Luanda - Integra do texto de Moisés Chissano, advogado angolano e antigo tradutor de José Eduardo dos Santos, lembrando momento em comum em que o antigo estadista deu o seu melhor por Angola.

Fonte: Club-k.net

''Mentira ou verdade o nosso povo, o povo africano e os povos de todo o mundo, particularmente aqueles que lutaram contra o colonialismo e contra todas as outras formas de opressão, NÃO precisavam de passar por estas situações deveras embaraçosas.

São relatos NÃO dignos de quem um dia, ainda muito jovem, se juntou a um movimento revolucionário para ajudar a libertar o seu povo, tendo esse mesmo povo confiado em suas mãos a condução dos seus destinos por quase quatro décadas!

Se JES fez mesmo isso deveria considerar pedir desculpas à nação. Em Abril de 2002 foi a paz com a UNITA. É hora de o MPLA buscar a paz consigo próprio e é também hora de o antigo presidente de todos os angolanos fazer as pazes com todos os angolanos. Estou convicto de que também saberíamos ser magnânimos para com ele. O porto seguro de JES é em Angola, NÃO no estrangeiro.


Os nossos pais também erram. O homem que tem a coragem de se retratar torna-se maior do que era antes e a sua coragem se transformará em HOMBRIDADE!

 

A ser verdade o que se alega dele em termos de gestão danosa do país (não podemos nos esquecer do princípio da presunção da inocência), o ex-Pai Grande deverá o mais breve possível decidir entre pedir desculpas, fazer as pazes com o seu povo e viver aqui até ao dia do chamamento final e continuar no exterior a ver o chão a fugir-lhe juntamente com as fortunas que nunca lhe pertenceram e que, por muito que insista em mantê-las, não as poderá levar para a sua derradeira morada.


O apelo que lhe lanço a partir daqui Exmo. Senhor Eng. José Eduardo dos Santos vai no sentido, antes de mais, de lhe recordar aquilo que o senhor mostrou ser quando regressou a Angola vindo do maquis, quando assumiu grandes responsabilidades no aparelho de Estado e, particularmente, quando assumiu a mais alta magistratura do nosso país em Setembro de 1979. Até Agosto de 1987 eu só o conhecia de o ver na televisão. Depois disso, quando, a seu pedido, me tornei seu intérprete de inglês e francês, passei a conhecê-lo e a lidar consigo directamente e devo dizer com toda a honestidade que adorei conhecê-lo e trabalhar para si. O senhor sempre foi uma pessoa muito educada para comigo e para com todos aqueles que consigo laboravam directa e diariamente no seu gabinete ao Futungo de Belas.


Ao traçar estas linhas estou a recordar-me dos colegas Assunção Afonso Sousa dos Anjos, então director do seu Gabinete, Elisabeth Simbrão, secretária para as Relações Exteriores, Víctor Manuel Rita da Fonseca Lima, António (Toninho) Van-Dúnem, Paixão Franco, João Madeira Torres, António Augusto Albuquerque, camarada Ita, camarada Jaqueline, e tantos outros. Noutras áreas que não a assessoria diplomática pontificavam Aldemiro Vaz da Conceição, José Patrício, José Mena Abrantes, Fernando Garcia Miala, Gilberto Veríssimo, coronel José Maria, os seus médicos pessoais, etc., etc.


Inúmeras foram as noites que todos, incluindo o senhor, perdemos em Luanda e no estrangeiro no quadro do longo processo de busca da paz para a sua e nossa pátria. Inúmeras foram as missivas que o senhor me mandava traduzir e que enviava através de seus emissários como Van-Dúnem Mbinda, Venâncio de Moura, Fernando Dias dos Santos "Nandó", Domingo Rodrigues "Kito", Fernando Faustino Muteka, entre outros governantes e altos responsáveis do partido, como os saudosos Paulo Teixeira Jorge e Paulino Pinto João, para os seus homólogos com vista a convencê-los da justeza da nossa luta contra a África do Sul do apartheid e também contra a Unita.


Todos nos lembramos de quando o senhor e a sua equipa, nós, durante anos a fio não conhecíamos hora de almoço nem hora de jantar tanto no país como no exterior quando em missão ao serviço da pátria amada. Estamos todos lembrados de quando o senhor e a sua equipa, à qual muitas vezes se juntava os chefes militares, nomeadamente o general dos generais, França "NDalu", ficavam a caminhar para a frente e para trás no seu gabinete enquanto o senhor seguia a evolução da situação de guerra nas diferentes frentes de combate até lhe informarem que a situação estava controlada e só assim nos liberava e você próprio ia encostar a cabeça numa almofada!


O senhor se recorda de quando uma vez, num encontro organizado às pressas pelo presidente Dennis Sassou Nguesso para apaziguar as nossas relações com o Zaíre de Mobutu, encontro esse realizado às 4:00 horas da manhã em Brazzaville e para o qual fez questão de levar unicamente o Víctor Lima e eu, o senhor consentiu que o presidente Mobutu lhe enxovalhasse unicamente porque queria a paz para Angola?


O senhor se lembra de quando teve, em várias ocasiões, de "ralhar" Kenneth Kaunda da Zâmbia, Sam Nujoma da Swapo, Robert Mugabe do Zimbabwe por de uma forma ou de outra estarem como que a brincar com o sofrimento do nosso povo? Fui eu que interpretei nesses encontros senhor ex-presidente da República!

 

O senhor se lembra de como deu a volta por cima internamente quando a África do Sul do apartheid, na pessoa de Pik Botha, lhe arranjou uma intriga grossa pondo o seu amigo e correligionário Pedro de Castro Van-Dúnem "Loy" contra si? Estamos lembrados disso tudo senhor ex-presidente da República.


O senhor se lembra do que duas superpotências fizeram consigo, na verdade com o povo angolano, quando depois de nos prometerem ajuda militar e de nos terem inclusive mostrado as armas naquele dia bem ensolarado, chegados a Luanda nos retiraram o tapete sem mais nem ontem? Estamos lembrados disso. O senhor se lembra do banho de água fria que tomámos em Moscovo em Outubro de 1989 numa altura em que precisávamos muito da ajuda daquele país? O senhor se lembra de quando fomos a Cuba e do porquê de nos termos deslocado àquele país seis dias antes da assinatura dos históricos Acordos de Nova Iorque? Só sacrifícios consentidos em nome deste povo que o senhor jurara defender!


O senhor se recorda de quando me pedia para comprar coisas para a menina Isabel e para a sua mana Marta entregando-me qualquer coisa como 40 ou 50 dólares americanos!

É assim que eu o conheci senhor ex-presidente da República de Angola, do meu país!


Quando fui afastado por alegadamente ser espião da CIA era essa a pessoa do presidente da República que conhecia e que deixei.


O senhor agora ex-presidente tem de compreender que custa muito às pessoas que o conheceram como um verdadeiro lutador e defensor do seu povo estarem confrontadas com as mui vergonhosas notícias em torno de si e da sua família mais próxima.


Destarte, em nome deste povo que o senhor conduziu livremente por quase 4 décadas, por favor reflicta! Se NÃO fez nada de repreensível faça por mostrar isso não obstante o ônus da prova por crimes ou irregularidades eventualmente cometidas recair sobre quem acusa.

Se não for este o caso...por favor PENITENCIE-SE enquanto é tempo!


Um forte abraço deste seu antigo funcionário que muito lhe admirava e que muito gostaria de continuar a admirá-lo."



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