Luanda - Estando a celebrar mais um dia de África, não é demais olhar para a Angola africana e refletirmos seriamente sobre o caminho que devemos percorrer para que nos conectemos aos nossos valores africanos desconstruídos pela política colonial do Assimilado: a negação dos valores dos autóctones ou a anulação do nosso ser na sua completude.

Fonte: Club-k.net

Após as independências, os demais países africanos optaram pelo regresso imediato e incondicional à autenticidade africana. Nesses países ninguém se envergonha de ser africano de carne e osso; esses povos defendem a africanidade com garras e dentes e mantêm as suas culturas vivas; os governantes comunicam-se com os seus governados nas suas línguas maternas e usam, no dia-a-dia, vestes africanas; comem com gosto os “kitutis” da terra; o sistema de ensino, até à 4.ª classe, em alguns casos, é feito na língua local, enfim. Assimilar sem ser assimilado ou aculturar-se sem se desaculturar. É um pouco disso que está a faltar entre os angolanos. Nós Fazemos gosto em sermos confundidos com os europeus. Tanto mais que, nas cerimónias públicas, ostentamos fatos e gravatas à moda ocidental; o buffet do dia da independência não tem nada que ver com a gastronomia africana – o que não falta nesses almoços é o bacalhau à Gomes de Sá com natas, ou o cozido à portuguesa, acompanhado de um bom vinho do Porto ou Alentejano – quando não é o francês Moet&Chandon; até a ornamentação do espaço é uma cópia do Brasil ou de Nova Orleães; mesmo certos locutores de rádios, apresentadores de televisão e seus repórteres forçam, desastrosamente, o sotaque lisboeta, quando o mais importante é a sintaxe. Lamentavelmente, é essa a nova Angola, a Angola independente.

Temos o dever patriótico de tomar uma posição e começarmos a caminhar nos caminhos da africanidade, de modo a se corrigir o rumo que tomámos. Os lindos discursos de mera propaganda política servem para o inglês ver. No discurso oficial, posicionamo-nos em prol de África, mas a nossa prática ou as nossas acções espelham o contrário. Devemos dar passos concretos: viver intensamente a cultura africana; sentir a África dentro de nós e defender, acima de tudo, a angolanidade. Isso, sim, é a Angola africana que devemos construir para o bem da preservação e transmissão da nossa herança cultural às novas gerações.

O actual governo ainda vai a tempo de olhar para a Cultura como prioridade nas políticas de governação. Por exemplo, não faz sentido, na Angola independente, continuarmos a aportuguesar os nomes dos nossos soberanos que lutaram contra o colonialismo Português, uma vez que as línguas bantu têm um alfabeto próprio e regras apropriadas. Desprezar o que é nosso e procurar eternizar o que é dos outros ou dos colonos, é incompreensível e inadmissível.

É preciso que se faça uma verdadeira "revolução cultural". E isto só é possível com o engajamento de todos, a começar pelos governantes.

Não podemos continuar a ser africanos apenas pela aparência, como se diz: africanos "dum coro". É preciso ser e parecer ser africanos.

Chega das “finúrias ou aberrações” de uma identidade que não nos pertence. Por aquilo que se sabe, os nossos governantes são das etnias Bakongo, Ambundu, Ovimbundu, Ibinda, Cokwe, Kaluvale, Lucazi, Mbundas, Ovambo, Ovangangela, Ovanyaneka, Ovaherero, etc. Se eles são realmente nossos, por que não respeitam e valorizam o nosso rico mosaico cultural?

Viva África!

Voltarei...

Huambo, 25 de Maio de 2024.
Gerson Prata