Luanda - O legado é uma dádiva, uma obra humana feita num determinado tempo e espaço, e que fica transmitido às gerações vindouras. Portanto, um legado de uma pessoa ou de uma geração deve ser julgado no seu contexto e na sua dimensão, avaliando e pondo em balança os aspectos positivos e aspectos negativos. Se os aspectos positivos superarem os negativos, esta obra pode ser considerada positiva. Se for o inverso a avaliação passa a ser parcialmente negativa. Apesar disso, é preciso identificar nele os aspectos positivos que devem ser capitalizados.

Fonte: Club-k.net

Quanto aos aspectos negativos esses devem ser igualmente identificados, estudados e bem avaliados para servirem de lição. O facto de serem negativos não significa que eles não fazem parte da história daquela Nação. Aliás, há aspectos que aparecem negativos à primeira vista, enquanto que, com o andar do tempo os mesmos elementos podem mudar da configuração e merecer uma apreciação diferente. Pois, há muitos acontecimentos da história que foram positivos no passado (naquele contexto) e que hoje estão sendo vistos como negativos (no contexto actual). Isso também está a acontecer no sentido inverso.

 

As Nações bem-aventuradas são aquelas que souberam cuidar bem da sua história e fazer uma avaliação objectiva e realista, sem caírem no revanchismo ou na desforra, que conduzem naturalmente à destruição dos símbolos históricos e das suas figuras eminentes. A China, felizmente, ergueu-se de uma história conturbada, da Revolução Cultural, sem, no entanto, cair no erro de destruir os seus símbolos, o seu património cultural, a sua memória colectiva, e sobretudo, a figura do Mao Tsé-Tung, que conduziu a Revolução Chinesa, que triunfou em 1949.


Existe um ditado popular que diz: “a caridade começa no lar.” Na minha língua Mbunda temos um outro aforismo que diz: “Kavanzhi ka Mufuko, Vanyoko ambe vavi, vali muvuhutu, kethi uva shaule.” Literalmente, em Português significa que: “Na velhice ou na pobreza não devemos desprezar a nossa mãe, não obstante o seu estado físico.”


Isso para dizer que, a nossa história e a nossa grandeza derivam dos nossos antepassados, cuja sabedoria e memória colectiva foram-nos transmitidas através de gerações sucessivas. Uma Nação digna, sábia e forte, que tem rumo, deve saber preservar e valorizar a sua história e os seus protagonistas. Neste âmbito, a UNITA tem sido feliz na valorização da sua história e da figura do seu Presidente Fundador, Jonas Malheiro Savimbi.


Note-se que, a história permanece no tempo e no espaço, em contextos diferentes, com visões e acepções distintas sobre a mesma matéria. O mal consiste em possuirmos uma visão curta ou uma memória de grilo assente nos interesses mesquinhos, que são geralmente influenciados por atitudes egoístas, revanchistas ou do delírio de grandeza, que desvirtuam a clarividência, a equidade, a honestidade e o espirito misericordioso.


Logo, trazer o JES a esta abordagem é muito arriscado porque isso é capaz de embocar- se nas interpretações abstratas. Repare que, a sociedade angolana sofre do «trauma da guerra» que as vezes nos impede ver as coisas com clareza e ter a virtude de buscar a razão e saber perdoar. Deste modo, para perceber a dimensão do JES com vista a fazer o julgamento justo e equitativo, requer percorrer o seu longo Consulado de 38 anos – de 1979 –2017, durante um período mais conturbado do nosso País.


Nesta base, os factos estão lá, bem patentes, por exemplo: O Estado Angolano e as suas Instituições Públicas foram erguidas por JES. O MPLA que existe hoje foi inspirado e construído por JES. Uma boa parte dos quados superiores, médios e de base que existem em Angola foram formados no tempo do JES. Os três Órgãos de Soberania do Estado foram sustentadas por JES em plena guerra civil. O GURN foi a Obra do JES e do Jonas Malheiro Savimbi. O imponente Novo Edifício da Assembleia Nacional foi contruído por JES. A Cidade moderna de Talatona foi a Obra do JES. A Via Expressa de Bem Fica a Cacuaco foi construída por JES. A modernização da TPA e as suas infraestruturas foram feitas por JES.

 

As FAA e a Polícia Nacional foram formadas por JES e Jonas Malheiro Savimbi. Os Serviços de Segurança e de Inteligência foram formados por JES. Os Acordos de Paz do Bicesse e de Lusaka foram alcançados entre JES e Jonas Malheiro Savimbi. O Memorando do Luena (2002) foi celebrado entre JES e Paulo Lukamba Gato, Secretário-Geral da UNITA. A abertura à China e a construção das infraestruturas (estradas principais) foram feitas por JES. A reabilitação do Porto do Lobito, do Porto de Luanda, do Porto de Moçâmedes, do CFB, do CFM e do CFL foram feitas por JES. A construção das três principais barragens hidroelétricas de Cambambe, de Laúca e de Caculo Cabaça foram as Obras do JES.


Como não bastasse, o Novo Aeroporto Internacional do Dr. António Agostinho Neto foi planificado e construído por JES com a linha de crédito da China. O Porto e o Terminal Oceânico da Barra do Dande foram Projectos planificados e posto na prática por JES. Os Hospitais Gerais e outros Estabelecimentos de Saúde foram planificados e construídos por JES, com a linha de crédito da China. As Universidades Públicas instaladas nas Províncias foram as Obras do JES. As Centralidades construídas no País foram as Obras do JES. As Refinarias de Cabinda, do Soyo, de Luanda e do Lobito foram as Obras planificadas e financiadas por JES. Aliás, foi o JES que impulsionou e dinamizou a indústria petrolífera, que é a fonte principal do rendimento nacional.


Finalmente, as grandes pontes modernas sobre o Rio Catumbela, do Barra do Cuanza e de Cabala sobre o Rio Cuanza na estrada entre Catete-Muxima foram construídas por JES.


No campo diplomático, foi o JES que encetou a iniciativa diplomática de buscar a Paz nos Grandes Lagos. Ele dedicou-se afincadamente à busca da Paz nos Grandes Lagos. Luanda tinha sido transformada num eixo de convergência da diplomacia africana e cada semana sempre havia um Chefe de Estado, um Chefe do Governo ou um Diplomata Africano que era recebido por JES na Cidade Alta, levando consigo um Saco Azul. O JES deslocava muito pouco ao Exterior do País. Ele era alérgico ao turismo político que assistimos agora. JES conduzia as démarches diplomáticas a partir de Luanda e era altamente respeitado. O defeito do JES era de não conhecer o país; não andava pelas províncias; era difícil pernoitar fora de Luanda.


Presidente José Eduardo dos Santos foi um grande estadista, da classe burguesa, carismático, elegante, aprumado e atraente, cobiçado pelas mulheres casadas e solteiras, da classe alta. Ele tinha uma vida aristocrática e não sabia falar nenhuma língua nativa africana. Aliás, ele combateu ferozmente as línguas e as culturas africanas bantu. Ele foi um grande lusófilo. O JES foi o homem bastante discreto, introvertido, frio e insensível. Aliás, ele foi um homem de carácter muito forte, difícil de discernir o que andava na cabeça dele. Mesmo diante as críticas frontais dos seus adversários políticos, o JES mantinha-se em silêncio e tranquilo, agindo subtilmente.


O JES tinha as qualidades do Leopardo: rugia muito pouco; não espantava a caça; mantinha-se sempre à espreita; atacava brutal e silenciosamente quando a presa estiver dentro do seu alcance. Ele agia como Gato: sabia medir a distância antes de pular para o outro lado do muro. Foi uma personalidade de convicções fortes, sectário, autoritário e se apoiava muito no nepotismo, no partidarismo e na concentração dos poderes. Ele adorava o culto de personalidade e o tráfico de influências. JES cometeu o massacre do Monte Sumi, contra os fieis da Igreja, nos arredores da Cidade do Huambo. O João Lourenço, por sua vez, cometeu o massacre contra as populações indefesas da Vila de Canfunfo, na Lunda Norte.


Enfim, todos sabemos que o regime longevo do JES foi caracterizado pela corrupção institucionalizada, impune, galopante e generalizada, pilhando o Erário Público a torto e a direito. JES enriqueceu a sua família, o MPLA e as famílias destacadas do seu Partido. JES apostou-se no capitalismo selvagem para o enriquecimento rápido e ilícito da nomenclatura do MPLA. O MPLA tornou-se o Partido mais rico e mais corrupto da África. Por esta via, o JES criou uma classe capitalista implacável, insaciável, partidarizada e aburguesada. Esta classe oligárquica está agora no Poder; está a fazer o pior do que o seu mentor – JES. A verdade tem que ser dita.


Paradoxalmente, no tempo do JES, havia divisas em abundância no mercado angolano. Na época, desabrochava-se gradualmente uma «classe média» que tinha acesso aos créditos bancários. Os salários da função pública tinham um certo poder de compra. Isso permitia aos cidadãos comuns, dos bairros periféricos, fazer pequenas poupanças e construir as suas casas e vivendas; a cesta básica tinha o valor acessível; o mercado interno começou a vibrar; os pequenos negócios começaram a emergir nos bairros e nos mercados; a agricultura e as zonas rurais ficaram totalmente esquecidas; não se reabilitou os parques industriais e as minas de Cassinga; os diamantes entraram na desordem e na pilhagem; apostou-se na importação de bens de consumo; as comissões chorudas estavam em voga; registou-se a fuga de capitais em massa para os paraísos fiscais; o mercado angolano ficou dominando pela China.


Importa realçar que, durante o boom petrolífero não se investiu na agricultura e no desenvolvimento rural; desperdiçou as avultadas receitas petrolíferas. Porém, a inflação estava baixa; a oscilação cambial do Kwanza estava sob controlo restrito do BNA. Naquela altura a nota de 100 dólar norte-americano equivalia entre 9.000 mil e 10.000 mil Kwanzas. Hoje, a nota de 100-USD equivale 83.200 mil Kwanzas.


Enfim, tudo desabou. Este é o «legado real» do nosso Estadista José Eduardo dos Santos. Apenas, pergunto-me, vendo por este quadro, quem atreve-se desmantelar esta gigantesca e controversa Obra do JES?


Em suma, não é a minha intenção fazer a comparação entre o saudoso José Eduardo dos Santos e João Manuel Gonçalves Lourenço, porque a situação actual do país fala por si. O que é pertinente é de que, o JES deve ser julgado dentro deste contexto, entre os aspectos positivos e aspectos negativos do seu Consulado. O que é inaceitável, como Nação, é alguém usurpar o que é alheio e fazer disso arma de arremesso para a promoção pessoal.


O Jesus Cristo afirmava que: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” No ponto de vista moral e ético um «estadista virtuoso» deve ser honesto, ter o direito de chamar a si aquilo que lhe pertence. No entanto, é injusto e condenável apagar ou usurpar as Obras de outrem.

Luanda, 27 de Novembro de 2023.