Luanda - Angola assinala hoje os 47 anos dos acontecimentos do 27 de Maio de 1977, numa altura em que existem dúvidas quanto à credibilidade do processo de identificação das ossadas das vítimas daquilo que se chegou a chamar de purga. Num vídeo divulgado nesta segunda-feira, a M27, Associação Memória 27 de Maio, que junta órfãos das vítimas,acusou de "falta de transparência" a CIVICOP, a Comissão angolana para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos.

Fonte: RFI

 

A M27 pede “verdade e transparência” à CIVICOP, denunciando a falta de “meios técnicos para identificar ADN recolhidos a partir de ossos” e, por isso, fala em "erros grosseiros". A associação de órfãos também denuncia a “falta transparência, tanto na edificação das valas comuns como a recolha e análise de provas genéticas, bem como ao apuramento das causas da morte”, assim como a “falta de cuidado com que as ossadas são recolhidas”, aludindo a imagens de uma reportagem difundida em Março pela Televisão Pública de Angola (TPA).

Luísa Pombal que integra o colectivo M27 refere que desde essas denúncias sobre essa reportagem que foi qualificada de "propaganda", nada evoluiu. "Não aconteceu nada de diferente. A Comissão (CIVICOP) segue fazendo as coisas como decidiu fazer, sem transparência, sem envolvimento das famílias. O que sabemos é que as famílias continuam a ser convocadas através de slogans na TPA a serem convocadas para comparecerem ao laboratório, fazer os designados testes de ADN e pronto, segue tudo igual", constata esta familiar de vítima do 27 de Maio.

"Passaram-se efectivamente os 47 anos que assinalamos, mas há coisas sobre as quais parece que não passou tempo nenhum, porque não temos informações, não temos notícias. As que temos são frágeis, não dizem o que nós precisamos e sabemos que deve ser dito, como é o caso da verdade", diz Luísa Pombal. "Falamos, escrevemos mensagens, e-mails e cartas e tudo mais enquanto analisávamos uma série de aspectos que gostaríamos de ver assumidos e tratados pela Comissão (CIVICOP). Mas percebemos que ficava tudo em letra morta. Então não adianta, não produz nada", lamenta.

Neste sentido, Luísa Pombal apela para que seja estabelecida a verdade sobre as circunstâncias da morte das vítimas do 27 de Maio. "O apelo é que é o que temos feito em termos de grupo, em termos de associação, em termos de vítimas: a verdade, a verdade acima de tudo. Portanto, todos estes atos de entrega de ossadas, de certificados de óbito, de slogans na TPA, funerais que a gente tem visto. Falta tudo. Falta a verdade, porque, conforme tenho dito, vamos receber ossadas no vazio. Como é que se entregam ossadas 47 anos depois, sem o relato histórico? O que é que aconteceu? A gente vai receber as ossadas e pronto, Está feito, Está resolvido. Não, de maneira alguma. Portanto, o apelo a este é verdade. Acima de tudo, o relato histórico deve acompanhar estas ossadas, porque senão é um vazio enorme. Continua tudo na mesma", conclui.


Associação 27 de Maio também lança críticas

Também para assinalar a data do 27 de Maio, a Associação 27 de Maio que reúne sobreviventes dos acontecimentos, fez igualmente uma comunicação. Neste domingo na sua página internet, esta entidade baseada em Lisboa faz um balanço amargo dos 47 anos que passaram.

Ao evocar nomeadamente a linha seguida pelo actual Presidente da República, a associação recorda que ele "não se coibiu de opinar sobre a natureza do “27 de Maio de 1977”, declarando, na 2ª quinzena de Maio de 2003 para o Jornal “EME”, esta relíquia absurda; “Há quem prefira manter-se na situação cómoda de vítima do regime por ter sido preso e acusado de fraccionismo (...). é difícil compreender como é que um bom número de indivíduos, submetidos enquanto presos, ao vexame e à tortura, as ignomínias às quais João Lourenço considera “excessos”, podem viver numa situação cómoda".

Quanto ao pedido de desculpas feito em 2021 pelo Presidente angolano pelo sucedido, esta entidade nota que "fê-lo apenas em nome do Estado Angolano, e não em nome do MPLA, a organização de que também é presidente e foi a mesma que consentiu e promoveu os 'excessos'".

Referindo-se ao processo de resgate e identificação dos restos mortais de vítimas do 27 de Maio, a associação qualifica o processo de "trapalhice" e após recordar que Angola não dispõe de meios logísticos para efectuar identificações, refere que "a equipa forense Portuguesa, liderada pelo Professor Duarte Nuno Vieira, que se deslocou a convite à República de Angola, procedeu à identificação genética individual, e não encontrou qualquer correspondência entre os citados indivíduos e os respectivos familiares dadores". O colectivo sublinha que inclusivamente algumas das ossadas "que foram entregues para análise com reconhecidas identidades, pertenciam a pessoas que não tinham morrido em 1977, 78 ou 79 e além disso duas delas tão pouco eram adultas".

"Por este andar, não vamos lá. As autoridades angolanas decididamente preferem resguardar os seus prevaricadores, conceder-lhes imunidade vitalícia ou porque são compadres, sócios, parentes próximos ou até afastados, para despeito das famílias que viram os seus familiares desaparecidos e dificilmente virão um dia a saber, como, por quem e porquê", diz a Associação 27 de Maio antes de concluir que "também a história que vai ser contada às crianças nas escolas, ficará incompleta, isto para não dizer propositadamente viciada".

Oposição mostra-se também crítica

O tom é também de crítica do lado da Unita, principal partido de oposição, que se desvinculou da CIVICOP em Dezembro depois de serem exibidas na televisão pública imagens de escavações de sepulturas na Jamba, antigo território desta formação. Após expressar nas redes sociais, “respeito e tristeza” pelas vítimas, o Presidente da Unita, Adalberto da Costa Júnior, acusou a CIVICOP de “violar os princípios que estiveram na sua origem”.

No mesmo sentido, o Bloco Democrático (BD), sem representação parlamentar, vincou a importância “de não esquecer os responsáveis por essas atrocidades, muitos dos quais permanecem vivos e sem qualquer arrependimento público”.

Criada em 2019 pelo actual Presidente angolano, João Lourenço, a CIVICOP, tem por missão esclarecer e sarar as feridas provocadas pelos conflitos políticos que ocorreram em Angola entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2022, designadamente os acontecimentos ligados à alegada tentativa de golpe de 27 de Maio de 1977.

Dois anos depois da sua criação, esta entidade pediu desculpa às famílias das vítimas em nome do Estado angolano, entregou corpos e certidões de óbito. A CIVICOP também realizou cerimónias públicas de homenagem às pessoas que foram raptadas e mortas durante os massacres de Maio de 1977.

Durante esse período marcado por divisões internas no seio do MPLA, no poder desde a independência em 1975, estima-se que cerca de 30 mil pessoas foram presas, torturadas e mortas, no âmbito do que ficou conhecido como tendo sido uma “purga” dentro do partido.