Luanda - Estou de luto. Faleceu nesta quinta-feira, em Lisboa, por doença, o meu mais do que amigo e compadre António Ferreira Gonçalves, o Aleluia, um dos vultos mais notáveis do jornalismo desportivo angolano da nossa era. Acho que ele tinha acabado de celebrar 60 anos em Abril.

Fonte: Club-k.net

Já o conhecia do bairro, ele na C-8 e eu na C-6, mas as nossas vidas só se cruzaram verdadeiramente em Outubro de 1987, quando fui parar à secção desportiva do jornal de Angola, já como jornalista, no que seria um regresso, seis anos depois de lá ter saído nas vestes de revisor de página. Ia da Angop, onde era subeditor do desk desporto, para integrar a equipa do Adelino Marques de Almeida, com uma cunha do graça Campos.


O Aleluia era na prática o chefe da secção, no entanto titulada pelo Victor Silva, em acumulação com a secção nacional, vá-se lá saber porquê. E foi assim por um bom tempo. Ao contrário do que acontece noutros sítios, em que se combate os recém-admitidos, fui muito bem recebido. Tanto é assim que um mês depois deram-me logo uma viagem de serviço, para ir cobrir a inauguração do maior estádio de futebol da Guiné-Bissau, então acabado de construir pelos chineses. A viagem estava inicialmente destinada para o Leonel Libório, que Deus o tenha, mas por ele e o Adérito Quizunda terem arranjado um kizango com a polícia, acabei por ir eu no seu lugar. Diante disso, disseram que tinha entrado com feitiço. E até que se foi, ninguém conseguiu convencer o LL do contrário. Pior quando o Aleluia me fez seu sub, em detrimento de malta que lá já era mobília.


Embora parecesse um preferido do Aleluia, tínhamos algumas boas desavenças, mesmo já depois de nos termos tornado também compadres (ele é ou era padrinho de baptismo e de casamento religioso da minha única filha, a Cambumbu dos Anjos). Em certa ocasião chegamos a tirar um bilo em plena redacção. O gajo me aplicou um «wochifuri» qualquer que me valeu a derrota, eu reconheço. Prometi lhe dar um «chino», que era como eu tirava a desforra quando me partissem os cornos, mesmo contra os bandidos mais afamados do bairro, mas, como era só meu ar, acabei por lhe perdoar.


Outra malaiquice que o gajo me fez aconteceu em 1990, quando agitou no director do jornal para ser sacado da equipa que cobriria o «mundial» da Itália, quando eu já tinha visto e esperava apenas a massa para embarcar. Motivo: tinha-me recusado a substituí-lo por não ter deixado o FIAT UNO da secção também sob meu comando. Mas, eu não tinha razão, já que ele estava a jogar na prevenção, depois de uns meses antes lhe ter rebentado o carro.


Se calhar ALGO remoído, no mesmo ano ele tratou de me compensar com uma viagem do mesmo nível, o mundial de andebol feminino de Seul, na Coreia do Sul. Fomos os dois, na que seria a única missão que realizamos em conjunto. Foi memorável. Porque passamos mal, por razões gastronómicas: não conseguíamos comer, porque tudo era doce, até o pequeno-almoço americano (bife com ovos estrelados). A salvação era uma sopa instantânea, que fazíamos com a água quente do lavatório. Ao fim de 15 dias, eu tossia sangue, mas acabamos por sobreviver.


Os meus mambos com o Aleluia devem dar para um livro. Não há como conseguir contá-los todos neste espaço. Contudo, não há como não dar um cheirinho do «Balão Mágico», o ensaio dum clube de jornalistas que fazíamos em casa da minha mãe, quando calhase, mas sempre ao fim da jornada laboral. Eram encontros festivos relâmpagos à base de churrascos, cerveja e muita conversa, em que, além da «elite» que contribuía com compras do cartão da Angoship, participavam convidados escolhidos a dedo noutros órgãos e garinas de várias bandas, que se juntavam às nossas miúdas da fotocomposição. Além de nós os dois, faziam parte dos «bancadores» o António Bravo e o Adérito Quizunda, sendo que a coisa acabaria por morrer quando se pretendeu alargar a base de contribuintes. Afinal, a maior parte dos gajos só queria sambar a borliu. Na pinguilita.


O Aleluia não era só um bom vivant. Ele era um super-trabalhador, que dominava quase todo o processo de produção do jornal, embora o que ele mais gostava de fazer fosse mesmo escrever. Tanto é assim que mesmo como director de publicidade não abria mão da caneta. Quase não há palavras para qualificar a devoção que o A. Ferreira, era assim como ele assinava, tinha pelo trabalho. Merecedor indiscutível de pelo menos um «maboque», acabou por receber apenas um prémio nacional de jornalismo, numa altura em que a massa já era da pimpa.


O A. Ferreira era um camarada muito prestativo e generoso como poucos. Quando ele estivesse «quente», não tinha preguiça na hora de «distribuir a riqueza» aqui e acolá. Só uns cem «aleluias» eram capazes de tornar esse país muito melhor no capítulo da solidariedade.


Foi a Luísa Rogério quem me deu a notícia da morte do Aleluia, por volta das 12 e poucos. «O Didelas faleceu», disse ela, depois de me preparar. Eu que nunca mais tinha chorado, não resisti. «O quê?! O Didelas, o rei delas?!», ainda perguntara, incrédulo, mas, infelizmente, era verdade. Quem lhe deu esse nome fui eu, sendo apenas usado por mim e algumas outras pessoas muito próximas, como a própria mensageira, a minha amiga «vulnerável». Como troco, ele me tratava por «Bisnaga».


O Didelas, o rei delas deixa vários filhos com muitas senhoras. A todos eles, mais à Vita e ao velho, endereço sentidos votos de pesar. Vai então já só bem, camarada Aleluia, o gajo que tinha feitiço de arranjar patrocínio. Sempre lhe desconfiei que ele fosse da bófia, mas nunca aceitou abrir o jogo. Seja como for, uma coisa é certa: você é bué, mô compadre!



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