Luanda - No ponto de vista cientifico, a História é o ramo do conhecimento que se ocupa do estudo do passado, da sua análise e interpretação. Ou seja, a História é uma narração crítica e pormenorizada de factos sociais, políticos, económicos, militares, culturais ou religiosos, que fazem parte do passado de um ou mais países ou povos.
Fonte: Club-k.net
Nesta lógica, a História não serve apenas de referência, mas sim, de fonte de conhecimento, que nos permite analisar e interpretar os fenómenos do presente e do futuro. Repare que, o ser humano, na sua conduta, tem virtudes (raciocínio) e características (faculdades da alma) especificas, das quais lhe distingue de outras criaturas, e que determinam a sua maneira de ser, de estar e de pensar. Note que, a dignidade humana, a compaixão, o amor, aauto-estima, a solidariedade, a grandeza, a autodefesa, o sentido de vida, o egoísmo, a prosperidade e oespíritocrítico de ver as coisas, são caracteristicas comuns inerentes da pessoa humana. O grau da sua manifestação é variável em cada sujeito, dependendo da personalidade e da natureza da pessoa. O meio ambiente e o regime politico envolvente influenciam o comportamento das pessoas, e em certa medida, inibe determinadas características acima referidas.
Não obstante, o ser humano não altera substancialmente as suas características comuns, independentemente das circunstâncias ou das épocas em que isso ocorre. Portanto, é fundamental estar atento aos factos históricos para apreender com o passado e prevenir- se de situações análogas ocorridas no passado e que podem reflectir-se no presente ou no futuro. Como diz um ditado: mais vale prevenir que remediar.
Aliás, a espécie humana alcançou os níveis elevados de civilização devido ao espirito crítico de analisar e de interpretar objectivamente os factos da história universal, tirando proveito dos elementos positivos, e proceder à correcção, à transformação, à inovação e à descoberta de novos conhecimentos e técnicas mais avançadas.
Este processo de aprendizagem e de transformações contínuas exige a criação de instituições sólidas, fortes e funcionais, assente no sistema politico equilibrado, capaz de sustentar a pluralidade politica efectiva e a alternância politico-partidária no exercício do poder público. Para o efeito, é imperativo que haja concorrência efectiva e freios, que se traduzirem em mecanismos de fiscalização, de controlo, de supervisão, de prestação de contas e de responsabilização.
Quando uma Nação for incapaz de estabelecer o equilíbrio politico-partidário corre o risco de criar os alicerces fortes do enraizamento de uma dinastia partidária, comsustentáculode se transformar numa autocracia hegemónica. Repare que, a hegemonia politica cria condições propícias do surgimento de uma ditadura. A eternização do poder público sempre se emboca na decadência do sistema económico-financeiro, que mergulha o país na crise e no desespero profundo. Foi assim em Portugal e na Alemanha, que favoreceu o surgimento do Dr. António de Oliveira Salazar e do Adolfo Hitler, respectivamente. Os seus surgimentos na cena politica,sucedido pela Guerra Mundial II, eram vistos pelos cidadãos portugueses e alemães, arruinados pelas crises profundas do sistema económico-financeiro, como sendo verdadeiros salvadores, Messias e reformadores sociais.
Neste ambiente de «euforia», do inicio do novo consulado, as elites do país perdem a sua visão, a clarividência e o espírito crítico de analisar e de perceber as coisas. Deixando-se cair na manipulação e na instrumentalização politica do poder. O povo é empurrado ao estado de unanimidade inconsciente, arrastando-se ao incerto, com a consequência de entregar tudo a uma pessoa, que vai sentir-se todo-poderoso, e desfazer todos os instrumentos e mecanismos democráticos, que sustentam o equilíbrio politico, económico e financeiro.
As mudanças dos regimes políticos, nos momentos da crise profunda, têm que ser encaradas com muita prudência e realismo. Pois, tanto podem conduzir-se à alteração substancial e absoluta do sistema politico. Isso aconteceu na União Soviética, com a introdução da Perestroika e da Glasnost, pelo Presidente Mikhail Gorbachev, que resultou no desmoronamento do Império Soviético, e no fim do sistema socialista, do partido único. Ou, podem mergulhar-se numa ditadura feroz, como aconteceu em Portugal, durante a ditadura do António de Oliveira Salazar. Ou, na Alemanha, onde o Adolfo Hitler surgiu de uma forma dramática, apoderou-se de todos os poderes do Estado, desarticulou as instituições democráticas, baniu todos os partidos políticos, semeou o terror, e desencadeou uma Guerra Mundial sem precedente, na História da Humanidade.
Se olhar bem aos acontecimentos actuais nos Estados Unidos da América, verás que o comportamento do Donald Trump assemelha-se à postura do Adolfo Hitler. Se os EUA não tivesse uma democracia madura, com instituições sólidas e fortes, assentes nos mecanismos de separação efectiva de poderes, o Trump teria apoderado-se de todos os poderes, teria desmantelado as instituições democráticas e teria ameaçado a segurança mundial. Mesmo assim, o mundo se encontra numa situação instável e imprevisível, com a transformação do mercado internacional numa autêntica arena de disputas violentas, entre as potências mundiais, em busca de interesses estratégicos e socioeconómicos.
Em busca de interesses económicos e geoestratégicos, as potências mundiais, não darão a prioridade aos valores éticos, morais e democráticos, como fundamentos da cooperação económica e das relações internacionais com os países em desenvolvimento. Nesta lógica, será mais facil erguer e consolidar a hegemonia politica em muitos países do terceiro mundo, sobretudo em África, na Asia e na América Latina.
Angola, pelos factos históricos adversos, pela cultura exclusivista, pela iliteracia politica acentuada na sociedade e pela mentalidade sectária incutida nas mentes das elites intelectuais, exige de todos nós muita ponderação e cautela. Por isso, os dois cenários de mudanças, acima referidos, são abertos e prováveis: a) conduzir-se a uma sociedade livre, justa, igual, aberta e equilibrada, como foi o caso do Mikhail Gorbachev, na União Soviética; b) ou, consolidar o actual regime hegemónico e centralizador dos poderespolíticos, económicos e financeiros, como tiveram acontecido em Portugal, na era do António de Oliveira Salazar.
Aliás, o inquilino actual da Cidade Alta, nos seus pronunciamentos, ainda não fez nenhuma menção à «revisão constitucional», no sentido de proceder à redistribuição equitativa e descentralizada dos poderes; à despartidarização e democratização das instituições públicas; e a afirmação da cidadania, como sendo a condição primária para a realização individual e colectiva de todos os angolanos, sem discriminação alguma. Pelo contrário, nota-se nitidamente a vontade expressa de manter inalterável o actual status quo, com vista a robustecer os poderes executivos e partidários, que permitam sustentar a hegemonia partidária, nesta fase de transição de liderança no seio do partido governante.
A meu ver, a estratégia do poder actual visa somente liberalizar o sector económico- financeiro, atrair os investimentos estrangeiros, credibilizar o regime, afirmar o poder e erguer uma nova classe poderosa de capitalistas no seio do partido governante, com algumas adaptações de forma. Deixando intacta a estrutura do poder politico, assente nos mecanismos do partido-estado. Todavia, tudo dependerá da dinâmica interna do país e da conjuntura internacional, que poderão influenciar o curso dos acontecimentos.
Mesmo na União Soviética, na era (1988-1991) do Mikhail Gorbachev, no inicio das suas reformas, não visava o desmantelamento total do Império Soviético e do sistema comunista. Mas sim, tinha como objectivo fundamental abrir-se ao Ocidente como forma de atrair a tecnologia avançada e os investimentos massivos dos países capitalistas, com vista a superar o estado de decadência em que se encontrava a economia do Império. Mas a dinâmica interna daRússiae da Europa do Leste impulsionou mudanças profundas dentro do Bloco do Leste e dos Estados Satélites em África e noutras partes do Mundo. Esta corrente de mudanças, occoridas no Bloco Soviético, teve igualmente repercussões profundas em Angola, que era o «Bastião Firme» da Expansão Soviética em África e no Mundo.
Importa notar que, as mudanças de grande envergadura que ocorreram no Mundo as suas matrizes não correspondiam as suas dimensões. A abertura ao mundo capitalista tem consequências inevitáveis da introdução e da afirmação da civilização ocidental, assente no capitalismo, caracterizado pela grande produção, pelo investimento de grande massa de bens, pela propriedade individual dos capitais, e por um mercado livre e competitivo.
Noutras palavras, o capitalismo tem o potencial não somente de abrir as mentes dos cidadãos, mas, sobretudo de incentivar o gosto de viver bem e o espírito de liberdade, de igualdade e de justiça social. Por outro lado, o capitalismo é o regime que sujeita o poder politico à dependência dos detentores de capitais, os quais influenciam a politica do Estado, em grande escala.
Nesta senda, a China é o exemplo concreto, na qual os efeitos da abertura ao mundo capitalista se fazem sentir com maior veemência dentro da sociedade chinesa, ameaçando os alicerces do sistema socialista do partido único. Logo, Angola poderá trilhar o mesmo caminho, se quiser. O perigo será de tentar travar as mudanças em curso, com consequências de se transformar num vulcão activo.
Luanda, 01 de Outubro de 2018.
















