Luanda - A decisão da China de exigir certificados aos influenciadores reacende o debate sobre a regulamentação do uso das redes sociais. O que se passa, afinal? Vejamos.

Fonte: Club-k.net

As redes sociais moldaram significativamente o mundo, sobretudo a relação do homem com tudo o que o rodeia. A possibilidade de nos comunicarmos à distância e em tempo real, de conhecermos pessoas óptimas, de aprendermos, de fazermos denúncias públicas; a união popular que, através da pressão, chega a fazer com que leis sejam cumpridas e regimes ditatoriais sejam derrubados — como se viu nos casos do Nepal e de Madagáscar —; a possibilidade de os nossos descendentes estudarem o nosso presente com mais clareza (apesar dos pesares); oportunidades de negócio, chances de vencer na vida, etc., são algumas das maravilhas que a internet nos concede.


Qual é, então, a razão do debate actual em torno da existência das redes sociais e da regulamentação do seu uso? São os malefícios que acompanham esses benefícios, muitos dos quais passam despercebidos aos coitados utilizadores viciados. Ansiedade, dificuldades de atenção, sono prejudicado, mal-estar, desinformação, alienação, estupidificação e, consequentemente, entraves ao desenvolvimento intelectual e social são alguns deles.


O foco aqui, contudo, é o impacto negativo no conhecimento, tendo como alvo os falsos mestres que transmitem como verdades ideias produzidas na ignorância, na emoção e na desonestidade.
“As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam num bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas agora têm o mesmo direito de falar que um prémio Nobel. É a invasão dos imbecis.”
— Umberto Eco (1932–2016)

Partindo do pressuposto de que um péssimo professor prejudica mais a sociedade do que um péssimo médico, é sensato afirmar que um dos maiores perigos reside nos influenciadores da intelectualidade barata — os chamados especialistas da internet. Estes intelectuais de beira, sob a «ilusão do novato» — isto é, a sensação de que algo começa com eles ao descobri-lo — e sob o delírio de serem os únicos inteligentes à face da terra, presos em bolhas alimentadas por algoritmos e elogios de pessoas ingénuas, acabam por conduzir ao erro muita gente inocente que escuta os seus achismos, cozinhados nas suas ignorâncias. Coitados.


Então, como identificar esses falsos mestres? Têm a convicção de que só eles são portadores da verdade, estão do lado certo e possuem a receita para salvar o mundo (ou, no mínimo, um país). Consequentemente, obrigam todos a abraçar as suas ideologias — eh, muitos deles são autoritários sob o disfarce de libertadores e padecem da síndrome do salvador.

Ora, coisas como estudos rigorosos, conflito de ideias e qualidade do conhecimento são factores cruciais para o florescimento humano. Vejamos.


a) Estudos rigorosos — tendo em conta a complexidade do mundo e as limitações humanas, estudos profundos são necessários para chegarmos, pelo menos, o mais próximo possível da verdade. Isso exige esforço, método, rigor, tempo e paciência. Parafraseando Descartes, considerar todos estes elementos é, no fundo, uma confissão de humildade.


b) Conflito de ideias — com base nas contribuições de Sócrates e de Hegel sobre a dialéctica, podemos compreender a importância da contradição. Naturalmente, só há bons resultados quando as duas ideias em conflito são boas — verificáveis ou, pelo menos, plausíveis. Só é possível obter uma boa ideia se se considerarem todos os elementos acima citados, sem esquecer a humildade, um dos mais essenciais.


c) Qualidade do conhecimento — estudos de Oxford levantam a hipótese de que não apenas os excessos de estímulos causam a chamada “podridão cerebral” — deterioração do estado mental ou intelectual —, mas também a qualidade da informação consumida. Conteúdos online de baixa qualidade, tomando emprestadas as palavras de Andreana Benitez, podem não apenas distorcer a percepção da realidade, como também prejudicar a saúde mental.


Esses sábios da visibilidade e do ruído falham miseravelmente em tudo isso porque têm uma má compreensão da democracia — segundo a qual a ignorância deles seria tão válida quanto o conhecimento de especialistas formados na área, como criticou Isaac Asimov — e porque estudar, como lembrou Luiz Pondé, demanda trabalho.


As homenagens ao kudurista Nagrelha após a sua morte suscitaram um debate relevante sobre referências sociais. Apesar dos exageros de quem crê que todo o mundo tem de ser chato (intelectual), é, sim, sensata a preocupação com as referências, uma vez que estas moldam comportamentos e crenças. E quanto maior a popularidade de um idiota que se julga culto, maior o número de pessoas ingénuas conduzidas ao erro — como vimos no caso da Covid-19.
Somos, então, contra a liberdade de pensamento e de opinião? Ou seremos cientificistas, que creem que a realidade se reduz apenas ao que pode ser explicado pela ciência?


Nenhum dos dois. O problema consiste numa preocupação já levantada por Platão: a confusão entre opinião (doxa) e conhecimento (episteme). Não é mau ter ideias; pelo contrário. O problema surge quando o indivíduo cria uma hipótese, não a estuda a fundo e a transmite a ouvintes inocentes como verdade. E, como já demonstrou o Dr. Benjamin Wilker, se ideias têm consequências, más ideias têm más consequências. Quando não são os falsos mestres, são os seus alunos — que não amadurecem e absorvem essas estupidezes — que se tornam pais, professores, jornalistas e, pior ainda, políticos, prejudicando a humanidade com os seus delírios. Os desastres humanitários do século XX são frutos disso.


Importa, contudo, esclarecer algo: não se trata apenas de falta de conhecimento. É possível encontrar pessoas eruditas e estúpidas ao mesmo tempo. Isso não é novidade. Sócrates já alertava para o risco de se pensar que uma mente cheia substitui uma mente bem formada. Leandro Karnal, a título de exemplo, reconheceu humildemente que tem mais informações do que Santo Agostinho e, ainda assim, Santo Agostinho foi mais sábio do que ele. Portanto, não se trata apenas de ignorância.


Continuando: por que razão, então, tanta gente é contra a regulamentação — defendida sobretudo pelos governos?

A resposta é simples e plausível: o risco de censura. É inegável que, entre as principais razões pelas quais os governos a procuram, está a eliminação ou, no mínimo, a mitigação do poder que as redes sociais conferem aos povos — os casos do Nepal e de Madagáscar espelham bem isso. O poder é necessário para a efectivação das leis e para a garantia de interesses, como bem argumentou Ferdinand Lassalle — interesses esses muitas vezes conflitantes.


Pondé afirma que, de facto, essa regulamentação pode chegar a ser censura. O controlo do uso das redes sociais pode ser utilizado tanto para o bem como para o mal, sobretudo em países com regimes autoritários. Torna-se justo, portanto, não apenas discordar dessa ideia, mas também não ficar aquém disso; pois o grau em que os nossos interesses — enquanto meros cidadãos — serão considerados será proporcional à força que demonstrarmos. Rudolf Ihering dar-me-ia razão aqui.
Qual é, então, a solução?

Não sei. Eh, é complicado, sim. Mas assim é a vida, não é?
O que se pode afirmar, contudo, é o seguinte: a internet é uma ferramenta poderosa e repleta de benefícios, mas não está isenta de problemas que precisam de ser enfrentados antes que causem danos irreversíveis. É necessário agir com prudência, sobretudo tendo em conta o elevado risco de censura. Como ressalta Karnal, para terminar, a internet deve ser usada como um auxílio à formação — nunca como o seu substituto.

Referências
1. Caetano, E. (2025, 28 de outubro). China aprova norma que obriga influenciadores a terem diploma. Jovem Pan. https://jovempan.com.br/opiniao- jovem-pan/comentaristas/eliseu-caetano/liberdade-de-expressao-em-xeque- china-aprova-norma-que-obriga-influenciadores-a-terem-diploma.html
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3. Eco, U. (2015, 11 de junho). I social media danno diritto di parola a legioni di imbecilli ... È l’invasione degli imbecilli. La Stampa.
4. Euronews. (2023, 27 de junho). Finlândia apresenta a primeira ilha turística de desintoxicação digital do mundo. https://pt.euronews.com/viagens/2023/06/27/finlandia-apresenta-a-primeira-ilha- turistica-de-desintoxicacao-digital-do-mundo
5. Euronews. (2025, 28 de maio). A “podridão cerebral” é real? Especialistas avaliam o impacto do tempo excessivo de ecrã nos nossos cérebros. https://pt.euronews.com/next/2025/05/28/a-podridao-cerebral-e-real- especialistas-avaliam-o-impacto-do-tempo-excessivo-de-ecra-nos-
6. g1 – Redação. (2025, 10 de setembro). Ostentação de políticos, população pobre e redes bloqueadas: entenda a fúria da 'Geração Z' que levou o Nepal ao caos. g1. https://www.bbc.com/portuguese/articles/crme73m7ypxo
7. Hegel, G. W. F. (2012). Ciência da Lógica (E. A. Carvalho, Trad.). São Paulo: Editora Unesp.
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9. Karnal, L. (2025, 15 de outubro). Tecnologia, excesso de informação e sabedoria
[Palestra]. Rec’n’Play, Recife, Brasil. https://www.hojeemdia.com.br/educacao/leandro-karnal-tecnologia-e- ferramenta-n-o-garantia-de-educac-o-1.1088765?utm_source=chatgpt.com
10. Platão. (2016). Fedro (M. C. Gomes dos Reis, Trad.; apresentação e notas; prelúdio de J. H. Nichols Jr.). Penguin Companhia das Letras.
11. Platão. (2016). A República (M. C. Gomes dos Reis, Trad.; apresentação e notas). Penguin Companhia das Letras.
12. Pondé, L. (2023). As pessoas apoiam a censura nas redes sociais? [Entrevista]. Jornalismo TV Cultura. YouTube.

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13. Pondé, L. F. (2014). Guia politicamente incorreto da filosofia. São Paulo: Planeta.
14. Pondé, L. F. (2016). Filosofia para corajosos: Ensaios e reflexões. São Paulo: Planeta.
15. Wilker, B. (2020). 10 livros que estragaram o mundo. Rio de Janeiro: Record.