Luanda - 1. O dilema dos gastos públicos. O Orçamento Geral do Estado (OGE) de 2026 volta a expor uma contradição recorrente: gastos elevados em programas e instituições que não geram receitas diretas para os cofres do Estado. Multiplicam-se diplomas e certificados, mas o impacto económico imediato é reduzido.
Fonte: Club-k.net
O sector público, ao tentar ocupar o espaço do sector privado, acaba por usurpar o seu papel natural.
Como o sector público depende das receitas do sector privado, sufocar este último é matar indiretamente a sua própria fonte de financiamento.
2. A verba para a Escola 42
O documento oficial do OGE 2026 mostra que a Escola 42 Luanda vai receber uma dotação de 3.236.919.905 Kz, inscrita dentro do Programa de Expansão e Modernização do Sistema de Ensino, representando 2,08% da despesa desse programa.
Este valor é superior a outros programas de formação de quadros, como:
Incentivo de Cursos com Oferta Deficitária: 220 milhões Kz
Sistema Integrado de Gestão da Oferta Formativa: 53 milhões Kz A prioridade dada à Escola 42 é clara, mas levanta questões:
O Plano de Desenvolvimento Nacional (PDN) 2023/2027, que terminará próximo ano, tem como metas aumentar receita fiscal, criar emprego para a juventude e melhorar o ambiente de negócios...
Como a Escola 42 contribui diretamente para estas metas?
O risco é acumular diplomas sem impacto fiscal ou económico imediato,
enquanto problemas urgentes ficam sem apoios.
3. O consumo digital e o prejuízo externo
Angola enfrenta um déficit anual estimado em 500 milhões USD devido ao consumo de
serviços digitais externos.
O país importa tecnologia e exporta capital financeiro em divisas, sem contrapartida interna.
A Escola 42 poderia ser vista como solução estratégica para formar recursos humanos, mas sem indústria digital para absorver estes quadros, o impacto é limitado.
4. Comparação internacional
O modelo de financiamento da rede 42 varia de país para país:
França (Paris): financiada por Xavier Niel, empresário privado.
Portugal (Lisboa): apoiada por empresas privadas e associações de inovação.
Brasil (São Paulo): sustentada por fundações privadas.
EUA (Silicon Valley): financiada por investidores privados.
Angola (Luanda): participação estatal direta, diferindo do modelo
predominante.
5. Argumentos contra
1. Diplomas e certificados sem indústria não se traduzem em receitas imediatas.
2. Pressão orçamental: sectores críticos ficam sem recursos.
3. Modelo internacional diferente: em outros países, o financiamento é sobretudo
privado.
4. Risco de dependência: programas sem retorno tornam-se peso adicional ao
OGE.
6. O problema mais amplo
Assim como a Escola 42, existem muitas instituições que apenas produzem diplomas,
numa altura em que o país precisa de finanças para sustentar programas e iniciativas.
O mercado angolano sofre de falta de indústria real, capaz de transformar conhecimento em produção e gerar receita fiscal.
Sem indústria, diplomas acumulam-se sem se converter em capital financeiro para enfrentar necessidades urgentes de saúde, educação e infraestruturas.
O país investe em formação sem criar o ecossistema produtivo que converte essa formação em riqueza real.
Conclusão
A Escola 42 pode ser uma iniciativa relevante para o futuro digital de Angola, mas o modelo de financiamento merece revisão.
Antes da escola, deveria investir-se na indústria.
O Estado pode ser o catalisador inicial, mas não deve carregar sozinho o peso da
iniciativa.
O ideal é um modelo misto, em que empresas privadas do sector tecnológico
assumam progressivamente o financiamento, já que são elas que beneficiam
diretamente da mão de obra formada.
Mais importante ainda: não basta formar pessoas, é preciso criar indústria.
Sem este equilíbrio, corremos o risco de transformar soluções estratégicas em problemas orçamentais, acumulando diplomas sem gerar capital financeiro para o país.












