Luanda - O centro de comunicações do comandante em chefe das Forças Armadas Angolanas foi chefiado, de 1976 a 1991, por uma senhora: Luzia Inglês Van-Dúnem, actual secretária-geral da Organização da Mulher Angolana (OMA), uma antiga combatente da luta de libertação nacional.


Fonte: JA


Natural de Luanda, Luzia Inglês, 63 anos, é filha de Guilherme Inglês, reverendo da Igreja Metodista de Angola. Começou a tomar consciência dos movimentos nacionalistas ainda muito jovem, ouvindo as conversas do pai com Nobre Dias, Noé Saúde, Gaspar Martins, Pedro Benje e Belarmino Van-Dúnem, nacionalistas com quem mantinha contactos regulares.


Inga, como passou a ser conhecida a revolucionária, traça, aqui, em perfil, a sua trajectória, recordando, com alguma amargura, os piores momentos por que passou, com mortes de pessoas que lhe eram muito queridas à mistura, até chegar onde se encontra hoje.

 

O assassinato do pai, depois de preso, em 1961, nos Dembos, pelas forças coloniais em reacção à famosa Revolta de 15 de Março, é relembrada com tristeza. “Mataram-no de forma atroz. Inicialmente, cortaram-lhe um braço e outras partes do corpo. Depois, deram-lhe um tiro de misericórdia”, conta a filha, que na altura vivia nos Dembos.


Na tarde do dia 23 de Março de 1961, Luzia Inglês conta que saiu de casa para apreciar uma frota de aviões que sobrevoava a zona em que vivia. Pouco depois, chamas flamejantes consumiam casas e corpos de crianças, adultos e velhos. Era o início dos bombardeamentos à sanzala do Piri, Dembos, e de Nambuangongo pela força área portuguesa.

 

A morte de uma colega, à mesa, com um irmão às costas, marcou, profundamente, Luzia Inglês, que contava, na altura, 13 anos. Um sentimento de revolta tomou conta de si, enquanto procurava refúgio nas matas, começando, deste modo, a sua actividade no movimento de guerrilha contra o colonialismo português.

 

Com isso, recebe os primeiros treinos militares e participa em actividades de formação política. Três anos e meio depois de ter entrado nas matas, parte para Leopoldeville, actual Kinshasa, aproveitando a oportunidade para terminar os estudos primários, numa escola de refugiados angolanos, controlada por antigos professores sobreviventes de escolas da Igreja Metodista de Angola.

 

Na actual República do Congo Democrático, Luzia Inglês participa de acções clandestinas de recolha de informações, já que os militantes do MPLA eram perseguidos pela UPA e pelas autoridades locais. Aos 19 anos, em 1967, parte para a República do Congo Brazaville, país amigo do MPLA, e é matriculada no Liceu 4 de Fevereiro, primeira instituição de ensino que o MPLA abriu no estrangeiro.

 

Inga, que frequentou o primeiro treino militar com armas em Brazaville. Vai para a Frente Leste em 1968 e, no ano seguinte, é seleccionada para frequentar um curso militar de rádio e telecomunicações, na União Soviética, com duração de um ano.

 

Recorda o período em que trabalhou na Frente Leste, na área de comunicações, e cita nomes de companheiros de armas, hoje oficiais generais, como Bento Ribeiro, Sacha, Bagorro, Joaquim Rangel, Florinda Pedro (Dinda), Joana André (Bichinha), brigadeira da Marinha de Guerra, e Catarina Baião (Bela), esposa do general Kito, embaixador na Namíbia.


Trabalhou, igualmente, como operadora, logística e financeira da Estação Principal de Comunicações da Frente Leste, comandada por Monimambo, um histórico da luta de libertação.


Em 1973 assume a chefia da Estação de Comunicações da Cassamba, ainda na Frente Leste, e, mais tarde, torna-se responsável da estação de comunicações do MPLA, em Dar Es Salam, capital da República da Tanzânia.

 

Casada com Afonso Van-Dúnem M’binda e mãe de quatro filhos, Inga regressa a Luanda em Fevereiro de 1974, no avião que trouxe o Presidente Neto ao país. Trabalha, assim, no grupo que estava a tomar o controlo das unidades militares de telecomunicações em Luanda e do Palácio.


Após a conquista da independência, é nomeada, em Janeiro de 1976, chefe da Secção de Telefax da Presidência da República, que evoluiu para Centro de Comunicações do Comandante em Chefe das Forças Armadas. Permanece no cargo até 1991, ano em que o marido, Afonso Van-Dúnem M’binda, é nomeado embaixador de Angola junto das Nações Unidas.


Em 1999, 38 anos depois de ter aderido à luta armada de libertação, é eleita secretária geral da OMA, organização feminina do MPLA.



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