícia sua ao longo de todos aqueles anos.
Após localizar a casa dos pais, o responsável do Comité Piloto do bairro deslocou-se até lá para anunciar que iriam receber uma visita muito importante. Quando a delegação chegou, da qual faziam parte, entre outros, o General Antero e o Dr. Morgado, a mãe reconheceu o filho, não se conteve e gritou: “Omõlange…” (o meu filho).
Chorou amargamente e quis colocar o general ao colo, como se fosse um bebé. Coisa de mãe. Foi um momento de emoção indescritível.
Quando a guerra pós-eleitoral rebentou, combateu no Bié, onde foi atingido numa perna. Foi evacuado e internado no Hospital do CFB, no Huambo.
Tive a sorte de o conhecer pessoalmente no Bailundo, em 1995. A sua casa situava-se a caminho da praça do Sachole, no sentido de quem sai do centro da vila. Gostava de se sentar no pátio, à sombra das grandes mangueiras, e usava, com certa regularidade, um chapéu de três bicos. Tinha sempre um livro ao lado, o que me levou a perceber que apreciava a leitura.
Em 1996, numa missão do Estado-Maior das Forças Militares da UNITA, acompanhei-o até ao município do Mungo, mais precisamente às áreas de Kambwengo, onde deixou o Brigadeiro Zaboba Njunjuvili com a missão de criar uma base estratégica. Durante a viagem, falou longamente dos sacrifícios necessários para garantir a sobrevivência da revolução. Percebi então que não era apenas um homem das trincheiras; os seus argumentos eram sólidos e frequentemente sustentados por citações.
No regresso, contou várias histórias. Era um excelente conversador, e a viagem decorreu sem que déssemos pelo tempo passar. Deixei-o em sua casa. Agradeceu-me e pediu-me que, no dia seguinte, o procurasse no Estado-Maior. Assim fiz. Cheguei por volta das nove horas e encontrei-o bem-disposto. Entregou-me um envelope com duzentos dólares. Assinei o recibo e disse-me: “Isto é para repores o combustível do teu carro”. Agradeci com um sorriso nos lábios. Sabia que iria comprar outro tipo de combustível: cerveja.
Uma semana depois, passei pela sua casa, e ele, bem animado, contou-me: …
A história continua no livro Guerrilheiro Desde a Infância, uma colectânea de textos sobre a guerra entre a UNITA e o então Governo da República Popular de Angola (MPLA-PT), prefaciada por um dos mais brilhantes soldados das extintas FALA, o General Peregrino Isidro Wambu Chindondo.
Contactos para testemunhos, correcções ou contributos históricos:
Telemóvel: 924 469 080
E-mail: Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.
Luanda, 3 de Janeiro de 2026
Gerson Prata












